Mascaro exibe na competição sua distopia anti-etarista em “O Último Azul”
- Por Orlando Margarido, especial para o Cineweb
- 16/02/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Berlim - Hoje (16) de manhã, no horário local, quatro horas à frente do Brasil, foi o momento do nosso cinema na competição principal da Berlinale. Há muito mais nas seções paralelas, num ano especialmente rico da produção brasileira por aqui. Na coletiva que se seguiu à exibição de O Último Azul, não faltou a pergunta de um jornalista latino-americano ao diretor Gabriel Mascaro sobre a forte onda que ressurgiu nos festivais, nas premiações, de todo o mundo. A resposta, para nós, é sabida, mas o pernambucano lembrou do conjunto de produções represada nos anos Bolsonaro. Não havia condições, não se queria, na verdade, lançar os projetos num período tão sombrio. O diretor Walter Salles faz coro com Mascaro quando dá entrevista para falar sobre os sete, oito anos, que levou para lançarAinda Estou Aqui. Mas eis que os filmes estão aí, com boa repercussão.
Com O Último Azul, a princípio, não parece ser diferente. Houve uma boa manifestação dos jornalistas e o boca a boca tem sido positivo entre os colegas estrangeiros sobre esse “boat movie” do diretor de Boi Neon e Divino Amor. Este último foi apresentado no Panorama em 2019 e já utilizava o apelo fantástico, permeando a ficção científica, num Brasil futurista envolvido pela crença evangélica exacerbada. Agora, é um país do futuro para todos, distópico, que prega o etarismo. O governo valoriza os jovens e deporta os idosos para ditas colônias, com passagem de ida e sem volta. Antes os homenageia por seus serviços prestados. Se não acatarem, são levados à força nos cata-velhos. Quando a hora de Tereza (Denise Weinberg) chega, ela decide que quer apenas cumprir seu sonho de viajar de avião. Mas todos os caminhos burocráticos a impedem e ela foge pelos rios da Amazônia, primeiro no barco de um empregado solitário, depois de uma falsa religiosa de sotaque espanhol que vende bíblias digitais a incautos.
O trio de personagens é defendido por intérpretes que parecem na escolha tão inusitados como os elementos de fantasia do filme. Denise Weinberg, que vem de carreira respeitada no teatro e também tem conquistado referências no cinema, faz uma Tereza desde já talhada para um prêmio de interpretação pelo júri presidido por Todd Haynes. O tipo, a fala, a postura da atriz pouco sintonizada com a cultura do norte não parece ter sido um ruído na decisão de trazê-la para o protagonismo, e Denise está todo o tempo na frente da câmera, em domínio absoluto.
A atriz brilhou também na coletiva ao lembrar que em nenhum momento ela, aos 68 anos, quis colocar a questão etária à frente do debate, como um limite para a personagem. E sim, são os outros que assim enxergam os que passaram dos 50 anos. Em breve, Rodrigo Santoro completa seus 50. Ele vive o barqueiro que primeiro ajuda Tereza. Está irreconhecível, destituído da gênese de galã. A horas tantas, mostra à passageira um segredo bem guardado da floresta, um caracol raro que exala um líquido azul. Quando se pinga algumas gotas nos olhos, se dá uma viagem alucinógena que permite ver o futuro. Esse, por fim, não interessa à dona do barco que ilude os ribeirinhos, e sim ter pago com as vendas a compra de sua liberdade da ditadura etária. O papel é da cubana Miriam Socorrás, que completa uma miríade de diversidade linguística e étnica, com personagens e atores locais, caboclos, indígenas, talvez aí sim com a mensagem de que o Brasil é para todos.
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