Os dois cantores, que visitaram Gramado pela primeira vez, provocaram uma reação histérica de parte do público, que lotou todas as ruas em torno do Palácio dos Festivais. Houve fãs que pularam grades, pelo menos uma desmaiou. O entusiasmo dos fãs foi maior do que o cordão de isolamento formado pelos agressivos seguranças foi capaz de segurar. Já no saguão do Palácio, uma fã mais afoita agarrou Zezé, levando uma cotovelada, depois um empurrão de dois seguranças, caindo no chão. Zezé, então, apressou-se em abraçar a moça.
A sessão do filme começou por volta da meia-noite e meia, com sala lotada até nos corredores, chegando a um público aproximado de 1.500 pessoas. Na sala, além dos cantores, estavam o diretor do filme, Breno Silveira, e todo o elenco principal, encabeçado pelos atores Ângelo Antônio e Dira Paes. O filme não participa da competição.
Também foi emotiva, mas sem incidentes, a entrega do troféu Oscarito ao casal mais tradicional das novelas brasileiras, Tarcísio Meira e Glória Menezes. Glória lembrou sua condição de gaúcha. Quase sem voz, Tarcísio agradeceu assim: “Este é o ‘Oscar’ que eu queria ganhar, o Oscarito. É a suprema honra para um ator ganhar um troféu com este nome”.
Os dois filmes nacionais da competição não deram motivo a tantas emoções. Cafundó, a esperada estréia na direção do ator Paulo Betti, investiu no misticismo da figura de João de Camargo (Lázaro Ramos), ex-escravo e tropeiro que, no século XIX, funda uma igreja na região de Sorocaba. Assim atrai multidões, que o acreditam capaz de curas milagrosas. Um primor de direção de arte (de Vera Hamburger), o filme tem roteiro do premiado cenógrafo e diretor de arte Clóvis Garcia (de O Beijo da Mulher-Aranha e Castelo Rá-Tim-Bum), que é também o co-diretor. Apesar das qualidades, é um trabalho de acesso difícil a um público mais amplo, embora tenha o mérito indiscutível de colocar em destaque a cultura negra no Brasil.
O concorrente gaúcho O Cerro do Jarau, de Beto Souza, já premiado no Festival de Recife em abril, parte de uma inspiração sobre uma lenda na fronteira do Brasil com o Uruguai. Mas o enredo se perde numa trama confusa, em parte policial, seguindo a pista de três primos (Tarcísio Filho, Lu Adams e Tiago Real) e um bandidão (Miguel Ramos).
Como costuma acontecer em Gramado, os filmes latinos foram melhores. O concorrente argentino Buenos Aires 100 km, de Pablo Jose Meza, retrata com honestidade a passagem à adolescência de quatro garotos que moram numa sonolenta cidade do interior. E o concorrente mexicano Um Dia Sem Mexicanos, de Sergio Arau – que estréia no Rio e em São Paulo também nesta sexta - dá um exemplo de um humor bem provocativo ao imaginar o desaparecimento misterioso de todos os mexicanos da Califórnia, provocando o colapso de diversos serviços e a discussão do histórico preconceito contra os imigrantes.
Presente a Gramado, o diretor Sergio Arau disse que foi exatamente essa a sua intenção: “Espero que ele chame a atenção para o problema da imigração”. O filme levou sete anos para ficar pronto.
