"Copan" e "Reconhecidos" retratam aspectos da realidade brasileira
- Por Alysson Oliveira
- 08/04/2025
- Tempo de leitura 6 minutos
Copan
Não deixa de existir um certo paradoxo na existência de edifício Copan, localizado no número 200 da famosa rua Ipiranga no centro de São Paulo. Seu tamanho gigantesco é imponente e duro, mas as linhas e curvas que o compões trazem leveza e movimento. Concebido por Oscar Niemeyer, com projeto estrutural do engenheiro Joaquim Cardozo, o edifício é o habitat de cerca de 5 mil pessoas, fora as que trabalham no prédio ou nas lojas, bares e restaurantes do seu térreo.
O documentário Copan, de Carine Wallauer, se aproxima de maneira muito interessante e particular desse mundo dentro do mundo de São Paulo. A primeira grande sacada do longa é não ser um filme quadrado contando a longa história do edifício – ou seja, coisas que qualquer pessoa poderia ler na Wikipedia. Não, o filme é uma construção impressionista de pessoas que moram e transitam por ali, montado com a leveza das curvas arquitetônicas e com a densidade do concreto que mantém o Copan de pé – ou seja, é um filme em sintonia com seu objeto.
Wallauer tem um olhar aguçado para o material humano que sua câmera observa com curiosidade. A estrutura social que compõe o edifício também não passa batida aqui. Há “os de cima” e “os de baixo”, a alta classe e a classe trabalhadora, e, mesmo entre os moradores, não há uniformidade, assim como não há entre o tamanho dos apartamentos.
É nessa contradição fincada próxima ao Edifício Itália e a Igreja da Consolação que reside o grande interesse do filme. Wallauer morou no prédio por sete anos, e essa sua experiência, é claro, contribui. Só uma pessoa com intimidade com os corredores e acessos saberia como captar as dinâmicas sociais que se imprimem por ali.
Com uma belíssima fotografia da própria cineasta, o longa parece transitar entre uma ficção científica pós-moderna numa cidade de luzes e contrastes, e uma investigação sociológica sobre o presente do Brasil. Rodado em 2022, próximo às eleições presidenciais, o filme incorpora sua própria disputa: era o momento das eleições de síndico do prédio e a oportunidade de tirar da cadeira a pessoa que ali permanece há 30 anos. Há, por exemplo, reuniões de condomínio que são, para usar uma gíria corrente, puro suco de Brasil.
Poderia soar como uma coincidência forçada colocar lado a lado as duas eleições, mas Wallauer dribla isso por colocar ao centro os processos democráticos do presente, seja no macro ou no micro. Dessa maneira, não se conduz por isso, mas, para além dos jogadores dessa disputa, o filme está interessado, possivelmente, ainda mais nas figuras que a decidirão. É, claramente, atento e carinhoso o olhar que o filme dirige às trabalhadoras e trabalhadores do Copan.
Que o filme consiga retratar bem vidas tão distintas, colocadas coletivamente num mesmo endereço, é um dos grandes méritos de Copan. Ao final, temos a certeza de ter passado um bom tempo dentro do prédio, conhecendo pessoas e ambientes – o contraste entre os apartamentos é marcante, por exemplo –, como num caldeirão que é o Brasil.
São Paulo – CineSesc - 8/4/2025 às 20h30
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo- 9/4/2025 às 17h00
Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 11/4/2025 às 20h30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 12/4/2025 às 20h30
Reconhecidos
Entre tantas injustiças da justiça brasileira, pouco se fala do reconhecimento facial errôneo. A memória das pessoas se confundem. Um assalto, por exemplo, pode durar poucos segundos, a vítima que passou por uma situação de stress dificilmente irá reconhecer com exatidão um criminoso por uma foto. Por esse, entre outros motivos, o reconhecimento de suspeitos por fotografia não é considerado uma prova suficiente. Mas a prática é utilizada no Brasil.
Corajoso, o documentário Reconhecidos acompanha quatro vítimas desse tipo de erro. Quatro homens pretos ou pardos que foram “reconhecidos” em fotos e presos por conta disso. Todos, como se prova por diversos meios, eram inocentes, mas o estrago em suas vidas já estava feito, por mais que suas fichas penais fossem limpas ou as fotos removidas dos álbuns de suspeitos. A devastação emocional deles e de suas famílias, como mostra o filme, não tem volta.
Claudio é um motoboy que foi “reconhecido” uma dúzia de vezes, e tem dificuldade de encontrar emprego. O técnico de enfermagem João chegou a ficar preso uma semana por conta de um “reconhecimento”. O produtor cultural Gustavo foi outro levado à prisão pelo mesmo motivo. E Alberto é um supervisor de cargas cujo documento de identidade foi furtado, encontrado no interior de um veículo roubado. Isso resultou em sua prisão.
O documentário de Fernanda Amim e Micael Hocherman destrincha as histórias desses homens e suas lutas para provar a inocência, o que não é nada simples. Câmeras de segurança espalhadas pela cidade ajudam a provar que, na hora do suposto crime, podiam estar em outro lugar. Algumas vezes, a própria descrição feita pela vítima é contestada pela real aparência dos acusados.
Como bem mostra Reconhecidos, os meandros do sistema de justiça brasileiro são labirínticos. A forma digital, com audiências online, que se tornou regra, parece tornar ainda mais moroso o processo. É um país marcado mesmo pelas injustiças, que, na maioria das vezes, acontece com pobres e pretos.
Nesse sentido, os advogados e advogadas são fundamentais para essas vítimas do sistema. O filme ressalta bastante isso, a função deles e delas como uma ponte que explica e desvenda a linguagem judicial que é marcada exatamente pelo propósito de complicar, de dificultar sua compreensão.
São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 8/4/2025 às 19h30
São Paulo - IMS Paulista - 11/4/2025 às 20h30
Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 13/4/2025 às 18h00
