Bem recebido por público e crítica, Mascaro procura fugir de referências do Brasil
- Por Orlando Margarido, especial para o Cineweb
- 18/02/2025
- Tempo de leitura 5 minutos
Gabriel Mascaro é só sorrisos. Mesmo depois de uma tarde inteira de entrevistas, senta-se para conversar com o Cineweb em um café com a disposição de quem tem arrebanhado bons comentários e críticas de seu novo filme, O Último Azul, em competição na seção principal da Berlinale. O filme foi exibido no domingo com aplausos animados tanto na projeção para a imprensa como na gala. No dia seguinte, o longa obteve a melhor marca até agora no ranking da revista Screen, que reúne profissionais de vários países. Um pouco atrás está Dreams, do mexicano Michel Franco. “Desde o início pensei em trabalhar fora de um modelo muito específico de referências do Brasil, que trouxesse uma representação já conhecida”, diz. “Acho que consegui passar que a grande questão do filme é universal, deve ser reconhecível por todos que o assistem.”
E que questão é essa? No macro, O Último Azul, trata do etarismo. Mas Gabriel aborda um dos desafios mais complexos da atualidade — o de como as sociedades cuidam, ou na verdade não cuidam, de seus idosos — pelo viés do desejo dos mais velhos. O corpo desejante, como ele chama, já era discutido em
Boi Neon (2015), pelo prisma de gênero, do masculino e feminino e seus papeis em um contexto da vaquejada. Depois veio Divino Amor (2019), exibido aqui na Panorama, no qual a fé como mercadoria, a forte evangelização do Brasil, o conservadorismo, conduz a uma coerção do próprio corpo. Em ambos, o país surge num futuro distópico, com elementos de gênero fantástico, como parábola da conflagração da era Bolsonaro.
A crítica política está presente também agora em um ambiente autoritário que obriga os cidadãos mais velhos a morarem em uma colônia, longe da família. O Brasil É para Todos, diz a faixa pendurada em um avião que passeia pelos céus, para os olhos incrédulos de Teresa. A personagem de Denise Weinberg atingiu o limite de idade e em dias será enviada ao retiro. Seu último desejo é, ironicamente, andar de avião, e para tanto ela inicia uma longa aventura de barco. O filme vira um “river movie”, ou “boat movie”, como se referiram por aqui. O cenário da Amazônia parece inicialmente contradizer a intenção de Gabriel, mas logo se notará pela diversidade de tipos e línguas que predomina no filme uma babel, um “melting pot” cultural. “Mesmo para nós brasileiros, seja um nordestino seja do sul, a Amazônia permanece misteriosa, uma descoberta a ser feita para além dos clichês”, pondera o pernambucano. “Não é só o indígena, o caboclo, o ribeirinho, há muito mais”.
A escolha da carioca Denise para protagonista vem em parte pela razão de aguçar esse contraste e Gabriel diz entender quem possa ver na opção um ruído. “É justo sobre esse desconhecimento de que falo, pois em Belém, em Manaus, há um grande grupo de libaneses, de judeus”. Mais cedo, a própria Denise diz ter se espantado quando o diretor a convidou, mesmo sendo filha de uma paraense. Brincou, no entanto, com o fato do pai ser romeno, e a pele clara, o tipo judeu europeu, é o que se vê nela, afinal. Ela tem 68 anos, e no filme ganha mais sete para alcançar a idade de “aposentadoria”. E nas marcas do rosto, nas rugas, reside a outra justificativa para ter sido chamada. “Eu precisava de uma atriz que tivesse respeitado seu corpo com a passagem do tempo, sem intervenções, afinal o objetivo é mostrar que não importa que a juventude se vá, mas sim que o corpo continue a desejar, a buscar, ser curioso”.
Como se dá também com a religiosa e vendedora de bíblias digitais, de sotaque hispânico, sem porém denotar uma origem precisa, numa região de fronteira com países sul-americanos. Para a personagem, a cubana Miriam Socarrás chegou a treinar um portunhol na preparação de elenco.
No mesmo embalo, a participação de Rodrigo Santoro como um barqueiro, ainda que desnudado do apelo de galã, quebra a expectativa do mais genuíno local. Se for o caso de cobrar lugar de fala, os intérpretes Rosa Malagueta, da etnia Tikuna, e Adanilo, do povo Munduruku, entre outros, dão conta do registro amazônico. Santoro é entusiasta do cinema de Mascaro, e num encontro lá atrás, disse que adoraria trabalhar com ele. “É uma participação afetiva”, diz Gabriel.
Mas nos quinze minutos em que contracena com Denise, cabe a ele introduzir um elemento de fantasia fundamental na viagem também sensorial de Teresa, um líquido extraído de raro caracol que permite ver o futuro. “São esses desafios que busco na carreira e Gabriel faz um cinema original, ousado, que permite a um ator novas experiências”, devolve Santoro. A alegoria, o apelo fantástico, o surreal, é a chave possível para lidar com uma realidade cada vez mais calcada no absurdo, justifica o diretor. É quase espontâneo, garante, que nesse ambiente surjam os elementos de fantasia de seus filmes. “Não se trata de criatividade, é o que o mundo atual nos apresenta a todo momento.”
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