Longa cearense conquista o público em Vitória
- Por Neusa Barbosa, de Vitória
- 24/07/2024
- Tempo de leitura 3 minutos
Vitória – A grande notícia da programação desta terça (23) foi o longa cearense Quando eu me encontrar, das diretoras Amanda Pontes e Michelline Helena, em competição, e que constrói sua história em torno de uma ausência num pequeno núcleo familiar.
Marluce (a excepcional atriz baiana Luciana Souza) é a mãe que vive sozinha com as duas filhas, sustentando a casa com a venda de seus quitutes. A mais velha, Dayane, desaparece repentinamente, deixando apenas um bilhete de adeus. A mais nova é Mariana (Pipa), uma adolescente que encara conflitos de classe ao estudar numa escola de classe média com uma bolsa de estudos. A vida das duas é abalada por esta partida sem maiores explicações, que deixa mais desnorteado ainda o noivo de Dayane, Antônio (David Santos).
A grande sacada do filme é como ele elabora as transformações na vida destas três pessoas a partir da ausência de Dayane – que, com sua partida, parece assumir sua recusa a ocupar um espaço na vida delas seguindo uma série de expectativas que ela não deseja preencher.
Isto é especialmente verdadeiro em relação a seu noivo, um vendedor de sapatos que vive num pequeno apartamento atulhado pelos eletrodomésticos aos poucos comprados para o esperado casamento. David Santos é um ator refinado e especialmente competente para retratar a decepção e inconformismo deste homem simples e comum, que enfrenta a crítica mais incisiva de Cecília (Di Ferreira), uma cantora e amiga de Dayane que não se cansa de lembrá-lo do quanto pode uma mulher livre – um choque de percepções que serve maravilhosamente a um filme com muitas camadas, tanto de reflexão quanto de emotividade e humor.
Curtas
A noite de terça também registrou a passagem de curtas bastante envolventes. Foi este o caso de Vollúpya, dos diretores Éri Sarmet e Jocimar Dias Jr. (RJ), que recorre a uma linguagem de ficção científica para incorporar imagens reais de uma animada boate “GLS” dos anos 1990 em Niterói. Os diretores recuperam trechos obtidos a partir de 13 horas remanescentes, filmadas em VHS, das movimentadas baladas e shows da boate, que durou até 2005 e foi muito importante na cena LGBTQIA+ daquela época. Um material que por pouco não foi perdido e foi complementado com entrevistas com antigos frequentadores e antigos donos.
Dias de pouco pão e zero sonho, da capixaba Saskia Sá, adapta um conto da própria diretora para relatar uma história fantástica, em torno de Damiana (Aidê Malanquini), uma espécie de bruxa e dona de uma casa de objetos peculiares e que resolve, contra sua própria orientação, interferir na história de Rosa (Hayelle Pasolini), uma professora que adquire uma caixa com poderes sinistros.
Como chorar sem derreter, da estreante Giulia Butler (RJ), escala a veterana Betty Faria - avó da jovem diretora - como protagonista de outro conto fantástico, em torno de uma velha mulher que sofreu um problema nos canais lacrimais e busca recuperar sua capacidade de chorar.
Já exibido e premiado em diversos festivais, Vão das Almas, de Edileuza Penha de Souza e Santiago Dellape (DF/GO), revisita o mito do saci para compor um relato fantástico e de terror em torno de uma pequena família ameaçada pelos pistoleiros do agronegócio no quilombo Kalunga - o maior do Brasil e que foi realmente o cenário do filme, no seu trecho em Goiás.
Da esquerda para a direita: Viviane Pistache (mediadora); Giulia Butler (curta "Como chorar sem derreter"); Edileuza Penha de Souza (curta "Vão das almas"); Amanda Pontes (diretora do longa "Quando eu me encontrar"; Di Ferreira (atriz do longa "Quando eu me encontrar"); e Jocimar Dias Jr. e Éri Sarmet, do curta "Vollúpya"
Crédito: Neusa Barbosa
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