O eterno retorno de Hong Sangsoo
- Por Orlando Margarido, especial para o Cineweb
- 21/02/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Berlim - Uma edição da Berlinale não está completa sem um filme de Hong Sangsoo. Talvez por isso a programação tenha escalado o novo longa do sul-coreano para encerrar a competição. De antemão, a imprensa já sabe que será mais do mesmo. Mas o mesmo é aquela pequena jóia que dá prazer em ver. E What Does that Nature Say to You até vai um pouco além do padrão do diretor. O que aquela natureza te diz. Um jovem poeta chega com a namorada na casa da família dela pela primeira vez. Pai, mãe e irmã sabem que o rapaz é filho de um famoso advogado. Mas ele segue a linha lowprofile, destituído de ambição, de interesse nas coisas materiais. Dirige um carro velho, mas charmoso. De cara, o pai o questiona, como pode não ter um carro novo sendo filho de quem é? Tudo é motivo para ser interpelado, até o bigodinho que ostenta. As cobranças ligadas ao dinheiro, a preocupação de sobrevivência da filha, seguem à mesa, na tradição de ritual da comilança e bebedeira que marca os filmes do cineasta. Irritam o rapaz e ele explode.
Como ele, Sangsoo também se despoja, mas da técnica. Na tela enorme do Palast, o palácio do festival, a qualidade da exibição estava sofrível, num digital estourado, um borrão nas cenas escuras. Interessa a ele a narrativa, os diálogos, a comicidade e o genuíno de suas personagens. Nada de requintes de imagem. A sala estava cheia. Os jornalistas sempre vem assistir aos deliciosos retratos humanos de Sangsoo, mesmo sendo iguais no formato aos anteriores, mas originais na abordagem.
Antes, a Berlinale fez seu aceno de engajamento político, marca do evento. O documentário Timestamp aborda a guerra da Ucrânia pelo viés da formação educacional das novas gerações. Começa nas salas de aula do ensino público para crianças e avança, entre idas e vindas, até a formatura dos adolescentes. Há aulas de inglês, de história, mas também de como manipular armas e coreografar danças para celebrar o dia do país. O nacionalismo está na alma dessa juventude que, nos últimos dez anos, teve seu aprendizado misturado ao conflito com a Rússia e, mais recentemente, às sirenes de bombardeios e corridas aos abrigos. Não se ouve um disparo, uma explosão, no filme da diretora Kateryna Gomostai, que acabou de ter um bebê e não veio a Berlim. É como se ali, entre os muros da escola, se vivesse protegido mas, como se mostra, por pura casualidade. A equipe do filme, em especial o montador, fez o que pode para representá-la, mas sobraram dúvidas sobre o enfoque dúbio que pode levar a uma visão patriótica, de valorização da gênese ucraniana, da beleza da gente local, mas também da crítica no conceito observacional do militarismo que toma conta da sociedade. De todo modo, o documentário é um feito de realização em pleno conflito. Deve sair com algum prêmio, até como obrigação desses tempos bélicos. Saberemos no sábado (22), 18h no horário local, mas nesta sexta-feira (21) a associação internacional de críticos, a Fipresci, define seus eleitos, o que costuma ser bom indicador para os Ursos oficiais.
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