08/08/2026

Experimentalismo de Bressane
divide platéia em Cannes

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O carioca Julio Bressane impôs o seu rigor experimentalista com seu novo trabalho Filme de Amor, exibido pela primeira vez nesta noite de quarta (21), na Quinzena dos Realizadores, que constitui, desde 1968, uma verdadeira mostra alternativa dentro do Festival de Cannes embora não tenha o glamour de oferecer nenhum equivalente à Palma de Ouro da competição principal. O filme terá ainda duas exibições nesta quinta (22).

A convite, Bressane voltou à Quinzena depois de exatos 34 anos - da primeira vez, desembarcou por aqui com seu segundo filme, Matou a Família e Foi ao Cinema. Mostrou que continua fiel a si mesmo, a um estilo que combina um experimentalismo fluido na linguagem para poder comportar as inúmeras citações literárias e pictóricas que tanto lhe agradam, bem como a alternância de texturas (há mesmo imagens com luz estourada e fora de foco), cor e preto-e-branco - uma riqueza visual aqui comandada pelo consagrado diretor de fotografia Walter Carvalho (de Abril Despedaçado, Lavoura Arcaica e tantos outros). Como é seu hábito, o cineasta apresentou o filme pedindo suavemente "paciência" a uma platéia lotada, no auditório do Hotel Noga Hilton, numa sessão a que compareceram Daniel Filho, o médico Drauzio Varella e sua mulher, a atriz Regina Braga, entre outros brasileiros presentes na Riviera. Mas, antes mesmo de passados dez minutos da projeção (com duração total de uma hora e meia) as fileiras começaram a se esvaziar. Os filmes de Bressane têm mesmo um ritmo todo particular que mesmo platéias preparadas como as de um festival nem sempre estão dispostas a compartilhar. Ao final, houve muitos aplausos mas também sonoras e persistentes vaias.

Bressane trabalha aqui pela terceira vez com o ator Fernando Eiras (escalado antes em O Mandarim e Dias de Nietzsche em Turim). Ele é um dos três protagonistas, ao lado de duas atrizes de teatro que estréiam no cinema, Bel Garcia e Josie Antello. Os trio encarna uma livre reinterpretação do mito das Três Graças, onde Bressane toma a liberdade de transformar uma delas num homem (Eiras), já que originalmente eram todas mulheres (Tália, Abigail e Eufrosina, representando o amor, a beleza e o prazer). São três pessoas comuns, que decidem passar algum tempo (indeterminado) dentro de um apartamento, embriagando-se, entorpecendo-se e buscando sensações novas, inclusive sexuais. Fazendo eco à franca desinibição que vem marcando informalmente este festival (especialmente depois da felação vista no concorrente americano à Palma, The Brown Bunny, de Vincent Gallo), o filme de Bressane mostra em close um pênis ereto e uma vagina totalmente raspada (esta última, um longo close). Há também cenas de sexo e nudez. A história se fecha numa bela seqüência, que incorpora as ruas do Rio de Janeiro (que já haviam aparecido antes), e devolve os personagens à sua vida cotidiana, em seu ambiente de trabalho. O homem é barbeiro, uma das moças é manicure, a outra ascensorista.

Tudo que a primeira parte do filme distancia, por ser um tanto recitativa, essa parte final inclui, no sentido de aproximar a platéia da humanidade dessas pessoas que se viu antes em contexto tão distinto. Não há como deixar de elogiar, também, a riqueza dos textos ditos pelos atores, alguns realmente preciosos e de clara inspiração literária, de diversas fontes. Uma das frases mais sintomáticas e que pode até servir como definição informal da filosofia de Bressane é esta: "O delírio é superior ao bom senso. O bom senso é humano, o delírio é divino". Na trilha sonora, o diretor-roteirista foi mais saudosista, resgatando velhas canções como Tabu, na voz de Ângela Maria, e Hino ao Amor, cantada por Vilma Bentivegna.

Cineweb-22/5/2003-12.50

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