19/06/2026

As forças e fraquezas do Brasil em dois documentários potentes

A diversidade do universo indígena e a persistência dos massacres no campo estão em dois documentários brasileiros em destaque na programação.

Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres-Peixe

Em uma cena de Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres-Peixe, um grupo de mulheres dos povos originários andam por uma floresta tendo à frente uma delas, que usa um vestido verde, que no peito traz escrito: “A mãe do Brasil é indígena”. Não poderia haver uma imagem melhor para resumir o espírito do documentário dirigido por Aldira Akay, Beka Munduruku e Rylcélia Akay.

As diretoras são da aldeia Sawre Muybu, e formam o coletivo audiovisual munduruku Daje Kapap Eypi. O roteiro, assinado pelo trio da direção e pelo produtor Estevão Ciavatta, constrói uma narrativa de cadência muito própria, que convida seu público a entrar num mundo de ancestralidade e diversidade, que ressalta a pluralidade do povo que vive margens do rio Tapajós, no Pará.

Como dizem as diretoras, o documentário é uma maneira de registrar a tradição oral, mantendo-a para sempre viva e permitindo um acesso maior ainda para as futuras gerações e as pessoas de fora da aldeia. Ao abordar a trajetória e lutas do povo Munduruku, o filme toca no cerne da questão da invasão do território indígena.

Animações muito bonitas ilustram momentos de histórias narradas oralmente. A montagem, assinada por Luana Bazhuni, prima pela organização formal da construção da história do povo. Já a fotografia de Carlos Araió Nascimento e Priscila Tapajowara evidencia a sintonia dos povos originários com a natureza, construindo algumas imagens de delicada poesia visual.

“Antigamente, [os invasores] matavam nós com armas, hoje, eles atacam com grandes projetos, [...] que são hidrelétricas, o Ferrogrão [é um projeto de ferrovia de 933 km que ligará o Centro-Oeste ao Pará]. Hoje em dia a gente tem mostrado muitos filmes fora de tudo o que acontece dentro do território, as invasões”, diz Aldira Akay, ressaltando a importância do trabalho seu e de suas colegas.

É muito interessante como as diretoras são capazes de valer-se da modernidade da tecnologia para eternizar exatamente a tradição, a ancestralidade. A resistência é registrada em cinema como uma outra forma de resistência, ao ressaltar a relevância de sua cultura não apenas para eles que sobrevivem aos anos de invasão e destruição. Mundurukuyü – A Floresta das Mulheres-Peixe cumpre com esse objetivo de forma bastante eficiente.

Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 10/4/2025 às 20h30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 11/4/2025 às 21h00

Pau D’arco

Competente tanto no campo da denúncia quanto da investigação e interesse humano, o documentário da jornalista Ana Aranha é um soco em forma de cinema. O foco está num massacre na cidade de Pau D’Arco (PA) em 2017, que segue impune até hoje. Dez trabalhadores rurais sem-terra – nove homens e uma mulher – foram brutalmente assassinados, em uma ação praticada por policiais militares e civis daquele estado.

O cenário era a Fazenda Santa Lúcia, na divisa entre o Pará e o Amazonas, onde um grupo reivindicava o espaço para plantar. A fazenda improdutiva pertence a uma família de latifundiários. Supostamente, teria havido um confronto entre os trabalhadores e os policiais, o que resultou nas mortes.

Conforme mostra o longa, porém, a realidade é mais complexa. A versão oficial é desmantelada por sobreviventes e pessoas que se aliam a eles, como a própria diretora, o advogado José Vargas Júnior, e Fernando, um dos sobreviventes. As entrevistas revelam uma teia de intrigas e mentiras que foi armada para encobrir o crime.

Resgatar essa história é fundamental, e o filme o faz de maneira muito contundente. A luta de Fernando e Vargas contra um sistema feito para, no mínimo, silenciá-los, é potente e, cinematograficamente, também muito forte. Num mundo marcado por violência e desigualdade, o direito à terra deixa de ser um direito e se torna uma batalha injusta entre um lado fragilizado e outro com todo o poder.

Fernando é uma figura simpática, bom de conversa, cativante e divertido. Suas falas são marcadas pelo trauma, mas também pelos sonhos de um futuro melhor, de ter sua casa e sua terra. O filme é dominado por ele. “Trabalhei com gente rica que tem mais perturbação do que nós, que é pobre”, diz.

A experiência da diretora como jornalista investigativa dá o tom ao documentário, que mesmo com sua proposta de denúncia evita cair numa espécie de proselitismo, e se apoia no material humano, o que dá força ao longa. Fernando e Vargas são corajosos e enfrentam os inimigos. A mulher e filhas do advogado, por exemplo, precisaram mudar de cidade devido às constantes ameaças que ele recebe. No meio do caminho, Vargas é acusado de ameaçar de morte uma pessoa por conversas em celular com um colega. Era na verdade, um diálogo, claramente, em tom de brincadeira, mas um juiz, o mesmo que julgava o caso do massacre, pediu a prisão do advogado.

O filme segue esses meandros que se abrem em torno do episódio complexo, que começa com a chacina. Ana faz um trabalho de investigação bastante fundamentado e sólido. O resultado é um filme relevante, forte e comovente no seu retrato de uma luta que parece não ter fim.

São Paulo- IMS Paulista - 10/4/2025 às 20h30

Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 12/4/2025 às 18h30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 13/4/2025 às 16h00