Uma noite com Sophia Loren
Cannes – Mesmo o 67º festival não tendo apresentado até agora nenhuma epifania, ver de perto a estrela italiana Sophia Loren, ontem à noite, foi um dos meus prazeres secretos.
Perto dos 80 anos, ela comtinua classuda, elegante, carismática, embora a idade, como acontece até mesmo às divas, cobre seu preço. Mas ela estava lá, radiante num vestido amarelo brilhante como o sol, na lotada sala Soixantième, de braço dado com o filho Edoardo Ponti, para apresentar a première de um curta dirigido por ele, La Voce Umana, em que ela volta a atuar, abrindo a reapresentação, numa esplêndida cópia restaurada, da comédia Matrimônio à Italiana (64), de Vittorio de Sica, parte da seção Cannes Classics.
Se alguém achou que ali estava uma velhinha aposentada, perdeu essa ilusão na própria apresentação – quando Sophia desautorizou a instrução do diretor artístico de Cannes, Thierry Frémaux, de que ela falasse italiano, para que ficasse mais à vontade, e que o filho, Edoardo, a traduzisse em francês. “Ma perchè, se posso parlare francese?”, protestou ela suavemente. Todos riram. Mas o fato é que ela começou a falar italiano, mas rapidamente fez o que bem entendeu, passando ao francês. Em sessão de diva, manda a diva, especialmente se é uma mamma napolitana.
Rever Sophia na tela foi uma dessas coisas que restauram nossa fé no cinema – ainda mais numa tarde em que eu tinha assistido há pouco o desastre da estreia de Ryan Gosling como diretor, Lost River. No curta La Voce Umana, inspirado em Jean Cocteau, Sophia vive uma velha amante abandonada, que fala sem parar por telefone com este homem que tanto a tem consumido, mas ao qual ela se sente implacavelmente ligada. Mostrando sem medo os efeitos da idade no seu belo rosto, ela mostrou que seu talento continua em forma.
Depois, revê-la no auge de seus 30 anos como a maravilhosamente humana Filumena Marturano na comédia de De Sica, baseada na peça de Eduardo Di Filippo, ao lado de seu maior companheiro na tela, Marcello Mastroianni – cujo olhar ilustra o belíssimo cartaz do festival deste ano – fechou a melhor das noites. Não há como não sair em estado de graça de uma sessão assim.

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Há muito que o cineasta iraniano Mohsen Makhmalbaf (Um Instante de Inocência, Gabbeh) mistura vida e obra, processo e resultado, encenação e realismo. Como faz em seu novo filme, o documentário O Jardineiro, que teve uma única e concorrida sessão na Mostra de São Paulo (porque apenas isso foi autorizado por seu distribuidor norte-americano). Makhmalbaf é visto na tela, filmando e conversando com um de seus filhos, Maysam, mostrando-se a si mesmo e ao filho filmando, tendo como objeto uma religião cujos seguidores são perseguidos no Irã – os Baha’i. Aliás, perseguidos há muitos anos, não apenas pelo atual governo.