17/06/2026

Saudades de Leon

Leon Cakoff não era pessoa de meias medidas. Nem de deixar nada pela metade.
 
Por isso, certamente foi contra a vontade que partiu nesta sexta-feira chuvosa em São Paulo, 14 de outubro, exatamente uma semana antes do início da 35ª Mostra Internacional de Cinema.
 
Ele não ia querer isto. Mas certamente preferiria que o evento a que ele dedicou mais da metade de sua vida, mesmo assim, continuasse. Que as salas de cinema se enchessem dos filmes de cuja escolha, pela última vez, ele ainda participou, apesar da doença tão grave.
 
São Paulo mudou por causa dele, por causa da Mostra, responsável pelo aperfeiçoamento da cultura cinematográfica de tantos de nós pelo País, que acorriam à cidade, às vezes nas férias, para encher os olhos das imagens raras que Leon, há 22 anos escorado por Renata, sua mulher, caçava pelos festivais do mundo.
 
Está esquisito pensar que ele não está mais aqui, para nós que sempre o encontrávamos na rua, no cinema, nos festivais. A última vez que o vi foi em Cannes, em maio, onde sua saúde já estava muito abalada, mas ele ainda viu vários filmes e dividiu a mesa com amigos, contando algumas das muitas histórias de vida que ele carregava consigo e nunca economizou na hora de compartilhar.
 
É muito estranho pensar que esta Mostra, pela primeira vez em sua história, acontecerá sem a presença dele. A ausência dele na coletiva do evento, no último sábado, já foi um (mau) sinal do que nos aguarda. Força, Renata! Imagino um pouco o que todos estes últimos meses terão sido para você e envio meu abraço.
 
Apesar de tudo, a Mostra tem que continuar, tem que acontecer. Até para que a memória de Leon, que tive o privilégio de conhecer e de trabalhar junto e que me ensinou muitas coisas – até a não desistir de alguns sonhos -, não se apague entre nós.
 
Por isso, fará tanta falta. Hoje, a gente tem direito de sentir saudade, muita saudade.

A boca no trombone no Festival de Brasília

A noite da premiação do festival, nesta segunda (4), foi também de vários protestos – o que não é novidade no evento da capital federal.
 
Teve de tudo. Como os diretores locais reclamando do desterro das exibições da Mostra Brasília para o Museu da República, tirando-a do reduto tradicional do festival, o Cine Brasília. Reclamaram de tudo, até da falta de estacionamento do novo lugar. Embora, a bem da verdade, haja transporte público como metrô e ônibus ali bem perto. Mas, claro, dá para entender que sair do Cine Brasília incorre em perda de público e de status. O horário vespertino das sessões também atrapalha. Por isso, diretores reclamaram que seus filmes “passaram escondido”.
 
Aí, nessa Mostra Brasília, uma outra coisa deve mudar – é preciso haver seleção, curadoria, o que não aconteceu este ano. Uma atitude que descaracteriza a mostra e desmerece este que é o mais antigo e um dos maiores e mais respeitados festivais do País.
 
Um protesto mais preocupante veio pela voz do diretor José Furtado e outros produtores do documentário Sagrada Terra Especulada, da mesma Mostra Brasília, e que venceu até um prêmio de R$ 35.000,00 como segundo colocado numa premiação concedida pela Câmara Legislativa do DF. O filme retrata um protesto pela construção de um bairro chamado Setor Noroeste, destinado a moradores de alto poder aquisitivo, no que os cineastas chamam de “última reserva do cerrado” na Asa Norte do Plano Piloto da capital, onde há décadas mora uma comunidade indígena. Que, segundo eles, vem sofrendo violência para sair dali.
 
Muito aplaudidos, os cineastas garantiram que vão usar o dinheiro do prêmio para continuar lutando contra o projeto, que tem participação da companhia imobiliária Terracap, uma das patrocinadoras do festival, citada nominalmente no palco na noite de premiação.
 
E pensar que, por ter menos de 70 minutos – tem 68 -, o filme tinha sido excluído da programação. Sob protestos, voltou à grade, foi exibido e premiado.
 
Democracia é complicado mas é isso aí.

Cinema para muitos - a experiência do Festival de Brasília

BRASÍLIA - Uma novidade muito promissora está acontecendo nesta 44ª edição do Festival de Brasília – a exibição simultânea da sessão diária de curtas e do longa da competição não só no tradicional espaço do Cine Brasília como também em três outras salas nas cidades-satélites, em Sobradinho, Taguatinga e Ceilândia, a preços reduzidos (R$ 3,00 e R$ 6,00).
 
É de se comemorar a iniciativa, enfrentando, ao menos temporariamente, um dos problemas cruciais para popularizar a arte do cinema no Brasil – a ampliação dos espaços de exibição além dos shoppings e também a redução dos preços dos ingressos.
 
O sucesso da experiência deve levar, espera-se, a que seja mantida na programação do ano que vem deste festival. Quem sabe, que seja imitada por outros em diversos pontos do Brasil.
 
Outra mudança que seria bom que se implementasse o quanto antes seria a conclusão da já muito esperada (porque necessária) reforma do próprio Cine Brasília (obra para a qual deverão ser gastos, no total, R$ 14 milhões e que foi feita apenas parcialmente, com a impermeabilização do teto). O plano é que ali funcione um centro cultural, com cafés e outras duas salas de cinema. A promessa é que fique tudo pronto até 2014.
 
Enquanto isso não acontece, aquele espaço histórico do cinema brasileiro continua sem condições de manter uma programação regular ao longo de todo o ano. Fora das concorridas sessões do Festival de Brasília, a sala fica fechada.
 
Outra razão para preocupação no circuito de arte da capital federal, o fechamento das salas da Academia de Tênis, deve ter um atendimento, ao menos em parte, com a chegada em breve do Espaço Unibanco (no antigo circuito Embracine). Mas ainda é pouco para a necessidade de diversidade cultural de Brasília.

O Brasil do mínimo essencial em Veneza

Por alguma razão, a discretíssima presença brasileira no Festival de Veneza – dois filmes em mostras paralelas – focaliza o universo dos velhos num ambiente rural. Bem na contramão da ditadura da juventude e dos ambientes urbanos que domina o mundo do entretenimento.
 
Histórias que só existem quando lembradas, de Júlia Murat, é ficção pura, reunindo dois ótimos atores veteranos, Sonia Guedes e Luiz Serra, além de outros esplêndidos amadores, numa pequena cidade do interior fluminense, cuja rotina é rompida pela visita de uma jovem (Lisa Fávero)
 
Girimunho, docudrama de Helvécio Marins e Clarissa Campolina, já embaralha as fronteiras dos dois gêneros, acompanhando duas simpáticas e criativas octagenárias, Bastu e Maria, moradoras de São Romão (MG) e convivendo, com razoável equilíbrio, em suas diferenças dos respectivos netos.
 
É uma presença mínima – que decorre da incompreensível miopia dos curadores do festival mais antigo do mundo em relação à América Latina, não só o Brasil. Ainda assim, os dois brasileiros ocuparam bem seu espaço, em duas mostras que valorizam a experimentação e os novos autores.
 
Girimunho leva sua experiência, inclusive formal, de conceito e linguagem, mais longe. Por isso, é um filme mais exigente, em termos da atenção do espectador, mas que, ao final, oferece maior prazer a quem o atravessa. Bastu, a incrível viúva que fala com o marido morto e resolve dispor de suas coisas para liberar-se de uma presença que já se tornou incômoda, é uma figura que fica na cabeça. Uma personagem de si mesma que, afinal, se redescobre diante desse olhar mágico que é o cinema e atravessou sem problemas as fronteiras para ser compreendida por plateias como estas de Veneza, que não têm a menor ideia de como o grande sertão de que falava Guimarães Rosa é uma entidade viva e permanente.
 
É um Brasil sensível e delicado este que desembarcou em Veneza. Um Brasil na medida dos tantos que somos, tantas faces, tantas idades, tantas vidas. Que bom estar aqui para vê-los em outro contexto.Às vezes a gente esquece o quanto o Brasil é diferente. E o quanto pode ser universal.

Uma pequena Renascença no cinema italiano em Veneza

2011 está sendo um bom ano para os grandes festivais. Foi assim em Cannes e Veneza, ao menos em termos da maioria dos filmes, não está ficando atrás. A organização dos dois festivais é que é muito diferente: Cannes dá um banho! Veneza, este ano, está mais caótica do que nunca.
 
As sessões de filmes, inclusive da competição principal pelo Leão de Ouro, batem com coletivas de imprensa e exibições uns dos outros, faltam lugares para os jornalistas se sentarem para escrever com seus notebooks (problema crônico), faltam tomadas para recarregar as baterias dos notebooks (outro problema crônico), sessões atrasam... Hoje cancelaram a primeira sessão do filme-surpresa (o chinês People Mountain People Sea, de Cai Shangjun) porque deu falha geral no sistema de legendas. Lamentável num festival deste tamanho e desta idade (o mais antigo do mundo). Vamos ver se agora à noite a sessão do filme acontece sem problemas, vamos torcer.
 
Mas se é de cinema que se fala, muitas apostas se comprovaram: os novos filmes de George Clooney (Tudo pelo poder), David Cronenberg (A Dangerous Method), Steve McQueen (Shame), Andrea Arnold (O morro dos ventos uivantes) e Emmanuele Crialese (Terraferma)[foto] entusiasmaram.
 
A Itália, politicamente sufocada pela mediocridade de Berlusconi, aliás, parece estar se renovando em seus cineastas, alguns pelo menos. Crialese e o veteraníssimo Ermanno Olmi – fora de competição com o sensível Il Villaggio di Cartone – ambos abordaram a ignomínia da caça aos imigrantes ilegais que por acaso escapam de morrer afogados em suas desesperadas tentativas de entrar na Europa. Acho que dá para ser otimista de que alguma coisa está se renovando no espírito do bom e velho país da Renascença.

Onde está a simplicidade?

A ideia me bateu ainda no Festival de Gramado, na semana passada: a ficção brasileira no cinema está em crise?
A julgar pela seleção de filmes nacionais da competição do festival gaúcho - País do Desejo, de Paulo Caldas; Ponto Final, de Marcelo Taranto; Riscado, de Gustavo Pizzi; e O Carteiro, de Reginaldo Faria -, dá para pensar que sim.
 
O sentimento ficou maior diante da comparação destes filmes nacionais (de ficção, bem entendido, porque os documentários em Gramado superaram em qualidade, comento outro dia) com os filmes latinos. De um modo ou de outro, porque se trata de filmes bem diferentes, me encantou a simplicidade e eficiência narrativa do argentino Medianeras (do estreante Gustavo Taretto); La Lección de Pintura, do veterano chileno Pablo Perelman; A Tiro de Piedra, de outro estreante, o mexicano Sebastian Hiriart; e do dominicano Jean Gentil, da dupla Laura Guzmán e Israel Cárdenas.
 
Tenho reservas, mas ainda assim, reconheço qualidades em Garcia, do colombiano Jose Luis Rugeles (uma coprodução com o Brasil) e Las Malas Intenciones, de Rosario Garcia Montero (Peru).
 
Entre os filmes fora de competição em Gramado, certamente, havia razões para uma animação maior. Os filmes de abertura e encerramento, por exemplo. O Palhaço, de Selton Mello (que foi premiado em Paulínia) e Sudoeste, do estreante carioca Eduardo Simões, me encantaram, cada um a seu modo.
 
Na Mostra Panorâmica de Gramado (que traz filmes que circularam em outros festivais), havia coisas boas. O Senhor do Labirinto, por exemplo, onde cintila o talento de Flávio Bauraqui, encarnando com toda a dor e grandeza o artista Artur Bispo do Rosário. Um ator que carrega um filme, secundado pelo igualmente brilhante Irandhir Santos.
 
Resolvi deixar Gramado de lado (afinal, ficaram de fora da seleção 98 filmes que a gente não sabe como seriam). Uma rápida olhada pelas estreias brasileiras no circuito comercial me deu outras informações. Das 47 estreias que computei este ano, pra mim passaram no teste de qualidade estas ficções: Bróder, de Jeferson De; Malu de Bicicleta, de Flávio Tambellini; Vips, de Tonico Mello; Estamos juntos, de Toni Venturi; Transeunte, de Eryk Rocha; Ex isto, de Cao Guimarães.
 
Ufa, me animei mais. Há esperanças. E o segundo semestre está apenas começando.

A censura - parte II

Foi extremamente produtivo o debate sobre a censura ontem à tarde no Festival de Gramado – uma troca de idéias que superou a questão de Um Filme Sérvio, que revelou o quanto a nossa liberdade de expressão é frágil.

Quem trouxe muitas informações úteis foi Davi Pires, representante do Ministério da Justiça que trabalha justamente com a classificação indicativa, na prática a única atividade do ministério na circulação de obras audiovisuais – já que censura propriamente dita acabou com a Constituição de 1988. Já tinha ido bem tarde...
 
Pires lembrou que os critérios para essa classificação, que sempre leva muito em conta a proteção ao menor e adolescente, são basicamente três tipos de cenas: de sexo, violência e uso de drogas. Tendo em vista esses conteúdos, sobe-se para mais ou para menos a indicação. O resto cabe aos espectadores – e seus pais, já que, em alguns casos, menores da idade indicativa de um filme podem assisti-lo se seus pais os acompanharem.
 
No caso de Um Filme Sérvio, foi um grupo que se sentiu atingido – ou teve outros objetivos marqueteiros ou eleitoreiros, ou outros, já que nem os integrantes do partido político do Rio, nem os juízes e procuradores do Rio e Minas Gerais que pediram restrições ao filme o tivessem assistido ainda ao fazê-lo. Ainda assim, segundo Pires, qualquer grupo da sociedade, religioso,político ou outro, pode fazer esse tipo de pedido, já que nenhuma liberdade garantida na Constituição é absoluta. Supostamente o fizeram em nome de prevenir danos a menores de idade (que sequer veriam, como não verão, o filme nos cinemas, embora os downloads via internet estejam disponíveis a quem sabe usar esses recursos).
 
A questão mais preocupante levantada no debate, no entanto, foi a de que a classificação indicativa para maiores de 18 anos para Um Filme Sérvio, que na prática encerra a participação do Ministério da Justiça e libera o filme para exibição em todo o País – exceto o Rio de Janeiro – não é o ponto final deste lamentável caso. O próprio partido que começou a história pode impetrar outros recursos, assim como o Ministério Público ou outros órgãos judiciais.
 
Como afirmou Pires: “Pode ocorrer uma censura do Poder Judiciário. Se um juiz federal assim o decidisse, por exemplo, o filme poderia ser impedido de circular no País”. Ele apenas dava um exemplo. Vamos então não só esperar, como nos mobilizar – todos aqueles que entendemos que a liberdade de expressão é um bem maior e que a censura 18 anos encerra esta questão de proteção aos menores – para que esta história ridícula não se estenda mais. Nem a este filme nem a quaisquer outros.
 
E que os juízes de menores se preocupem mais com a proteção deles na vida real, que bem está precisando.

Censura nunca mais!

Nos últimos dias, um tema que julgávamos morto e sepultado na democracia e no Estado de Direito, a censura, voltou tristemente à cena no Rio de Janeiro, quando uma juíza acatou uma indevida ação de um partido político – certamente em busca de notoriedade fácil à custa do moralismo de alguns – e proibiu a exibição de A Serbian Film – Terror sem Limites, do diretor sérvio Srdjan Spasojevic. Não contente com isso, mandou oficial de justiça recolher a cópia do filme, que se encontrava no Cine Odeon, onde ocorreria uma sessão alternativa e de desagravo a um primeiro veto ao filme que ocorrera anteriormente por decisão da Caixa Cultural, retirando-o de um evento ali sediado, o RioFan.  
 
Não assisti ao filme ainda – nem a juíza ou o partido político, segundo informa o distribuidor do filme, Raffaele Petrini. Então, por que censurar ? Todos ouvimos dizer do conteúdo violento, quem sabe extremo da história, que acompanha – ficcionalmente, é bom lembrar – a jornada de pesadelo de um ator, contratado para um trabalho que porá em questão seus limites. Mas a liberdade de expressão, garantida no País pela própria Constituição, deveria ser o único valor a ser assegurado aqui. Que o público veja e julgue se o filme é digno de ser assistido ou não. Público adulto, aliás, já que é aconselhado apenas a maiores de 18 anos.
 
Tomara que a infeliz decisão da juíza seja rapidamente cassada em instâncias superiores. Ninguém quer ver de volta aqueles tempos em que se impedia o público de assistir Je vous salue Marie, de Jean-Luc Godard, O último tango em Paris, de Bernardo Bertolucci ou se impunham ridículas bolinhas pretas como tapa-sexos em algumas cenas de Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. A arte existe, afinal, para representar inclusive aquilo que é extremo, polêmico, desagradável e agressivo. É assim que ela estimula as emoções, inclusive a revolta e a indignação, diante de coisas que acontecem no mundo, na vida real, e que a ficção nada mais faz do que simbolizar, como parece ser o caso de A Serbian Film.
 
Que o bom senso prevaleça sobre o falso moralismo que, em nome de proteger crianças (que de nenhum modo assistiriam ao filme, aliás), ressuscita um dos piores fantasmas da falecida ditadura. Que se ponha fim a esse absurdo o quanto antes.

Cinema da Europa do Leste e Dinamarca, achados do Festival Lume

Volto a falar do Festival Lume, em São Luís do Maranhão, onde estive por cinco dias. Agora, falo dos filmes. Algumas das mais gratas surpresas da programação vieram da Europa do Leste, mostrando que há vida cinematográfica fora da celebrada Romênia.
 
A mais gratificante dessas surpresas, até aqui, foi uma coprodução entre Estônia, Finlândia e Suécia, As tentações de Santo Antônio (foto), de Veiko Ounpuu. Um filme em preto-e-branco, que nem mesmo as intermitências de sua projeção puderam impedir que ressoasse na sensibilidade de seus privilegiados espectadores, no Teatro Alcione Nazaré.
 
Ao retratar a trajetória de Tony, um gerente de fábrica de meia-idade, o filme persegue o insólito. Não há um plano previsível e a história salta de uma surpresa a outra. O tempo todo se tem a sensação – mas o que vai acontecer agora? Onde é que isto vai dar?
 
O caminho do gerente começa pelo sepultamento de seu pai – cujo cortejo é quase cortado por um carro em alta velocidade, que se espatifa numa praia à frente sem que ninguém se abale com isso. Um cão morto, mãos cortadas num rio, uma passagem por uma delegacia insana, uma garota misteriosa, um jantar numa mansão de vidro, um infernal cabaré e uma igreja abandonada, habitada por um padre que fala como o próprio demo, tudo isso cabe na história. Que resulta numa mistura surrealista, como assinada por uma uma espécie de Buñuel insano, com momentos de Tarkovsky, David Lynch e Jodorovsky.
 
Se não teve a mesma força e originalidade, o drama búlgaro Abrigo, de Dragomir Sholev, sustentou um retrato no mínimo vívido da situação de uma juventude no pós-comunismo, em torno de Rado, garoto de 12 anos que começa a andar com uma dupla de punks e a dormir fora de casa – para desespero dos pais, que não conseguem conversar com ele. A profunda disfuncionalidade deste diálogo impossível, desdobrada na longa cena do jantar, é o mais pungente da história.
 
Tudo que eu amo, do polonês Jacek Borcuch, igualmente apresenta uma história de juventude, no caso, de uma turma de amigos em 1981, quando o governo do general Jaruzelsky impõe o endurecimento do regime por conta da inquietação trazida pelo sindicato Solidariedade. Mesmo que o filme não dê conta, como se propõe, de fazer um retrato de geração nos estertores do comunismo, exala uma sinceridade no delineamento dos quatro personagens principais que se sobrepõe a essa falha.
 
Saindo da Europa do Leste, não há como deixar de elogiar Submarino, do dinamarquês Thomas Vinterberg (do poderoso Festa de Família). O ex-integrante do Dogma consegue aqui uma constância e sobriedade no relato dramático sobre o vínculo de dois irmãos, unidos por uma culpa antiga (e injustificável) e enredados em trajetórias muito perdidas. Há muita tristeza nestas vidas, marcadas pelo crime e as drogas, mas também um sopro de humanidade que respira por trás de tudo e permite que a história fuja de um total niilismo. Em todo caso, há algo de muito podre neste reino da Dinamarca vislumbrado por Vinterberg.