A convite, Bressane voltou à Quinzena depois de exatos 34 anos - da primeira vez, desembarcou por aqui com seu segundo filme, Matou a Família e Foi ao Cinema. Mostrou que continua fiel a si mesmo, a um estilo que combina um experimentalismo fluido na linguagem para poder comportar as inúmeras citações literárias e pictóricas que tanto lhe agradam, bem como a alternância de texturas (há mesmo imagens com luz estourada e fora de foco), cor e preto-e-branco - uma riqueza visual aqui comandada pelo consagrado diretor de fotografia Walter Carvalho (de Abril Despedaçado, Lavoura Arcaica e tantos outros). Como é seu hábito, o cineasta apresentou o filme pedindo suavemente "paciência" a uma platéia lotada, no auditório do Hotel Noga Hilton, numa sessão a que compareceram Daniel Filho, o médico Drauzio Varella e sua mulher, a atriz Regina Braga, entre outros brasileiros presentes na Riviera. Mas, antes mesmo de passados dez minutos da projeção (com duração total de uma hora e meia) as fileiras começaram a se esvaziar. Os filmes de Bressane têm mesmo um ritmo todo particular que mesmo platéias preparadas como as de um festival nem sempre estão dispostas a compartilhar. Ao final, houve muitos aplausos mas também sonoras e persistentes vaias.
Bressane trabalha aqui pela terceira vez com o ator Fernando Eiras (escalado antes em O Mandarim e Dias de Nietzsche em Turim). Ele é um dos três protagonistas, ao lado de duas atrizes de teatro que estréiam no cinema, Bel Garcia e Josie Antello. Os trio encarna uma livre reinterpretação do mito das Três Graças, onde Bressane toma a liberdade de transformar uma delas num homem (Eiras), já que originalmente eram todas mulheres (Tália, Abigail e Eufrosina, representando o amor, a beleza e o prazer). São três pessoas comuns, que decidem passar algum tempo (indeterminado) dentro de um apartamento, embriagando-se, entorpecendo-se e buscando sensações novas, inclusive sexuais. Fazendo eco à franca desinibição que vem marcando informalmente este festival (especialmente depois da felação vista no concorrente americano à Palma, The Brown Bunny, de Vincent Gallo), o filme de Bressane mostra em close um pênis ereto e uma vagina totalmente raspada (esta última, um longo close). Há também cenas de sexo e nudez. A história se fecha numa bela seqüência, que incorpora as ruas do Rio de Janeiro (que já haviam aparecido antes), e devolve os personagens à sua vida cotidiana, em seu ambiente de trabalho. O homem é barbeiro, uma das moças é manicure, a outra ascensorista.
Tudo que a primeira parte do filme distancia, por ser um tanto recitativa, essa parte final inclui, no sentido de aproximar a platéia da humanidade dessas pessoas que se viu antes em contexto tão distinto. Não há como deixar de elogiar, também, a riqueza dos textos ditos pelos atores, alguns realmente preciosos e de clara inspiração literária, de diversas fontes. Uma das frases mais sintomáticas e que pode até servir como definição informal da filosofia de Bressane é esta: "O delírio é superior ao bom senso. O bom senso é humano, o delírio é divino". Na trilha sonora, o diretor-roteirista foi mais saudosista, resgatando velhas canções como Tabu, na voz de Ângela Maria, e Hino ao Amor, cantada por Vilma Bentivegna.
Cineweb-22/5/2003-12.50
