O velho leão Coppola ainda ruge
O velho chefão do cinema, Francis Ford Coppola, está em fase intimista. Já faz algum tempo que ele toca projetos por assim dizer pequenos – que ele mesmo dá conta de financiar – e cujas histórias ele mesmo escreve.
Foi assim em Velha Juventude (Youth without youth, 2007, a partir de livro de Mircea Eliade); Tetro (2009, inspirado num verso de Mauricio Kartun); e em seu mais recente trabalho, Twixt, ainda sem distribuidor no Brasil.
Neste roteiro original de Coppola, ele exorciza a provável maior dor de sua vida – a perda do filho Gian-Carlo, em 1986, aos 22 anos, num horrível acidente de lancha. Mas não se trata de um exorcismo qualquer, nem direto, até porque o roteiro, assumidamente, se baseia num sonho que o diretor teve em Istambul, onde ele pretendia filmar Twixt.
Cruzando o registro do sonho com o retrabalho da própria imaginação, Coppola chegou a um relato gótico, que leva um escritor (Val Kilmer) a uma cidade perdida, Swan Valley, assombrada por um massacre de crianças e por seus fantasmas. Uma dessas aparições juvenis, V., é vivida por Elle Fanning, a talentosa menina de Um Lugar Qualquer, de Sofia Coppola.
Outro fantasma, este famoso, que frequentou o sonho turco de Coppola e também chegou ao filme, é ninguém menos do que o escritor Edgar Allan Poe (Ben Chaplin) – que passou sua curta vida perturbado pela perda de sua mulher adolescente, Virginia, que tinha apenas 14 anos quando morreu.
Numa longa entrevista à revista Cahiers Du Cinéma de abril, Coppola abre seu coração como poucas vezes se vê. Conta detalhes de como realizou esta produção, afinal, em sua maior parte, filmada nos arredores de sua casa, na California, e por isso mesmo, mais enraizada ainda numa chave pessoal. Especialmente porque Coppola chamou para ajudá-lo na produção ninguém menos do que sua neta Gia, de 24 anos, a filha de Gian-Carlo que ele nem conheceu, porque nasceu depois de sua morte.
O diretor fala na revista dos sucessos passados, O Poderoso Chefão, Apocalipse Now, e reconhece que ocorre muitas vezes aos cineastas que vivem e trabalham por um longo período, caso dele, serem atormentados com a comparação do próprio trabalho. Realista, ele mesmo acredita que seus filmes antigos eram incomparáveis, porque nutridos com a força da criatividade da juventude. E que nada pode ser mais inibidor para um cineasta do que fazer ele mesmo esta comparação.
Coppola não quer saber disto e nem se preocupa demais com a recepção da crítica já que também se lembra o quanto O Chefão e Apocalipse foram mal avaliados por muitos na época de seu lançamento. O reconhecimento veio décadas depois e ele acha que não tem tempo de esperar de novo uma mudança de ideia dos críticos em relação a seus filmes mais recentes.
Tudo que o chefão quer é terminar com Twixt esta que considera uma espécie de trilogia intimista e produzir um filme de grande orçamento em futuro bem próximo. Pode ser que o adiado Megalopolis venha finalmente por aí.


A esta altura de Cannes, faltando dois dias para encerrar o festival, com 17 dos 22 concorrentes à Palma já exibidos, todo mundo só quer saber de favoritos e bolsas de apostas.