Motel Destino marca a volta de Karim Aïnouz ao Brasil
- Por Alysson Oliveira
- 21/08/2024
- Tempo de leitura 5 minutos
Karim Aïnouz filmando Motel Destino no Ceará (Crédito: Maria Lobo/Divulgação)
Morando em Berlim há 15 anos, o cearense Karim Aïnouz não fazia um filme no seu estado desde Praia do Futuro, lançado em 2014. Nesse meio tempo, ele filmou na Alemanha (Aeroporto Central), no Rio de Janeiro (A Vida Invisível), na Inglaterra (Firebrand, ainda inédito no circuito comercial brasileiro) e na Argélia, país natal de seu pai (os documentários Marinheiro das Montanhas e Nardjes A.). Sua volta ao Ceará foi para filmar, em 2023, Motel Destino, um filme que traça um retrato incisivo do país por meio de três personagens.
“Eu achava que nunca mais ia voltar ao Brasil, se o Bolsonaro fosse eleito. Ufa que isso não aconteceu! Eu fui me distanciando do país desde o golpe de 2016, quando o audiovisual começou, novamente, a perder o suporte governamental”, comemora em entrevista ao Cineweb. Motel Destino, no entanto, é um longa que lida com o país contemporâneo, marcado pela tensão entre a democracia e o fascismo.
O cenário principal do longa é o motel do título, onde vivem Dayana (Nataly Rocha) e seu marido, Elias (Fábio Assunção). Ele, um homem bem mais velho que ela e branco, com claro posicionamento à direita. Quando sabe da morte de um assaltante, ele comemora: “Mais um CPF cancelado”, frase típica de bolsonaristas e afins.
“Esse personagem é um homem cujo tempo já acabou, mas ele ainda permanece. Ele tem uma obsessão pelo controle, mas a está perdendo. O filme traz várias camadas de Brasil”, explica o diretor, que assina o roteiro com Wislan Esmeraldo e Mauricio Zacharias. “O Fábio é magnético nesse personagem, pois é um figura complexa.”
A vida do casal muda com a chegada de Heraldo (o estreante Iago Xavier), um jovem que trabalha para uma chefona do tráfico (Fabíola Liper), e pensava em abandonar tudo para tentar a vida em São Paulo. Mas, depois de um incidente, que resultou na morte de seu irmão (aquele do CPF cancelado), ele é perseguido pela traficante e se esconde no motel, onde acaba se envolvendo com Dayana, além de despertar desejos de Elias.
Aïnouz conta que, originalmente, pensava em fazer Elias um personagem também nordestino, como os outros dois, mas ao colocá-lo como carioca, trouxe mais um elemento importante ao filme: o colonialismo. “Há isso dentro das próprias fronteiras do Brasil. E, com esse longa, eu queria condensar tudo isso”. Ele explica que, de certa forma, pretendia expandir suas próprias fronteiras narrativas. “Às vezes, estamos muito condenados ao nosso lugar de fala, e eu não queria isso, não tem a ver comigo.”
Fábio Assunção como o perturbado Elias em Motel Destino (Crédito: Divulgação)
Para adicionar camadas e complexificar Motel Destino, por exemplo, um dos vilões é uma mulher, uma traficante poderosa que, simbolicamente, está no lugar dos antigos coronéis nordestinos. “Eu quero muito voltar a outros personagens, contar suas histórias. Essa é uma delas.”
Aïnouz estreou em longas em 2002, com Madame Satã, que, segundo ele, “era para ter sido feito em 1994, mas o fim da Embrafilme, uns anos antes, adiou o longa”. O filme foi exibido em première mundial na mostra Um Certo Olhar do Festival de Cannes, e, desde então, os trabalhos do diretor sempre estreiam em grandes festivais internacionais. A Vida Invisível foi premiado em Cannes, e Firebrand e Motel Destino foram exibidos em competição no mesmo festival em anos consecutivos, um feito inédito para um cineasta brasileiro.
Em sua carreira, o diretor se tornou internacional, não apenas por morar na Alemanha e filmar fora do Brasil, mas por manter uma equipe renomada de vários países. Sua parceria mais profícua é com a diretora de fotografia francesa Hélène Louvard, com quem trabalha desde A Vida Invisível. “Eu a chamei para fazer esse filme pois, por ser uma temática muito feminina, eu queria me cercar de mulheres na equipe, e ela é uma das melhores no seu trabalho atualmente. A gente se tornou grandes parceiros.”
Aïnouz a define como um gênio em sua capacidade de trabalhar a luz, enquadramento e outros detalhes. “Motel Destino é muito ditado pelos personagens, são eles que conduzem a câmera. É um filme sobre corpos em movimento, sobre corpos se encontrando. A tensão dramática surge disso, e a Hélène está em sintonia com tudo isso.”
O longa foi filmado em película, algo raro atualmente, e, como toda a obra do cineasta, é muito colorido. “O cinema é sobre a beleza, mas o difícil é fazer um filme vivo. É muito fácil fazer um filme esteticamente bonito. Organiza uma imagem com simetria e pronto, está lindo. Mas fazer um com vida, não é tão simples assim.”
Ele conta que Louvard é obcecada pela luz, e, nessa nova parceria, puderam fazer um trabalho bastante peculiar. “Quarto de motel tem aquela coisa de várias luzes, cores diferentes. A pulsão colorida nos ajuda a contar uma história.” Para Aïnouz, todo segundo deve ser usado em prol dessa narrativa. “Cada filme é um presente, cada momento é essencial. Para mim, isso deve ser aproveitado desde os créditos. Pra que colocar um fonte qualquer num fundo preto, se você pode desde já mostrar que tudo é possível?”
