17/06/2026

Também é dura a vida em Brasília

Críticos de cinema muitas vezes quase moram em festivais, que se espalham pelo calendário anual com uma fertilidade espantosa, inversamente proporcional à secura que abala as plantações do país. Por esse motivo, pouco mais de uma semana depois de ter voltado de Veneza, estou em Brasília, onde só o que chove são filmes.
 
Dois dias depois de começado o festival, já dá pra ver que o desafio para a coluna dorsal será enorme. Afinal, as antigas e castigadas cadeiras do Teatro Nacional Cláudio Santoro não são mesmo próprias para quem precisa, como os críticos aqui presentes, enfrentar diariamente sessões que se prolongam por cinco horas, com curto intervalo, entre 19h e 0h.
 
O sacrifício se impõe devido à reforma – muito necessária também – do Cine Brasília, sede histórica deste festival, e também à dilatação da programação, que reúne curtas e longas documentais e ficcionais enfileirados.
 
Haja coluna, haja olhos, haja resistência. E que não nos falte coração para acolher esta nova safra do cinema brasileiro que está chegando.
 
E viva Paulo Emílio, sempre! Aliás, este ano lembrado neste 35º ano de sua morte em mais uma publicação do festival, Paulo Emílio Salles Gomes – O Homem que Amava o Cinema e Nós que o Amávamos Tanto, organizada pela jornalista Maria do Rosário Caetano e reunindo inúmeros textos sobre ele, escritos por Antonio Candido, Ismail Xavier e inúmeros outros autores, inclusive eu, relatando uma minha modesta lembrança afetiva de um fortuito encontro que tive com o mestre, na ECA, poucos meses antes de ele morrer.

É dura a vida em Veneza...

Além do festival mais antigo do mundo – fez 80 anos extraoficiais este ano, já que foi criado em 1932 (mas só teve 69 edições por interrupções, como a II Guerra), Veneza também deve ser um dos mais confusos, em termos de organização.
 
Brasileiros viciados no seu velho complexo de viralata tem tudo para superar a síndrome aqui.Impressionante como, apesar de todas estas décadas de festival, na Sereníssima e multicentenária República de Veneza, persistem velhas deficiências de estrutura, como a rede wifi, particularmente precária este ano.
 
Todo ano, milhares de jornalistas vêm aqui. Este ano, Veneza iniciou um mercado de filmes, motivo pelo qual está recebendo gente da indústria, possivelmente em número expressivo. Como não se aparelhou para isso? Por que?
 
Na sala de imprensa do vetusto Cassino do Lido – um prédio de mármore e pé direito altíssimo, ressoando sua inspiração na megalomania mussolliniana -, não há lugar para nem metade dos jornalistas credenciados se sentarem. O jeito é sentar em bancos sem encosto, nem mesa para apoiar os computadores, ou no chão mesmo. Este ano colocaram um carpetinho muito do xexelento, e foi tudo. As costas de quem cobre o festival que se danem!
 
Agora mesmo, quando escrevo – são 16 h aqui -, uma enorme fila está formada diante da porta que abriga os computadores postos à disposição da imprensa pelo próprio Festival. Está com jeito que vai demorar muito...
 
Nesta primeira edição da volta do signore Alberto Barbera à direção de Veneza – ele que havia dirigido o festival há 10 anos atrás -, houve, porém, uma boa notícia, a nova vinheta – a antiga, inspirada no cinema mudo, ninguém aguentava mais! Até porque era ruim.
 
Mesmo sem ser particularmente ousada, a nova vinheta é simples, colorida, funde imagens de filmes de diversos países e termina com um rinoceronte azul num barquinho, com um menino pescando na ponta, que ilustra os cartazes e o catálogo deste ano. E la nave va.

Contra a praga da dublagem

Aviso logo que sou contra a dublagem – a não ser em filmes infantis, é claro. Mas acho que quando está devidamente alfabetizada, por volta dos 10, 11 anos, uma criança pode e deve começar a assistir filmes legendados, para se acostumar, como aconteceu com a minha geração. Especialmente pela chance única de conhecer as vozes dos atores estrangeiros e assimilar sua técnica de interpretação, um privilégio que não tem preço.
 
De uns anos para cá, no entanto, cresceu bastante a oferta de filmes dublados no Brasil, seja na TV paga, seja nos cinemas – que era, até bem pouco tempo, o último reduto onde essa técnica reducionista e mercantilista não chegava. Nos DVDs, a opção vem sendo igualmente incluída.
 
Na Europa, há décadas, vários países a adotam quase completamente (umas poucas salas de arte exibem a versão original legendada) – França, Espanha, Alemanha, Itália. Uma verdadeira praga nacionalista, que impede muitas pessoas de conhecerem a voz verdadeira de atores como Al Pacino, Jack Nicholson, Johnny Depp, Susan Sarandon, Meryl Streep, Gérard Depardieu, Jeanne Moreau, Catherine Deneuve, Fernanda Montenegro, ou quem quer que seja. Os espectadores só conhecem a voz dos dubladores – que podem ser ótimos profissionais, mas não conseguem reproduzir todas as nuances da interpretação de um verdadeiro ator.  
 
Dizem-nos, aqui no Brasil, que o público, inclusive a ascendente classe C – que agora é citada para tudo, havendo razão ou não – exige a dublagem. Que facilita a ampliação do acesso aos filmes, especialmente para aqueles que desconhecem línguas estrangeiras. Que aumenta a bilheteria. Há todo tipo de argumento, inclusive o de que cresceu o público que pede por isso.
 
Pelo menos a última parte do argumento não é verdade no cinema. Pesquisa realizada recentemente a pedido do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Município do Rio de Janeiro (SEDCMRJ), divulgada pelo Filme B, revelou que continua estacionada a proporção de pessoas que preferem os filmes dublados no cinema – 56%, contra 37% dos defensores das legendas, mesmo índice da última pesquisa, realizada em 2007.
 
Já entre os espectadores da TV paga, cresceu ligeiramente a turma pró-dublagem – de 49% em 2007 pulou para 56%. A turma pró-legendas caiu de 43% para 35%.
 
Não discuto com números – os que preferem dublagem são maioria. Mas está longe de ser esmagadora – para mim, uma proporção de 37% e 35% é significativa demais para ser simplesmente ignorada e tragada na dublagem de ponta a ponta na programação, seja do cinema, seja da TV paga.
 
Para piorar, parte significativa da dublagem, especialmente na TV, é de má qualidade. Como isso tem custo, as empresas responsáveis economizam não recorrendo a dubladores profissionais. Os lucros devem crescer, mas o resultado é medonho! Um verdadeiro desrespeito, uma profanação do filme.
 
Na TV aberta, a dublagem já domina há muito tempo, com qualidade tão precária quanto a ouvida em vários canais a cabo (é certo que não todos).
 
Vejo com muita preocupação essa tendência. Acho que a legendagem – evidentemente que também muito bem-feita, sem erros de português, nem de tradução – estimula a cultura. É um incentivo para que o espectador preste atenção às vozes e sons de um filme, a que aprenda a avaliar uma boa interpretação no original. Estimula a manter a atenção de maneira mais ampla e qualificada. A dublagem só incentiva a acomodação e a preguiça. E impede o acesso a uma parte daquilo que constitui a própria essência de um filme, as interpretações originais.
 
Eu é que não ia gostar de nunca ter ouvido a voz de um Marlon Brando, um Orson Welles, uma Greta Garbo, uma Marilyn Monroe, um Marcello Mastroianni, uma Marlene Dietrich, um Jack Lemmon... A lista é infinita.
 
Espero que a praga da dublagem não pegue entre nós. Para nosso bem e do próprio cinema.

Esses maravilhosos atores destemidos: Meryl, Tommy e Juliette

Das estreias desta semana, duas dão oportunidade para que a gente constate o quanto alguns atores e atrizes se entregam aos seus papeis sem medo de dar vexame.
 
 
No primeiro, uma comédia dramática sobre um casal veterano que perdeu o rumo da paixão, é um prazer ver como Meryl Streep e Tommy Lee Jones (foto) dão tudo de si, vivendo situações em que a malícia sexual é obrigatória para dizer o que se tem a dizer. Os dois estão ótimos, fazendo esquecer aqueles clichezinhos que atravancam o caminho da história de vez em quando.
 
No segundo, é Juliette Binoche quem se atira no papel de uma desmemoriada – uma mulher de 41 anos que não se lembra do que fez desde que tinha 25, mas tem que encarar as consequências. E tentar não deixar ninguém perceber, para que não a internem como louca.
 
Nessa corda bamba da história, a um passo da tragédia e da comédia, Binoche mais uma vez se arrisca – como fez em filmes menos agradáveis, como Elles. Musa absoluta do cinema francês, ela não tem medo de errar. E, quando erra, sobrevive. E parte para a próxima.
 
Como não se apaixonar por essa maravilhosa coragem dos grandes atores?

Maltratados no cinema: Chiara Mastroianni e Louis Garrel

Dois atores talentosos vêm sendo muito “maltratados” no cinema francês. Refiro-me a Chiara Mastroianni e Louis Garrel.
 
Chiara custou a se livrar da sombra dos pais – normal, em se tratando de monstros sagrados como Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve. Foi engatando na carreira e hoje acho que já demonstrou seu talento e até sua beleza singular – aliás, ela se parece bem mais com Marcello, de quem tem um vago e doce ar melancólico, do que com La Deneuve.
 
Talvez ela seja generosa demais com alguns diretores, como Christophe Honoré, que deve até ser seu amigo. Mas como ele judia dela em seus papeis! A pobre Chiara é sempre maluca e infeliz no amor, como acontece em Não, minha filha, você não irá dançar (um filme que tem um roteiro incrivelmente cruel e impiedoso com sua personagem)e Bem-Amadas (em cartaz em alguns lugares no Brasil), em que ela se apaixona perdidamente por um gay (Paul Schneider) e esnoba a paixão de outro homem (Louis Garrel).
 
Galã absoluto do cinema francês, Louis Garrel é, a meu ver, outra vítima de papeis repetidamente infelizes, em mais de um sentido. Seu próprio pai, Philippe Garrel, especialmente depois do sublime Amantes Constantes, parece estar se “vingando” do filho.
 
Senão, vejamos: em A Fronteira da Alvorada, Garrel é um homem apaixonado e atormentado pela fantasma da ex; no mais recente Um Verão Escaldante, ele morre na primeira cena, jogando seu carro numa árvore, novamente por total infelicidade amorosa.
 
Ele não teve muito melhor sorte como o professor que se apaixona por uma aluna (Léa Seydoux) em A Bela Junie, novamente de Christophe Honoré. Êta diretor que maltrata seus atores!!!!!  
 
Vamos combinar que as escolhas devem ser dos próprios atores, que precisam inovar. Afinal, tanto Chiara quanto Louis são capazes de interpretações bem mais complexas e sutis – como se viu, no caso de Chiara, em Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin; e, no caso de Louis, em Os Sonhadores.
 
Vamos acordar, Chiara e Louis ? Parem de sofrer tanto assim. Ou sofram em filmes melhores. Para o bem de nós, que amamos o trabalho de vocês.

A necessidade das mulheres de fibra

Nesta mesma semana em que estreia o drama biográfico Além da Liberdade, que focaliza uma extraordinária mulher lutadora pela democracia, a birmanesa Aung Suu Kyi, me deparei com uma assustadora série de ótimas matérias no jornal inglês The Guardian sobre a apavorante situação das mulheres no mundo.
 
Uma pesquisa da Fundação Thomson Reuters para o lançamento de um novo site de aconselhamento legal gratuito para mulheres, o Trustlaw Women, apontou os cinco piores países do mundo para as mulheres: Afeganistão, Congo, Paquistão, Índia e Somália.
 
Até a Índia, integrante do BRICS e do G-20, uma das maiores economias do mundo... A rica e milenar história indiana não impediu uma situação em que, hoje ainda, se multiplicam casos de estupro, raptos, violência, fora a discriminação antes de nascer. Dada a preferência absoluta por um filho homem, por questões corriqueiras como um dote matrimonial (causa de muitos assassinatos femininos, aliás), estima-se que cerca de 12 milhões de meninas teriam sido abortadas na Índia nos últimos 30 anos (dados do Lancet).
 
Não quero entrar em detalhes dos números, nem me arvorar em especialista. Nada tenho contra quaisquer dos países mencionados acima.
 
Aliás, a violência contra a mulher não tem pátria – existe em todos os lugares, em maior ou menor grau, por algumas razões obscuras do nosso ainda precário e incompleto desenvolvimento humano. Nós, do Brasil, embora felizmente estejamos fora dessa temível lista dos “top five”, temos os nossos pecados para resolver. Senão, nem existiriam as Delegacias da Mulher ou leis, como a Maria da Penha.
 
Meu sentimento é de perplexidade – quando e como vamos superar isto?
 
E isto me traz de volta a Aung Suu Kyi e seu filme (um pouco sentimental demais, é verdade). Continuamos precisando desesperadamente não só de heroínas, mas de mulheres fortes como ela. Até para não sermos cúmplices dos carrascos.
 
Quem quiser ler alguns artigos no The Guardian a respeito destas questões, vale a pena:
 
http://www.guardian.co.uk/world/2011/jun/15/worst-place-women-afghanistan-india?intcmp=239
http://www.guardian.co.uk/world/2012/jul/23/why-india-bad-for-women?intcmp=239

Batman eletriza de novo, esnobando o 3D

O diretor inglês Christopher Nolan desafia a febre onipresente do 3D, recusando a tecnologia, mais uma vez, em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge. O esperado fecho da trilogia sobre o personagem criado por Bob Kane, que teve sua primeira sessão para a imprensa na manhã desta quinta (19-7). A estreia nacional está marcada para dia 27.
 
Para encher os olhos desta aventura febril, cheia de adrenalina mas também de moral e relações humanas, Nolan apostou, em compensação, na tecnologia IMAX. Ele filmou com uma câmera IMAX de alta resolução pelo menos 40% do filme, ou seja, 72 minutos de um total de 164 minutos. Valeu muito a pena. O filme é de sacudir na cadeira.
As quase três horas da aventura não se fazem sentir, no entanto, porque Nolan não deixou de amarrar um roteiro bem sólido, que ele assina, mais uma vez, em parceria com o irmão, Jonathan Nolan.
 
Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge se supera em tudo, em relação aos dois primeiros filmes de Nolan, de 2005 (Batman Begins)  e 2008 (Batman - O Cavaleiro das Trevas), inclusive na dimensão dos vilões. O Coringa, o Charada, ou qualquer um dos inimigos de Batman são fichinha perto de Bane (Tom Hardy), uma verdadeira máquina de destruição de quem não se vê nem o rosto, coberto com uma semi-máscara que lhe injeta continuamente anestésicos (quem assistir ao filme saberá porquê), o que contribui para uma aparência de feroz gladiador terrorista moderno.
 
Há outros vilões secundários que fazem seu estrago – e a identidade de pelo menos um deles não deve em hipótese alguma ser revelada, sob pena de estragar uma das melhores viradas do roteiro.
 
Diga-se apenas que Batman (Christian Bale) está de volta depois uma longa ausência, com sua aura de herói ofuscada pela acusação de ter matado o paladino da lei Harvey Dent (Aaron Echkardt). Custa muito que ele se convença a assumir de novo a fantasia negra, voando pelos céus e pelas ruas a bordo das novas máquinas desenvolvidas por Lucius Fox (Morgan Freeman) – a melhor delas, uma moto capaz de mudar de forma que, no devido tempo, vai servir para umas voltinhas da nova e sensual Mulher-Gato (Anne Hathaway, dando conta muito bem da ambiguidade do papel).
 
O terceiro filme da série volta às origens, à Liga das Sombras, à formação do herói e à responsabilidade das figuras paternais, dos modelos. Batman mesmo é um exemplo para o policial Blake (Joseph Gordon Levitt), que pouco a pouco deixa de ser uma figurinha subalterna e se coloca ombro a ombro com o mais uma vez essencial comissário Gordon (Gary Oldman).
 
O bom da história é dotar todos os personagens, bons ou maus, de algumas nuances duvidosas, ou frágeis, tornando todos humanos. Até Bane, que parece um monstro incontrolável, tem um aspecto elogiável, que vai custar muito a aparecer, é verdade.
 
Enquanto isso, Gotham City vai sofrer todos os abalos que os efeitos especiais de última geração podem fazer – explosivos e até uma ameaça nuclear estão na lista dos perigos com que Batman e seus aliados têm que lidar. E o filme de Nolan segura genuinamente o suspense para que o espectador sinta que o Cavaleiro das Trevas pode mesmo falhar.
 
Sem entrar em detalhes – será que a saga de Batman acaba mesmo aqui? Há controvérsias.
 

O durão de sorriso franco - saudades de Ernest Borgnine

É triste começar uma semana falando de morte, mas quando se perde um ator talentoso como Ernest Borgnine, não dá para se omitir. Esse que foi quase uma história do cinema norte-americano em si mesmo, com mais de 200 filmes (entre TV e cinema) no currículo, morreu no domingo (8-7), aos 95 anos.  Trabalhando até o final da vida. Ele venceu um Oscar de melhor ator em 1955 como protagonista do drama romântico Marty, de Delbert Mann, mas na verdade ficou muito mais conhecido como durão, estrelando uma série de faroestes como Johnny Guitar e Vera Cruz, ambos de 1954, e Meu Ódio Será Tua Herança (1969).

Usando os dez anos que passou na Marinha antes de tornar-se ator, também atuou em uma série de dramas de guerra classudos, como A um Passo da Eternidade (1953) e Os Doze Condenados (1967).

Não esnobou gêneros, participando de séries de TV, como Magnum, Águia de Fogo e Plantão Médico e comédias – como a recentíssima Red – Aposentados e Perigosos (2010).

Seu físico atarracado lhe garantiu muitos papeis de valentão, que ele defendia muito bem, sim. Mas seu sorrisão mostrava que ele tinha um outro lado da mesma envergadura. Não foi à toa que, no final da vida, emprestou seu vozeirão para um personagem da série animada Bob Esponja. Borgnine era um ator maiúsculo, versátil, forte e engraçado quando cabia. Vai fazer falta.

Andrew Garfield: um Homem-Aranha mais solto

Conhecido por filmes como A Rede Social e O Mundo Imaginário do dr. Parnassus, Andrew Garfield passou no teste: encarnou num novo Homem-Aranha cativante no primeiro filme da nova franquia, O espetacular Homem-Aranha, que estreia no Brasil dia 6 de julho.
Com quase 29 anos, mas com cara e físico de bem menos, Garfield encarna um herói menos travado do que Tobey Maguire, embora carregue as mesmas contradições, afinal – história familiar atribulada, dificuldade para lidar com seus poderes. Mas Garfield tem uma atitude mais leve.
 
O tom do novo filme deve certamente ao novo diretor, Marc Webb, que esteve no Brasil há três anos para lançar seu ótimo romance 500 Dias com Ela. O romance do Homem-Aranha também caminha melhor neste filme, tendo em Emma Stone (Histórias Cruzadas) uma heroína mais descolada e charmosa do que Kirsten Dunst.
 
A modernizada vem no comportamento de Peter Parker/Homem-Aranha, que anda de skate – e o usa muito bem para dominar sua nova velocidade, adquirida depois do contato com os aracnídeos. A nostalgia, bonitinha, fica por conta da dupla Sally Field/Martin Sheen, fofinhos como os tios do herói.
 
Nem tudo é perfeito – o look do vilão, dr. Curt Connors/Lagarto (Rhys Ifans), é meio trash. Fãs ouvidos ao final da primeira sessão do filme no Brasil, nesta segunda (25-6), em São Paulo, reclamaram da falta do jaleco e do “arredondamento” da cara do bicho. Tem um momento dele no filme, numa ponte de Nova York, que está bem para Godzila – uma comparação que o roteiro não perde de vista, num divertido diálogo entre Peter e o pai de sua amada, o capitão Stacy (Denis Leary), chefe da polícia da cidade. Outra sequência remete, mais uma vez, ao bom e velho King Kong, desta vez sem macaco.
 
Os voos do Aranha são bem legais e arrepiantes. Um bom momento está num momento em que ele precisa e recebe uma ajuda de motoristas de guindastes, deslocando uma série de vigas. Melhor não contar o resto, senão estraga.