04/06/2026

Festival do Rio decola com comédia de Ang Lee sobre Woodstock

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Depois de dois anos iniciando sua programação com filmes duros e de temática social - caso de Tropa de Elite, em 2007, e Última Parada 174, em 2008 -, o Festival do Rio 2009 acena para os tempos da flor e do amor, dando sua partida nesta quinta (24) com Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee.

Exibido em competição no último Festival de Cannes, a comédia de Lee (Desejo e Perigo, O Segredo de Brokeback Mountain) mergulha nos bastidores daquele que foi o mais emblemático festival de rock de todos os tempos, em 1969. E reproduz, num tom cálido e respeitoso, o clima de um evento que deslocou 1,5 milhão de pessoas à remota cidadezinha de White Lake e mudou o mundo para sempre.

Como sempre, a programação do festival é volumosa, anunciando mais de 300 títulos, provenientes de 60 países e distribuídos em 20 mostras, em 40 locais de exibição, inclusive em 10 praças públicas – uma novidade deste ano. As convidadas de maior quilate vem da França, que tem seu ano no Brasil: a veterana atriz Jeanne Moreau e a belga radicada na França e pioneira da Nouvelle Vague Agnès Varda, que exibirá na mostra Panorama Mundial seu novo trabalho As Praias de Agnes, vencedor do prêmio César de melhor documentário. Outra presença esperada é do diretor argentino Juan José Campanella, diretor do sucesso O Filho da Noiva.

Como nenhum festival vira as costas para o pop, este aqui encerra sua programação em grande estilo, no dia 7 de outubro, com a première brasileira de Bastardos Inglórios, com direito à passagem de seu diretor, Quentin Tarantino, no Rio. O festival, porém, só encerra sua edição no dia 8 de outubro.

Nova safra brasileira
Uma das seções mais vistosas é sempre a Première Brasil, que exibe em primeira mão as novíssimas produções nacionais. Este ano, alguns dos títulos da competição são os aguardados Cabeça a Prêmio, adaptação do romance homônimo de Marçal Aquino e estreia na direção do ator Marco Ricca (Crime Delicado); Os Famosos e os Duendes da Morte, estreia em longas do premiado curta-metragista paulistano Esmir Filho (Alguma Coisa Assim) e que foi exibido no Festival de Locarno; Os Inquilinos, novo trabalho do habitualmente provocador Sergio Bianchi (Quanto Vale ou é Por Quilo?); e Hotel Atlântico, adaptação do romance de João Gilberto Noll dirigido por Suzana Amaral, rompendo uma ausência do cinema de oito anos, desde Uma Vida em Segredo.

A veterana Suzana, de 77 anos, terá, aliás, seu filme de estreia, A Hora da Estrela, vencedor do prêmio de melhor atriz para Marcélia Cartaxo em Berlim, em 1986, exibido em cópia recentemente restaurada.

A seção Panorama Mundial concentra alguns dos filmes que prometem a maior disputa por ingressos do público. É o caso do vencedor da Palma de Ouro em Cannes, A Fita Branca, em que o austríaco Michael Haneke (Caché) constroi um inquietante retrato das raízes do nazismo, radiografando os relacionamentos dentro de uma aldeia alemã, movidos pela repressão sexual e a crueldade impune, no início do século 20.

Outra boa atração de Cannes 2009 é a delirante comédia Les Herbes Folles, em que o mestre Alain Resnais (Medos Privados em Lugares Públicos), do alto de seus 87 anos, mostra que ainda não está disposto a se acomodar. Adaptando livro de Christian Gailly, ele desenvolve uma imprevisível história de amor, entre Marguerite (Sabine Azéma) e Georges (André Dussollier), a partir de uma carteira perdida.

Uma curiosidade desta seção será sem dúvida o documentário Maradona por Kusturica, em que o premiado diretor bósnio Emir Kusturica (A Vida é um Milagre) exercita sua paixão pelo futebolista argentino - que, como fica evidente pelo filme, é sua alma gêmea.

Latinos e gays
Preenchendo uma lacuna habitual do circuito comercial do País, a Première Latina reúne algumas boas produções do continente latino-americano. É o caso do documentário A Próxima Estação, do veterano argentino Fernando Solanas, que reúne impressionante material sobre o desmantelamento da antes sólida rede ferroviária argentina. O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri no último Festival de Gramado.

Também merecem uma olhada o climático A Criada, do chileno Sebastián Silva, e o poético O Presente de Pachamama, do japonês Toshifumi Matshushita, filmado na Bolívia e premiado no Festival Latino de São Paulo. Uma curiosidade está em Boogie, animação argentina dirigida por Gustavo Cova.

Uma das mais tradicionais mostras do festival, Mundo Gay traz este ano o documentário Os Tempos de Harvey Milk, de Rob Epstein. O filme revela a figura do militante Harvey Milk (1930-1978), que recentemente foi objeto da ficção Milk – A Voz da Igualdade, de Gus Van Sant, que deu o segundo Oscar de melhor ator para Sean Penn.

Outra atração aqui é o drama português Morrer como um Homem, de João Pedro Rodrigues, um dos filmes mais comentados da seção Un Certain Regard, do Festival de Cannes 2009.

A hora das descobertas
Em diversas outras seções do festival, exige-se uma certa disposição para descobrir novas formas de ver e fazer o cinema, com grandes chances de uma boa compensação. Um exemplo é o documentário Além do Jogo, do holandês Jos de Putter, já exibido no Festival É Tudo Verdade 2009. Parte da seção Midnight Movies, o filme revela os surpreendentes bastidores dos disputados campeonatos mundiais de jogadores de videogame.

Também entre os Midnight Movies está um pouco conhecido trabalho do celebrado Martin Scorsese, American Boy – O Retrato de Steven Prince. Realizado em 1978, o documentário traça um perfil de Steven Prince, que faz uma ponta em Taxi Driver, de Scorsese, e aqui conta sua trajetória como ex-drogado e empresário do cantor Neil Diamond.

Na seção Expectativa 2009, estão o polêmico e semiautobiográfico Eu Matei a Minha Mãe, do canadense Xavier Dolan, premiado na Quinzena dos Realizadores em Cannes 2009, e também a produção austríaca A Pequenina, de Tizza Covi, prêmio Label Europa Cinemas no mesmo festival. Não podia faltar uma produção romena, um dos países cuja originalidade mais tem se destacado nos últimos tempos. Trata-se de Piquenique, de Adrian Sitaru, sobre um grupo de pessoas numa situação-limite, premiado nos festivais de Tessalônica (Grécia) e Palm Springs (EUA).

Na mesma seção, figura um documentário brasileiro falado em inglês, 27 Cenas sobre Jorgen Leth, estreia na direção do jornalista e diretor do Festival É Tudo Verdade Amir Labaki. O tema é o cineasta dinamarquês Jorgen Leth, ídolo de Lars von Trier, e que realizou com este o criativo As Cinco Obstruções (2005).

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