Cinema brasileiro chega forte ao Festival de Veneza
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 27/08/2024
- Tempo de leitura 10 minutos
Começa nesta quarta (28/8), a 81ª edição do Festival de Veneza, tendo como filme de abertura a comédia fantástica Beetlejuice 2: Os Fantasmas Ainda se Divertem, de Tim Burton - que também receberá um Leão de Ouro de carreira, assim como o diretor Peter Weir e a atriz Sigourney Weaver. Beetlejuice 2, que dá sequência ao filme de 1988, traz de volta no elenco Michael Keaton e Winona Ryder, com o reforço de Jenna Ortega, representando a novíssima geração da família Deetz e herdeira de uma casa mal-assombrada. A estreia brasileira nos cinemas está marcada para 5 de setembro.
O Brasil participa da competição principal pelo Leão de Ouro com o drama Ainda Estou Aqui (foto abaixo), de Walter Salles, uma adaptação do livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva, focalizando a figura de sua mãe, a advogada Eunice Paiva, que lutou por décadas para saber o paradeiro do marido, o deputado Rubens Paiva. Cassado pela ditadura militar em 1964, Paiva saiu do País, mas logo retornou. Em 1971, sua casa foi invadida por agentes policiais, que o levaram, em 1971. Nunca mais ele foi visto e hoje é reconhecido como vítima de tortura, morte e desaparecimento forçado.
Eunice é interpretada por Fernanda Torres e, na fase mais idosa, por Fernanda Montenegro. Selton Mello encarna Rubens Paiva. O filme marca o reencontro de Fernanda Torres com o diretor carioca, sob cujo comando ela atuou em Terra Estrangeira e O Primeiro Dia.
Salles também retorna ao Lido depois de 23 anos - ele lá esteve em competição com Abril Despedaçado, que venceu um prêmio paralelo, o Leoncino d’Oro. Desta vez, terá pela frente pesos-pesados como Pedro Almodóvar (com The Room Next Door, com as estrelas Julianne Moore e Tilda Swinton); Luca Guadagnino (trazendo Queer, protagonizado pelo ex-007 Daniel Craig); Pablo Larraín (exibindo a cinebiografia Maria, sobre a cantora Maria Callas, com Angelina Jolie no papel); e Todd Phillips,
com seu esperado Coringa: Delírio a Dois, sequência do Coringa que venceu um inesperado Leão de Ouro em 2019.
Se tudo correr bem, esta pode ser a chance de ampliar uma história que o Brasil ainda não escreveu neste festival, em que o País conquistou em 1981 o Prêmio Especial do Júri e o prêmio da Fipresci (Federação Internacional dos Críticos) para Eles Não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, e, em 1953, o Leão de Bronze para Sinhá Moça, de Tom Payne.
Outros brasileiros
O Brasil também estará representado no festival por outros cinco filmes em diversas seções. Diretora consagrada por Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar de documentário em 2020, Petra Costa exibe fora de competição seu novo documentário, Apocalipse nos Trópicos, em que investiga a influência política da igreja evangélica e a atuação de alguns de seus líderes, como Silas Malafaia, no apoio à extrema-direita e à ascensão de Jair Bolsonaro.
Primeiro longa de ficção da cineasta Marianna Brennand, o drama Manas foi selecionado para a competição da Jornada dos Autores (Giornate degli Autori), uma das mostras paralelas do festival. Protagonizada pela estreante Jamilli Correa, a obra focaliza o tema do abuso infantil e traz no elenco nomes como Dira Paes, Fátima Macedo, Clébia Souza e Rômulo Braga, além de atores e atrizes locais da região amazônica, onde foi filmada. O roteiro, que venceu o Sam Spiegel International Film Lab, é assinado por Felipe Sholl, Marcelo Grabowsky, Marianna Brennand, Antonia Pellegrino, Camila Agustini e Carolina Benevides.
A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos (1965), por sua vez, estará na seção de Clássicos do festival, concorrendo ao prêmio de melhor restauração. O filme adapta um célebre conto de Guimarães Rosa, partindo do livro Sagarana (1946), e traz no elenco Leonardo Villar, Jofre Soares, Maurício do Valle e Maria Ribeiro. O programa de Clássicos, aliás, está de encher os olhos, incluindo tributos ao centenário de nascimento do ator Marcello Mastroianni (com uma sessão de A Noite, de Michelangelo Antonioni), ao cinquentenário da morte do diretor Vittorio De Sica (de quem se exibirá versão restaurada de O Ouro de Nápoles), além de obras de Lina Wertmuller, François Truffaut, Frederick Wiseman, Nanni Moretti, Peter Brook e Fritz Lang.
Dois curtas brasileiros igualmente participam de outras mostras: Minha Mãe é uma Vaca, de Moara Passoni, integra a competição da mostra Horizontes; e 40 Dias sem Sol, de João Furia, será exibido fora de competição na seção Venice Immersive, dedicada a filmes produzidos com recursos de Realidade Estendida (XR).
Dois brasileiros integram júris do festival: o cineasta Kleber Mendonça Filho, no júri principal - que é presidido pela atriz francesa Isabelle Huppert - e a atriz e diretora Bárbara Paz, no júri que atribui prêmios aos primeiros filmes.
Séries e documentários
Fora da competição pelo Leão, não faltam títulos atraentes. É o caso da série Disclaimer, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, o grande vencedor do Leão de Ouro em 2018 com Roma, que será exibida integralmente, em sessões em dias alternados. Baseada no livro homônimo da escritora Renée Knight, a série de sete episódios segue o suspense criado na vida da célebre jornalista Catherine Ravenscroft (Cate Blanchett) quando ela descobre que um livro recém-publicado expõe o mais bem-guardado segredo de sua vida. No elenco, Kevin Kline, Sacha Baron Cohen, Kodi Smit-McPhee e Jung Ho-yeon. A série tem estréia prevista na Apple TV em outubro.
No quesito séries, aliás, o festival está bem servido. O dinamarquês Thomas Vinterberg (Festa de Família) traz por lá Familier som Vores (literalmente, Famílias como as Nossas), com sete episódios. Ambientada num futuro próximo, a série acompanha a dissolução de um país assolado pela catástrofe climática, que está sendo coberto pelas águas. Num ambiente de fuga generalizada, em que famílias, amigos e amantes estão tendo que separar-se, a desagregação social é iminente.
Diretor de filmes de época como Desejo e Reparação, Anna Karenina e O Destino de uma Nação, o britânico Joe Wright comanda a série M. Il Figlio del Secolo, uma coprodução franco-italiana que radiografa, em oito episódios, a ascensão e a trajetória de Benito Mussolini (Luca Marinelli).
Da Espanha, vem a série Los Años Nuevos, dirigida por Rodrigo Sorogoyen (As Bestas), Ana Cano e Paula Fabra. Em dez episódios, examina-se as vicissitudes na vida de duas pessoas comuns, Ana (Iría del Rio) e Oscar (Francesco Carril).
A seção de documentários está igualmente bem-guarnecida, começando por Separated, em que o premiado diretor Errol Morris investiga o drama da separação de famílias de imigrantes que procuravam entrar nos EUA, um dos episódios mais ultrajantes do governo de Donald Trump.
Certamente elucidativo é outro produto dos implacáveis arquivos da TV estatal sueca, Israel-Palestine on Swedish TV, que percorre em 202 alentados minutos alguns momentos deste histórico e dramático confronto entre os dois países, sem solução até hoje. Seu diretor é Goran Hugo Olsson, o mesmo realizador/produtor por trás de The Black Power Mixtape 1967-1975 (2011) e Sobre a Violência (2014), dois alentados títulos sobre o racismo e o colonialismo, respectivamente.
Diretor conhecido por dramas como Se não nós, quem? (2011), o alemão Andres Veiel volta seu foco à controversa Leni Riefenstahl no documentário Riefenstahl, que analisa a trajetória desta cineasta que colocou seu talento a serviço do projeto de poder nazista.
Refresco mesmo só em One to One: John & Yoko, em que o veterano diretor Kevin MacDonald, ao lado de Sam Rice-Edwards, recorda duas das figuras mais influentes e criativas do século XX, o casal John Lennon e Yoko Ono. Ambientado em Nova York, em 1972, o documentário inclui imagens inéditas de filmes caseiros, telefonemas e outros materiais, além de trechos remasterizados do show beneficente One to One, que tiveram sua mixagem sonora supervisionada pelo filho do casal, o músico Sean Ono Lennon.
O cartaz
Já há 7 anos que o ilustrador, quadrinista e cineasta Lorenzo Mattotti é o responsável pela imagem do cartaz do festival, este ano intitulado Elefante na Laguna (imagem no alto da página). A cena representa um episódio real do Carnaval de 1981, quando um elefante realmente circulou pelas estreitas ruas de Veneza. Em 2019, Mattotti dirigiu a animação
A Famosa Invasão dos Ursos na Sicília.
Abaixo, as listas das seções principais:
Competição
The Room Next Door
Dir. Pedro Almodóvar
Campo Di Battaglia
Dir. Gianni Amelio
Leurs Enfants Après Eux
Dirs. Ludovic and Zoran Boukherma
The Brutalist
Dir. Brady Corbet
The Quiet Son
Dirs. Delphine, Muriel Coulin
Vermiglio
Dir. Maura Delpero
Sicilian Letters
Dirs. Fabio Grassadonia, Antonio Piazza
Queer
Dir. Luca Guadagnino
Love
Dir. Dag Johan Haugerud
April
Dir. Dea Kulumbegashvili
The Order
Dir. Justin Kurzel
Maria
Dir. Pablo Larrain
Trois Amies
Dir. Emmanuel Mouret
Kill The Jockey
Dir. Luis Ortega
Coringa: Delírio a Dois
Dir. Todd Phillips
Babygirl
Dir. Halina Reijn
Ainda Estou Aqui
Dir. Walter Salles
Diva Futura
Dir. Giulia Louise Steigerwalt
Harvest
Dir. Athina Rachel Tsangari
Youth - Homecoming
Dir. Wang Bing
Stranger Eyes
Dir. Yeo Siew Hua
Fora de competição - não-ficção
Apocalipse nos Trópicos
Dir. Petra Costa
Bestiari, Erbari, Lapidari
Dirs. Massimo D’Anolfi, Martina Parenti
Why War
Dir. Amos Gitai
2073
Dir. Asif Kapadia
One To One: John & Yoko
Dir. Kevin Macdonald, Sam Rice-Edwards
Separated
Dir. Errol Morris
Isreal Palestine On Swedish TV 1958-1989
Dir. Goran Hugo Olsson
Russians At War
Dir. Anastasia Trofimova
Things We Said Today
Dir. Andrei Ujica
Songs Of Slow Burning Earth
Dir. Olha Zhurba
Riefenstahl
Dir. Andres Veiel
Fora de competição - ficção
Beetlejuice Beetlejuice: Os Fantasmas Ainda se Divertem
(filme de abertura)
Dir. Tim Burton
L’Orto Americano (filme de encerramento)
Dir. Pupi Avati
Il Tempo Che Ci Vuole
Dir. Francesca Comencini
Phantosmia
Dir. Lav Diaz
Maldoror
Dir. Fabrice du Welz
Broken Rage
Dir. Takeshi Kitano
Baby Invasion
Dir. Harmony Korine
Cloud
Dir. Kiyoshi Kurosawa
Finalement
Dir. Claude Lelouch
Wolfs
Dir. Jon Watts
