17/06/2026

Uma vitória de sinais trocados entre os EUA e a França no Oscar

Com a consagração do filme franco-belga O Artista, de Michel Hazanavicius no Oscar 2012, deu-se uma curiosa troca de gentilezas entre os EUA e a França, que não raro os yankees consideram sua maior rival, especialmente em termos cinematográficos.
 
Foi uma vitória de sinais trocados, se se pensar que O Artista, apesar do passaporte francês, é a mais cristalina homenagem ao cinema americano dos seus primeiros tempos e estúdios. A celebração das origens do cinema francês está, ironicamente, no filme americano A invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese, que resgata o pioneirismo de George Meliès. Para ser justa, a França devia ter dado o César de melhor filme a Scorsese.
 
De todo modo, foi uma vitória francesa inédita na história do Oscar e também a consagração de um filme mudo e preto-e-branco pela primeira vez em 83 anos – em 1929, primeira festa do Oscar, quem levou como melhor filme  foi Asas, mas ainda se fazia a transição do cinema mudo para o sonoro. Levando melhor filme, diretor (para um surpreendente Hazanavicius, que não tinha no currículo mais do que comédias arremedando James Bond que faziam escasso sucesso fora das fronteiras gaulesas) e ator (para um Jean Dujardin que lembra demais Gene Kelly), a produção fechou com chave de ouro uma temporada em que arrebatou todo e qualquer prêmio importante à vista, do Globo de Ouro ao Bafta e de inúmeras associações de críticos mundo afora.
 
Foi uma derrota para Scorsese? Em termos de importância dos troféus, sem dúvida, porque, apesar do esplendor técnico, justamente premiado com cinco estatuetas, o que A Invenção de Hugo Cabret celebra da melhor maneira é a capacidade de sobrevivência da fantasia e da imaginação. E este aspecto não foi premiado sequer no roteiro adaptado, que ficou para o competente, mas morno Os Descendentes. A vitória da imaginação foi o Oscar de roteiro original para o delicioso Meia-Noite em Paris, troféu com que Woody Allen cala a boca dos que insistem em declarar morta sua criatividade, aqui melhor do que quase nunca antes.
 
Resgatando Meryl Streep de uma longuíssima série de indicações sem prêmios, o troféu para sua encarnação de Margaret Thatcher em A Dama de Ferro tem, apesar da justiça ao talento refinado da melhor intérprete de sua geração, um travo amargo. Há muito Meryl merecia um novo Oscar, mas ela e o público mereciam mais ainda que fosse por um filme melhor. O de Phyllida Lloyd barateia a História, não dá conta de sua protagonista e, de quebra, não faz justiça à atriz. Melhor seria ter ficado para Glenn Close, estrela de brilho intenso e raro no pequeno mas muito honesto filme Albert Nobbs
 
Grandes filmes, como A Árvore da Vida, de Terrence Malick, não tiveram vez. Suas três indicações foram só para cumprir tabela, como se diz no futebol.
 
O maior fora da cerimônia, sem dúvida, foi a omissão do nome do diretor grego Theo Angelopoulos entre os mortos ilustres do cinema no ano passado. Com toda a estrutura que tem a Academia, uma omissão verdadeiramente imperdoável.

O poder dos sindicatos no Oscar

Com o prêmio de melhor ator dado pelo Sindicato dos Atores da América (SGA) ao francês Jean Dujardin, protagonista de O artista, parece estar se fechando o círculo que pode consagrar no Oscar 2012 este surpreendente azarão francês, que homenageia o cinema de antigamente cometendo a ousadia de conservar-se mudo e preto-e-branco. O prêmio a Dujardin somou-se ao troféu de melhor diretor dado pelo Sindicato dos Diretores da América (DGA) ao também francês Michel Hazanavicius – batendo medalhões nativos como Martin Scorsese, Woody Allen, Alexander Payne e David Fincher - e à sagração de O artista como melhor filme na premiação do Sindicato dos Produtores da América (na qual o poderoso Steven Spielberg pelo menos coletou seu prêmio de melhor animação por As aventuras de Tintim).

O poder destes sindicatos no Oscar decorre de compartilharem com a Academia de Ciências e Artes Cinematográficas boa parcela de seu corpo de eleitores – o que, em tese e pela experiência de anos anteriores, sinaliza que a premiação do Oscar segue de perto as escolhas destas entidades sindicais.

Antes que alguém ache que os brios nacionalistas que costumam conduzir o Oscar terão enfraquecido, caso a premiação principal se confirme para O Artista, é bom lembrar que o filme é uma explícita homenagem ao cinema norte-americano em seus primórdios. O fato de ser mudo até o finalzinho, quando finalmente ouve-se um som, apenas descomplica a questão da barreira linguística. E prova mais uma vez que a linguagem do cinema independe de idioma.

Ainda assim, se O artista levar mesmo o Oscar de melhor filme, no próximo dia 26, não deixará de ser ironia lembrar que, no começo de 2003, vários americanos patrioteiros e enfurecidos derramaram vinho francês na rua, em protesto pela oposição da pátria de Catherine Deneuve e Gérard Depardieu à guerra do Iraque. Nada como um dia após o outro para os rivais se reencontrarem na arte que foram mesmo os franceses que inventaram – embora eventualmente os norte-americanos ainda disputem essa primazia...

Surpresas e ausências do Oscar 2012

Boas surpresas e algumas ausências imperdoáveis nas indicações ao 84º Oscar. Entre as surpresas positivas, a volta de Woody Allen às indicações top, com melhor filme/diretor/roteiro original para o delicioso Meia-noite em Paris, um dos filmes mais imaginativos do ano passado; a dupla indicação do drama iraniano A Separação (foto), um dos melhores roteiros dos últimos tempos; a indicação como melhor atriz para a jovem Rooney Mara, realmente a melhor coisa de Millenium – os homens que não amavam as mulheres, de David Fincher; a volta de Glenn Close, um bom tempo estrelando seriados de TV, numa indicação como melhor atriz (por Albert Nobbs).

Não foi surpresa, mas foi coisa boa, a consagração do filme francês O Artista – mudo, preto-e-branco e uma gracinha. Pode fazer história como o filme francês (e mudo) com mais indicações (10) e mais prêmios de toda a história do Oscar. Será?

Boa notícia também foi ter Terrence Malick e o belíssimo A árvore da vida nas categorias principais, filme e diretor. Gostaria também que Brad Pitt tivesse sido indicado por este filme, não por O homem que mudou o jogo, bem como Jessica Chastain (lembrada como coadjuvante por Histórias cruzadas). Mas é claro que os dois são atores magníficos e estão bem nos dois trabalhos; é uma questão de estilo e de grau.

Entre as ausências, a lamentar como imperdoável a da inglesa Tilda Swinton, em trabalho impecável no drama Precisamos falar sobre o Kevin, da escocesa Lynne Ramsay. E também de Leonardo DiCaprio, que faz um trabalho magistral na pele do chefão do FBI no drama J. Edgar, de Clint Eastwood, que aliás passou totalmente em branco aqui.

Nas animações, senti falta de Rio, do brasileiro Carlos Saldanha, e de As aventuras de Tintim (foto), de Steven Spielberg. Qualquer um dos dois entraria melhor no lugar de O gato de botas, um dos piores roteiros de animação dos últimos tempos.

Nos filmes estrangeiros, o “erro” fica por conta do israelense Footnote, uma indicação inexplicável, a meu ver.

Mais ausências sentidas: Shame, o vigoroso drama do britânico Steve McQueen, e seus atores, Michael Fassbender (premiado em Veneza) e Carey Mulligan. E também Um método perigoso, do canadense David Cronenberg, que revive com intensidade a amizade entre os dois pioneiros da psicanálise, Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e Carl Jung (Michael Fassbender). Os dois atores, aliás, deveriam ter sido indicados também por este trabalho.

Em tempo: não vejo a hora de conferir A invenção de Hugo Cabret, o campeão de indicações (11), de Martin Scorsese.

E fico pensando se Mahmoud Ahmadinejad vai deixar o diretor Asghar Farhadi, de A separação, participar da festa do Oscar.... Tomara que sim, mas os precedentes no Irã, para os cineastas, têm sido péssimos.

Meus melhores filmes estrangeiros de 2011

Seguindo o balanço 2011, hoje falo dos estrangeiros. O ano foi excepcional em alguns dos maiores e melhores festivais do mundo (Cannes e Veneza, certamente) e, em parte, essa qualidade se refletiu aqui. Mas ainda falta chegar muito ao nosso circuito;
 
Espero que em 2012 a gente tire esse atraso.
 
Minha lista dos melhores 15 do ano:
 
A árvore da vida (foto acima)
 
Menções muito honrosas (tenho um enorme carinho por estes três):
 
 
Na parte de retrospectivas, ótimas mostras (Nicholas Ray, Clint Eastwood, no CCBB; cinema italiano no MIS) e a espetacular cópia nova de Taxi Driver, de Martin Scorsese – que passou na Mostra de SP e no cine Olido paulistano, por uma semana, agora em dezembro.
 
Tomara que em 2012 sejam lançados logo: Shame, de Steve McQueen (e que algum distribuidor brasileiro lance o primeiro filme desse excepcional diretor britânico, Hunger, com o mesmo Michael Fassbender, ator magnífico); Um método perigoso, de David Cronenberg (com Fassbender, de novo, num duelo de interpretações sensacional com Viggo Mortensen); e Precisamos falar sobre o Kevin, com a excepcional atriz inglesa Tilda Swinton, para mim, a melhor da atualidade no mundo. É ver para crer.

Meus melhores filmes brasileiros de 2011

Fechando o balanço do ano, vou começar pelos filmes nacionais. E não quero me limitar aos tradicionais 10 melhores – vou ficar com 15 porque não quero deixar nenhum destes de fora. Abaixo a ditadura matemática!
 
 
Aqui estão meus preferidos do ano:
 
Bróder (foto acima)
Corumbiara
 
De longe, dá para ver que há menos filmes de ficção (6) do que documentários (9). O ano não me pareceu especialmente bom na ficção, apesar dos estrondosos sucessos de bilheteria, muitos de qualidade duvidosa, do meu ponto de vista. Mas, se é bom para a indústria, que seja, vá lá.
 
Ainda assim, vale o comentário de que tanto reclamam que os cineastas brasileiros não conseguem atingir uma chamada “simplicidade argentina”. A melhor resposta para isso me parece que está em O Palhaço (foto ao lado), de Selton Mello – o jeito mais brasileiro de ser simples no cinema e dar o recado com uma ternura e humor todos nossos; Elvis & Madona, de Marcelo Laffite, uma delícia de comédia que toca em tantos temas escorregadios e perigosos e se sai esplendidamente bem; e Malu de Bicicleta, de Flávio Tambellini, o romance mais gracinha do ano, com a musa Fernanda de Freitas.
 
Bróder, estréia vigorosa de Jeferson De, é outra história – pega a questão social pelo viés afetivo sem desviar dela. Fala de muitas coisas, tem um elenco afinadíssimo, é um filme que pulsa verdade. Meu filme sério brasileiro do ano. O segundo colocado é Além da estrada, do também estreante Charly Braun, outro ótimo exemplo da simplicidade à brasileira, com densidade na medida.
 
No documentário, andamos bem, com filmes sobre assuntos fortes (Corumbiara, Diário de uma busca); um retrato do Brasil contemporâneo em cima do fato (Família Braz); musicais de perfis bem diferentes (Filhos de João, Rock Brasília, As Canções).
 
Mesclando documentário e ficção, tivemos alguns ótimos filmes com empenho de linguagem cinematográfica: Ex isto, de Cao Guimarães; Assim é se lhe parece, de Carla Gallo; Quebradeiras, de Evaldo Mocarzel; e Transeunte, em que Eryk Rocha estreia na ficção trazendo de volta ao cinema o extraordinário ator teatral Fernando Bezerra (o prisioneiro maltratado de Sargento Getúlio).  
 
Pensando bem, não dá para reclamar de 2011. Mas da prata da casa a gente sempre exige e espera mais. Que 2012 seja ainda melhor!

Mais salas, mais filmes, viva a diversidade!

O Palhaço, de Selton Mello, é o sétimo filme brasileiro lançado neste ano a ultrapassar a marca do 1 milhão de espectadores. E realizando a façanha de emplacar o primeiro lugar no ranking geral das bilheterias do País na segunda semana de exibição – o que é indicador seguro de que o boca a boca foi bom.
 
O público tem abraçado esta comédia singela e bem-intencionada, que saudavelmente se desvia de muitos dos cansativos clichês televisivos que embalam outras comédias campeãs de bilheteria em 2011 – dando nome aos bois, Cilada.com (campeão nacional do ano, com 3,2 milhões de espectadores), De Pernas pro Ar (a vice, com 3,1 milhões) e Qualquer Gato Vira-Lata (2,1 milhão).
 
Não quero aqui brigar com o público. Se existem esses milhões de pessoas que se divertem com estas comédias, sou a favor, está tudo bem. Só acho muito mais legal que em 2011 pelo menos duas comédias nacionais tenham saído dessa formulinha ditatorial que combina atores globais com dramaturgia precária. E esses dois foram O Palhaço e também O Homem do Futuro (visto por 1,2 milhão de pessoas), em que o roteiro brinca com viagem no tempo de uma forma bem legal.
 
Por trás de todos esses sucessos, reina a indispensável presença do ator que magnetizam o público. Selton Mello e Wagner Moura são dois desses que são mágica de bilheteria. É entrarem num projeto que o público se liga. Ponto para eles que procurem projetos que ousem um pouco mais, melhorando as opções que são ofertadas a todos nós. Dieta de uma comida só ninguém aguenta, nem merece...
 
Num ano bom desses, em que o cinema brasileiro repete o bom desempenho de 2003, embora sem igualar 2010 – que teve o fenômeno Tropa de Elite 2, com 11 milhões de espectadores -, só dá para lamentar que continue se repetindo o fenômeno da ocupação de metade de todo o circuito brasileiro, com seu total de 2.200 salas (insuficiente para o País, por certo), por um único blockbuster – nesta sexta, Saga Crepúsculo Amanhecer Parte 1 desembarca em cerca de 1.100 salas.
 
Diante dessa tomada, o que vai sobrar para O Palhaço – que detinha 262 salas até esta semana e ia muito bem? Vai encurtar sua carreira? Deixar de cumprir seu potencial, como já aconteceu com vários filmes brasileiros (aliás, nem só brasileiros) ? Isto é bom, justo, conveniente, saudável ? Se é, para quem?
 
Já é hora de o mercado exibidor, distribuidor e produtor de cinema, críticos e espectadores no Brasil reverem este modelo. E cada um fazer a sua parte.

Mostra 2011 - um balanço

Está terminando a 35ª edição da Mostra. Mesmo num formato ligeiramente mais enxuto (250 filmes!), o festival mostrou mais uma vez sua mesma energia na descoberta de produções que passam infelizmente longe dos nossos circuitos comerciais – mais padronizados, impossível. A característica mais marcante de nossos cineplexes, infelizmente, é o cheiro dessa monolítica e inevitável pipoca.
 
Eu não sou melhor do que ninguém, mas tenho um paladar que necessita de novidades – na gastronomia e mais ainda no cinema. Mesmo frequentando anualmente diversos festivais, no Brasil e fora dele, espero a Mostra com ansiedade. As descobertas da Mostra me alimentam. Entre elas, este ano, revelou-se a pujança do cinema russo. Filmes como Elena, de Andrey Zyagyntsev (de O Retorno); Alexander Mindadze e seu inquieto Sábado Inocente; a retrospectiva do rebelde Aleksei German (de quem visitei Vinte Dias sem Guerra e Krushyalov, meu carro!, provavelmente o filme mais louco que vi na Mostra). Ainda tenho anotado para ver na repescagem Movimento Reverso, de Andrey Stempkovsky (atração da próxima quarta).  
 
O georgiano-armênio Sergei Paradjanov foi outra redescoberta. Seus planos, um mais belo e inquietante do que o outro nos perseguem – tomara que futuramente alimentando nossos sonhos – em filmes como A Cor da Romã. Que mundo era aquele que habitava aquela imaginação prodigiosa que, impedida de se materializar em filmes, reproduziu-se em suas belas colagens, muitas das quais podem ser vistas ainda na exibição do MIS, até 20 de novembro ?
 
Os documentários foram um ponto alto nesta edição. Meu favorito de corpo e alma foi A Maleta Mexicana, de Trisha Ziff, que aborda um tema muito caro para mim, a Guerra Civil Espanhola, e a espantosa redescoberta do trabalho de três fotógrafos que a imortalizaram – Robert Capa, Gerda Taro e David Seymour (Chim).  Mas não posso deixar de anotar no meu caderno de favoritos a dose dupla de alta qualidade do veterano alemão Werner Herzog nos belos A Caverna dos Sonhos Esquecidos (em que demonstra uma ótima utilização do 3D) e Happy People – a Year in the Taiga (com codireção de outro russo, Dimitry Vasyukov). E também Alexander Sokurov – Questão de Cinema, em que Anne Imbert oferece uma verdadeira aula magna do diretor russo (presente nesta Mostra com seu vigoroso Fausto). Sem esquecer a série Mafrouza, da francesa Emmanuele Demoris, fã do nosso Jorge Bodanzky.
 
A retrospectiva Elia Kazan – pena que não pode ficar na repescagem – foi outra oportunidade de ouro de olhar para a dualidade humana, na obra maior de um cineasta polêmico, indelevelmente marcado pela delação no macarthismo. Filmes magníficos como Terra de um Sonho Distante (America, America), Um rosto na multidão, Uma rua chamada pecado, O justiceiro, só podem nos fazer pensar nas duas coisas.
 
Da longa série de clássicos restaurados, não esqueço das imagens impecáveis de Despair, um dos filmes mais originais de Rainer Werner Fassbinder, um dos alemães que fizeram minha cabeça no cinema dos anos 80 (com Herzog e Wim Wenders).
 
Muito se fala que o humanismo está em baixa no mundo e que os nossos melhores valores estão perdidos. Não no cinema, felizmente. Filmes como os calorosos O garoto da bicicleta, dos belgas irmãos Dardenne; As neves do Kilimandjaro, do francês Robert Guédiguian; e Era uma vez na Anatólia, do turco Nuri Bilge Ceylan, só demonstram que os cineastas de todas as latitudes continuam humanos, muito humanos, para a salvação da espécie.
 
O cinema italiano mostrou força no trabalho de dois veteranos, no hilariante Habemus Papam, de Nanni Moretti, e no inventivo e delicado Irmãs Jamais, de Marco Bellocchio. A Grécia pode andar arruinada, mas seu cinema é capaz de nos propor instigantes esfinges, como Attenberg, de Athina Rachel Tsangari.
 
O cinema brasileiro pulsou na tela com a paixão visceral de Lavínia (Camila Pitanga), uma das mais belas personagens femininas do cinema e da literatura brasileiros em Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, o filme de Beto Brant e Renato Ciasca enraizado no livro de Marçal Aquino. Enigmático e belo em seu poético P&B, igualmente Sudoeste, de Eduardo Nunes, promessa do novo cinema nacional. E o documentário Raul – O princípio, o fim e o meio, de Walter Carvalho, ressuscita com verdade humana um mito brasileiro, Raul Seixas, que não morreu porque pessoas não morrem, ficam encantadas, como diria o mineiro Guimarães Rosa. Eduardo Coutinho também não negou fogo no delicado As canções.
 
Cinema latino – palmas para dois argentinos, o despojado Las Acacias, de Pablo Giorgelli; e Um mundo misterioso, de Rodrigo Moreno. E, apesar de algumas falhas, também para a sátira política mexicana Acorazado, do estreante Álvaro Curiel de Icaza.
 
A Mostra também marcou pontos ao engajar-se fundo na luta contra os imperdoáveis atentados à liberdade de expressão no Irã, contando com a presença mais do que abalizada de Mohsen Makhmalbaf – um lutador contra ditaduras desde menino, quando enfrentou os desvarios do regime do xá Reza Pahlevi, que o levou à prisão. Green Days, de sua filha, Hana Makhmalbaf, é, aliás, um libelo para incendiar as consciências a apoiar de todas as formas protestos e pressões contra o atual governo ditatorial (e ilegítimo) do Irã. A situação de Jafar Panahi, preso e impedido de filmar por 20 anos, vista no doloroso Isto não é um filme, é inaceitável.
 
Alguns problemas, para serem corrigidos nas próximas edições: projeção digital (este ano, com muitos problemas); legendas (muitos erros imperdoáveis, tornando ainda mais necessário recorrer ao conhecimento que se tivesse de línguas estrangeiras).
 
A direção da Mostra também poderia pensar em uma nova fórmula de votação dos filmes a serem submetidos ao júri – por que não um modelo misto, em que metade dos filmes viesse da votação popular, como acontece agora, e outra parte de uma votação dos críticos?
 
Finalmente, os convidados nota dez desta edição: Jan Harlan, o adorável cunhado de Stanley Kubrick, incansável divulgador de sua obra; e ainda mais o dedicado Atom Egoyan, que não perdeu um dia sequer para descobrir tudo que pode da cultura brasileira em suas andanças e conversas por São Paulo.
 
Como diria Leon Cakoff: "Voltem sempre, Jan e Atom!". E que a Mostra, sob o signo de Leon, com a força de Renata, siga em frente.

As pontes da Mostra, entre Nelson Rodrigues e "Iracema"

A Mostra de São Paulo é, acima de tudo, um local de encontros e descobertas. Muitas, inesperadas.
 
Está sendo assim nesta 35a. edição com o cineasta canadense Atom Egoyan, que vem se mostrando um aplicado desbravador da cidade de São Paulo e da cultura brasileira. Além de fuçar ruas, livrarias, galerias de arte, museus e obviamente cinemas, ele se interessou em saber quem seria o maior dramaturgo brasileiro – o que o levou ao encontro da eleição natural de Nelson Rodrigues. Resultado: está levando na bagagem de volta uma tradução em inglês de algumas das principais peças do autor de Vestido de Noiva, Senhora dos Afogados, O beijo no asfalto e outros clássicos do teatro nacional, inspirando igualmente filmes como A Falecida, de Leon Hirzman, Toda Nudez será Castigada e O Casamento, de Arnaldo Jabor. Quem sabe Egoyan, que é diretor de teatro e de óperas, uma hora destas não monta (ou filma) um texto do Nelson...
 
Na mão contrária, veio a diretora francesa Emmanuele Demoris – autora da série de documentários Mafrouza, dissecando o cotidiano e os personagens de uma favela egípcia. Grande fã do filme Iracema – Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky, ela queria muito conhecer o diretor paulistano – e conseguiu. O motivo: os pais da diretora moraram no Brasil e apresentaram o filme a Emmanuele, um fato que marcou definitivamente sua visão da vida e do cinema.
 
Nada como o cinema para erguer essas pontes entre as pessoas. Por isso, festivais como a Mostra são tão fundamentais para todos. 

As mulheres que eu quero ser quando crescer

Vivemos uma época de modelos de beleza plastificados, usando toda tecnologia para tornar-nos idênticos. Uma amiga dizia, com razão, quando via um grupo de menininhas loiras, cabelos esticados: “Lá vem a clonagem humana”. E ainda não existia a chapinha japonesa...
 
Portanto, é uma delícia ver alguém se rebelar contra essa massificação e assistir a uma atriz envelhecer naturalmente, cuidando-se, é claro, mas dispensando os botox e plásticas deformadoras, que terminam por liquidar essa individualidade que torna cada um de nós únicos e especiais. Essa mulher, uma bela italiana, atende pelo nome de Isabella Fiorella Elettra Giovanna Rossellini. Ou simplesmente Isabella Rossellini.
 
Aos 59 anos, Isabella não esconde os sinais do tempo no rosto, nem nas formas do corpo – um pouco mais rechonchudas do que há alguns anos atrás, mas ainda sensuais. Ela parece uma versão latina de sua mãe, Ingrid Bergman, mas deixou para trás a sombra daquela incrível estrela sueca, conquistando pelo próprio direito e talento o seu lugar no mundo e no cinema.
É adorável ver Isabella assim, concreta, real, natural, e também sexy, confusa e instável, no papel de Mary, a esposa inquieta de Late Bloomers – O Amor não tem Fim, de Julie Gavras (uma das atrações que eu recomendo da Mostra de São Paulo).
 
Ao vê-la, não parei de pensar: por que é tão raro ver papeis femininos assim, bons, verdadeiros ? Por que as mulheres continuam, bem mais do que os homens, reféns de clichês tão limitados e preconceituosos na tela, mesmo em filmes dirigidos por mulheres, tantas vezes ?
 
Mas este filme, dirigido por uma cineasta que também deixou de lado a sombra do pai (Costa-Gavras) e conquistou seu espaço, te leva e você pode se deixar levar. É cheio de inteligência, humor, questões bem contemporâneas e uma visão sobre o envelhecimento da população do planeta que ultrapassa muito a pseudopiedade que impregna, de saída, o termo “terceira idade” – que, entre nós, te dá o lugar no metrô mas nem sempre vê com bons olhos que você continue querendo ser ativo, vivo, sensual e não queira ficar restrito a um gueto.
 
Também na tela, a não menos sexy sessentona Joanna Lumley, da série Absolutely Fabulous, que todo mundo queria ter como melhor amiga – em Late Bloomers, ela é a melhor amiga de Isabella e o seu melhor lado politizado-anarquista.  
 
Falando em beleza madura, que combina sensualidade com charme, inteligência com talento, não posso esquecer da minha outra musa, Gena Rowlands, que já passou dos 80 e continua linda e incrível. Quero ser Gena quando crescer!