Relações complicadas marcam primeiros concorrentes ao Urso de Ouro
- Por Orlando Margarido, especial para o Cineweb
- 16/02/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Uma coisa é certa nos dois primeiros dias da competição da Berlinale: Tricia Tuttle, a nova diretora artística do festival, deixa claro a que veio. Os quatro concorrentes iniciais parecem escolhidos para equacionar um currículo de quem nos últimos 25 anos se dividiu entre as principais instituições inglesas dedicadas ao cinema e à televisão, a exemplo do British Film Institute. Ali, organizou a vertente voltada à produção LGBTQIA+, o festival BFI Flore. Tricia é lésbica assumida e a representação da diversidade, tradicional nas seções paralelas da Berlinale e reconhecida pelo prêmio Teddy Bear, agora se faz sentir também no recorte principal dessa 75ª edição.
Mas, como se sabe, militância é uma coisa e cinema é outra. Poucas vezes os dois fatores coincidem, e não parece ser o caso tanto do inglês Hot Milk (foto acima), como do francês Ari, ainda que ambos não fechem o foco completamente no universo gay. O primeiro é a estréia na direção da também roteirista Rebecca Lenkiewicz, responsável por Ida e Desobediência. Mãe (Fiona Shaw) e filha (Emma Mackey) se instalam num vilarejo do litoral espanhol para tratar uma paralisia que acomete a primeira. O médico é um tanto incomum e utiliza abordagens terapêuticas nada ortodoxas. Sofia, a jovem, aproveita o tempo livre e flerta aqui e ali. Conhece uma artista (Vicky Krieps) e inicia com ela um relacionamento. O cotidiano, entre consultas e crises de ciúmes, aborrece as duas, mas também a horas tantas o espectador.
Sobra um toque de humor, aquele trato excêntrico tão inglês, a exuberância de Emma Mackey, de Barbie e Emily, e o talento do ótimo elenco formado por Fiona Shaw, Vicky Krieps e Vincent Perez.
Já o francês Ari se filia a uma habitual nostalgia da Nouvelle Vague para uma temática, contudo, de trato contemporâneo. O jovem protagonista do título (Andranic Manet) é um tipo perdido, depressivo, que não se ajusta às demandas da sociedade atual, e vaga sem rumo. É despachado de casa pelo pai (Pascal Rénéric), que lhe cobra um sentido na vida, ganha eventuais apoios de amigos de infância, mas também cobranças. A lésbica mais deprimida que ele, o burguês esnobe que lhe despeja conselhos e críticas, todos o afastam cada vez mais das relações. Uma delas foi o romance com uma jovem que engravidou. Ari não queria o filho e sumiu. A diretora Léonor Serraille caminha num terreno independente do cinema no qual é possível ainda experimentar, o que o seu personagem faz. Mas a ambição que falta ao jovem também acomete o filme, e se não chega a encantar, ao menos se enxerga nele o retrato de uma geração em crise.
Fora do alvo identitário, as escolhas trazem melhor resultado, ainda que limitados. O mexicano Michel Franco dispensa apresentações e sua presença aqui, e não Cannes ou Veneza, onde seus filmes costumam estrear, é curiosa. Dreams também parece um tanto deslocado na sua cinematografia. A todo momento se espera um confronto da violência frequente no cinema do diretor, para muitos gratuita ou mesmo desonesta com o espectador, na relação doentia entre uma rica herdeira e patronesse norte-americana (Jessica Chastain), e um (bem mais jovem) bailarino mexicano, ilegal (Isaac Fernández) em Sao Francisco. A personagem de Jessica Chastain se equilibra entre a exuberância de quem troca de roupa a cada cena e a vulgaridade de quem tece loas à virilidade do rapaz. Ele arrisca e a chantageia para obter o green card. A família dela, numa sugestão de não ser a primeira vez, vem ao socorro e mostra a capacidade de vingança com um golpe fatal à carreira no balé. O que parece ser a princípio uma leitura bastante cínica do quadro de imigração e do perfil de certa elite hipócrita dos Estados Unidos, resulta numa abordagem questionável do imigrante como figura descartável, tanto como o figurino de Chastain.
Por fim, sendo o primeiro concorrente exibido à imprensa, o chinês Living the Land, de Huo Meng, parece se tornar maior em sua quase ingênua nostalgia de um país um dia agrário, mas naquele momento em transformação. O vilarejo que vive do trigo nos anos 1990 surge perdido no tempo, dividido entre tradições seculares ligadas, por exemplo, aos enterros dos idosos, ao casamento arranjado de uma jovem mãe viúva e novamente grávida de alguma relação não muito clara, e ao despertar para possíveis modernidades. Nada, e tudo, acontece nesse registro de beleza visual requintada, que atenta aos detalhes de um contexto ainda solidário e humanista, em contraste com a voz da autoridade local que determina regras rigorosas para a comunidade. É só o início do certame, e talvez a singeleza do filme se dissipe até o final.
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