19/06/2026

Retratos de uma atriz brasileira e uma presidente na Europa

No segundo dia de sua programação, o Festival É Tudo Verdade revela perfis da atriz Marília Pêra, a história de um filme nunca realizado por Luiz Sérgio Person, histórias da trágica enchente no Rio Grande do Sul e a trajetória da primeira mulher presidente da Eslováquia, Zuzana Caputová.

Filmes brasileiros

Viva Marília

Marília Pêra era uma artista plural. Não apenas atuava, mas cantava e dançava, estrelando diversos espetáculos musicais. Sua marca no teatro, cinema e televisão persistirá. O documentário Viva Marília, dirigido por Zelito Viana e codirigido por Esperança Motta, filha da artista com Nelson Motta, que, por sua vez, assina o roteiro, é uma hagiografia bem-intencionada, mas que não consegue escapar de um formato quadrado para falar de uma personalidade que era moderna.

Partindo de uma série de entrevistas da artista ao longo de sua carreira, e resgatando imagens de diversos trabalhos seus, o filme ressalta o talento de Marília, entrando um pouco em sua vida pessoal, falando de passagem dos casamentos, e um pouco mais dos filhos. Mas deixa de lado polêmicas que envolveram sua trajetória, por exemplo, quando ela sofreu represálias, inclusive na porta do teatro, por apoiar o candidato Fernando Collor de Mello, na eleição presidencial de 1989, ou o burnout enquanto gravava a novela Supermanoela, em 1974, pedindo para sair da produção e, como punição, ficou afastada das novelas por quase 15 anos.

Apesar disso, Viva Marília é rico no material que traz, contando a história da artista desde a infância. Filha de um ator de teatro português emigrado para o Brasil, ela estreou nos palcos com apenas 4 anos, ao lado dos pais, que faziam parte da companhia de Henriette Morineau, na qual chegou a fazer uma das filhas de Medéia. No teatro, fez personagens como Carmen Miranda, Coco Chanel e Maria Callas.

Como é codirigido por sua filha, não é de se estranhar que seja uma carta de amor à artista, com alguns depoimentos bastante sinceros, colhidos ao longo da trajetória. A atriz conta, por exemplo, que se sentiu “enganada” por Walter Salles para fazer Central do Brasil. Segundo Marília, o cineasta disse que as duas personagens femininas tinham o mesmo peso mas, quando ela leu o roteiro, percebeu que ficaria fora de cena a maior parte do filme. Ainda assim, topou fazer, pois queria trabalhar com Fernanda Montenegro e Salles.
E, de qualquer forma, sua participação pode ser pequena, mas é marcante, e serve como um alívio cômico num filme tão melancólico.
(Alysson Oliveira)

Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 4/4/2025 às 20h30

São Paulo – CineSesc - 9/4/2025 às 17h30

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 13/4/2025 às 21h30

Os Ruminantes

A adaptação de A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga, publicado em 1966, quase chegou aos cinemas pelas mãos do cineasta Luiz Sérgio Person. Seria filmado logo depois de O Caso dos Irmãos Naves, de 1967, mas se tornou um sonho nunca concretizado na carreira do diretor, morto em 1976.

Os Ruminantes, documentário dirigido por Tarsila Araújo e Marcelo Mello, resgata a história desse filme que nunca existiu, embora seu roteiro tenha sido escrito pelo diretor e Jean-Claude Bernardet. Combinando realismo e fantasia, a obra original representava um golpe político e era, claramente, um filme sobre a ditadura brasileira e a opressão.

Reunindo depoimentos do próprio Bernardet, da cineasta Marina Person (filha de Luiz Sérgio), entre outros, ao resgatar a trajetória do filme que ficou no papel, o documentário traça não só um retrato do cinema brasileiro e dos desafios de produzir cinema nos anos de 1960 e 1970, como é, também, um registro do Brasil daquela época e das adversidades enfrentadas pela cultura nacional em tempos sombrios.

Person chegou a ir para os EUA, com o sucesso de O Caso dos Irmãos Naves, na tentativa de conseguir um financiamento, mas sempre ouviu não, além de algumas sugestões sobre “fazer um filme sobre as belezas do Rio de Janeiro”. Mas quando a ditadura ficou sabendo da exibição em Nova York de um filme que denunciava a tortura no Brasil, militares fizeram um lobby para que Person não conseguisse financiamento para seu longa.

O filme, conforme imaginado pelo diretor, traria no elenco José Lewgoy, Juca de Oliveira, João Quincas, John Herbert, Fulvio Stefanini e até uma participação do José Mojica Marins, e deveria ser rodado na região do Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo.

Bernardet conta que o roteiro estava pronto para ser filmado e, segundo o próprio Person, a ideia não era para ser apenas divertimento, mas deveria se comunicar com o público, com o povo. A intenção ia ao encontro das principais críticas do cineasta ao Cinema Novo que, para ele, era hermético e para intelectuais.

Os desdobramentos que seguem quando o filme não feito estão ligados à repressão, mas, também, a coincidências inusitadas. Segundo depoimentos feitos no DOI-CODI, que nem sempre são confiáveis, dadas as circunstâncias que foram colhidos, negativos coloridos que seriam usados em A Hora dos Ruminantes que acabaram chegando nas mãos de Rogério Sganzerla e, supostamente, foram usados em O Bandido da Luz Vermelha.

Ao invés da adaptação de Veiga, Person acabou fazendo a comédia Panca de Valente, que, para ele, “foi um fracasso total, artístico e comercial”. Ele ficou tão desgostoso com isso que até abandonou o cinema, indo trabalhar com publicidade. Como se sabe, o diretor ainda voltou ao cinema, tentou conseguir financiamento para retomar A Hora dos Ruminantes, o que nunca aconteceu. Outros cineastas também tentaram fazer o filme, sem sucesso.

A maneira como o documentário busca sempre a interligação entre política e cultura é muito interessante. E, ao final, fica apenas a imaginação de como seria o longa se Person tivesse conseguido materializar seu sonho. (Alysson Oliveira)

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 4/04/2025 às 19h30

Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 5/4/2025 às 18h30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 6/4/2025 às 16h00

São Paulo - IMS Paulista - 12/4/2025 às 18h00

Rua do Pescador, nº 6

O segundo longa documental dirigido pela atriz Bárbara Paz, Rua do Pescador, nº 6, tem como tema a tragédia climática que aconteceu no Rio Grande do Sul com as fortes enchentes em 2024. Filmado em junho de 2024, o filme acompanha a vida de moradores da região metropolitana de Porto Alegre e do interior do estado.

Feito por uma equipe majoritariamente gaúcha, quando muitos desses profissionais estavam sem trabalho, esse é um documentário observacional, que acompanha, primeiro a destruição, especialmente com imagens do Corpo de Bombeiros, Defesa Civil, das vítimas, e depois as consequências na vida de pessoas periféricas que perderam tudo ou quase tudo.

Filmado em preto-e-branco, com fotografia do premiado Bruno Polidoro, é um filme que muitas vezes extrapola a linha da estetização da destruição, uma espécie de apocalypse porn, com atenção para o sofrimento. Desde imagens que se tornaram marcantes, como o cavalo ilhado num telhado, à luta de um cachorro na tentativa de subir em escombros, nadando desesperadamente. Essa sequência é particularmente longa e aflitiva – o que leva a pensar se não há um certo fetiche do filme por esse tipo de imagem.

Imagens de drone passeando pelas ruas de uma cidade do interior coberta de barro também são um tanto discutíveis. Não que a tragédia e a luta das pessoas para a sobrevivência no dia seguinte não sejam importantes ou não mereçam um registro documental, mas aqui, a começar pela fotografia, a busca por uma imagem de impacto ou mesmo poética parece ser o que guia o filme, quando o interesse humano deveria sobressair. (Alysson Oliveira)

São Paulo – CineSesc - 4/4/2025 às 20h30

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 5/4/2025 às 17h00

Rio de Janeiro- Estação NET Botafogo - 9/4/2025 às 20h30

Rio de Janeiro - Estação NET Rio - 10/4/2025 às 21h00

Filme internacional

Sra Presidente

O documentário de Marek Sulik retrata com notável acesso aos bastidores do poder a experiência, por enquanto única, da primeira mulher a presidir a Eslováquia, Zuzana Caputová.

Mais jovem presidente daquele país - tinha 45 anos à época da posse, em 2019 -, Zuzana comandou a nação, de pouco mais de 5 milhões de habitantes, num período conturbado, tanto política, quanto pessoalmente. A advogada de formação sucedeu um governo comandado por Robert Fico, que renunciou após acusações de ligação entre políticos e o crime organizado, que culminara no assassinato de um jornalista investigativo, Ján Kuciak, e sua noiva, Martina Kusnirová. Zuzana assumiu com garra a tentativa de fazer os eslovacos voltarem a acreditar na politica, enfrentando desafios como a pressão acirrada da extrema-direita, a pandemia da covid-19 e a guerra da Ucrânia, em que ela tomou o partido desse país contra a invasão russa, chegando a visitá-lo pessoalmente.

É raro assistir a um filme com tanto acesso ao interior de um palácio presidencial e às reuniões entre a carismática presidente e sua equipe mais próxima de assessores, quase todos mais jovens do que ela. Há um dinamismo, portanto, nesse retrato do poder, num momento que, mais tarde, parecerá apenas um hiato na história dessa república, abalada, como outros países, pela ferocidade de uma extrema-direita incansável em disparar ofensas misóginas e até ameaças de morte contra a presidente - que, afinal, desiste de tentar um segundo mandato.

O filme de Sulik tem essa agilidade no trato de seus personagens, observando-se o que parece uma enorme transparência de sua protagonista - que viveu, dentro de seu mandato, encerrado em 2024, dramáticas crises pessoais, como a grave doença de uma de suas filhas e a morte de seu pai, ocorrida, por uma trágica coincidência, durante uma visita do papa Francisco, em 2021. (Neusa Barbosa)

São Paulo - Cinemateca Brasileira - Grande Otelo - 4/4/2025 às 14h30

Rio de Janeiro - Estação NET Botafogo - 4/4/2025 às 16h30

São Paulo - IMS Paulista - 6/4/2025 às 20h30