22/07/2026

Berlinale na reta final soma surpresas e decepções

Berlim - Faltam apenas três concorrentes para a 75ª Berlinale fechar sua seção competitiva. Mesmo quando os longas selecionados sob a direção artística da estreante Tricia Tuttle não têm uma mulher no papel principal, elas surgem com poder de influência na trama. Mas ficou evidente que Tuttle buscou dar total protagonismo para elas e, em muitos casos, ao amor, ao sexo, entre elas. Esse viés curatorial tem seu preço. A qualidade nem sempre acompanha o recorte de gênero. No caso, foi até agora uma exceção. Entre dezesseis títulos, dez destacam atrizes, e entre esses, quatro são atraentes, e digamos, defensáveis.

Há outros elementos a unir os filmes, como o apelo ao fantástico, ao onírico, e o nosso representante brasileiro O Último Azul parece ter conquistado elogios também pela faceta. Além, claro, da atuação de Denise Weinberg que se impõe. Com credenciais semelhantes, o austríaco Mother’s Baby (foto acima) tem melhor equilíbrio entre proposta e realização, apesar de um desfecho que desafina. Um casal busca a inseminação artificial numa clínica privada para ter seu primeiro bebê. Ela dá à luz a um menino, mas não sem um parto difícil e um estresse nas primeiras horas da criança.

Apesar de desconfiada, a mãe segue com seu filho para casa, onde a estranheza dela só aumenta. O menino é tranquilo demais, não chora, não se importa com barulho. Seu olhar parece vazio. Pode ser depressão pós-parto, diz o médico, sinistro, ao marido, que não crê nas alegações da mulher. Um exótico bicho aquático (um peixe?) completa o quadro de pesadelo dessa Rosemary austríaca, em ótima interpretação de Marie Leuenberger.

Ainda que se possa definir o filme dentro de um gênero de thriller, e há quem fale até de terror, é interessante a diretora Johanna Moder trabalhar no tom quanto ao desejo de maternidade a qualquer preço. A relação filial marca também o longa do argentino Iván Fund, El Mensaje, em três gerações. Anika é uma criança com vocação especial. Pode ouvir os animais e trazer aos seus donos, no caso dos mascotes de estimação, o que pensam, desejam. Se estiverem mortos, se passam bem. Charlatanismo talvez, mas a avó e um acompanhante parecem crer no dom que exploram como forma de sobrevivência, correndo o interior do país. A horas tantas, visitam um hospício, onde está a mãe da garota. A trama de pressuposto peculiar não se alimenta de muito mais, naquela típica abordagem com o mínimo de material dramático do cinema da Argentina. Por isso mesmo, tem o encanto de produções mais elaboradas, sensíveis, que foram marca do festival alemão em edições anteriores.

É muito mais do que se teve em uma sequência de desapontamentos. Um deles prometia pela presença de Marion Cotillard. Mas deixa-se La Tour de Glace com a certeza de generosidade da atriz francesa em topar o antagonismo proposto pela diretora Lucile Hadzihalilovic. Ela interpreta a rainha do gelo de uma fábula tradicional que está sendo adaptada em produção suíça. O filme dentro do filme é outro artifício em comum em longas da competição. A diva de Marion atrai uma adolescente que fugiu de casa e se abrigou nos estúdios onde se dão as filmagens. Vê-se seduzida pela enigmática figura da atriz, mas recua diante de seus avanços. Há colegas que enxergaram no filme algo mais do que um vazio gélido, para usar metáfora a calhar.

Assim como houve adeptos da proposta assumida de pastiche na velocidade máxima do francês Reflet Dans un Diamant Mort, da dupla belga Hélène Cattet e Bruno Forzani. Cabe tudo na narrativa de thriller e suspense à moda de James Bond, inclusive a própria criação de Ian Fleming, enquanto um detetive aposentado e vivendo na Cote d’Azur (o veterano italiano Fabio Testi) rememora seus feitos na caçada a uma vilã enigmática de mil disfarces. No ritmo tarantiniano de sangue e violência a granel, a ambição do tudo ao mesmo tempo agora acaba por anular qualquer tentativa de usufruir as eventuais boas referências. E que não se fale em histeria quando o assunto é mulheres à beira de um ataque de nervos. Mas a diretora americana Mary Bronstein fez de tudo para irritar o espectador com sua protagonista fora do prumo em If I Had Legs I’d Kick You. A terapeuta, paciente de terapia ela mesma, mãe de uma garota com doença crônica, tem seu cotidiano mais abalado depois que um enorme vazamento põe abaixo seu apartamento. Típico filme independente que em circunstância mais adequada do que a competição da Berlinale pode até ter sua graça. Em festival desse porte, espera-se um pouco mais.