Documentários resgatam histórias essenciais do cinema brasileiro
- Por Neusa Barbosa, de Ouro Preto
- 29/06/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Ouro Preto - A competição do festival continuou neste sábado (28) com a exibição de outros dois documentários, ambos iluminando momentos essenciais da realização cinematográfica nacional.
Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello (SP), resgata a história de um filme nunca realizado do diretor paulista Luiz Sérgio Person, que adaptaria o livro homônimo A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga.
Tendo como viga-mestra o depoimentos de Jean-Claude Bernardet, corroteirista do filme junto com Person, o documentário levanta os detalhes de um projeto ambicioso que, em 1967, daria sequência à carreira então ascendente do diretor, que já assinara os clássicos São Paulo S.A. (1965) e O Caso dos Irmãos Naves (1967).
O filme levanta a série de entraves que foram se acumulando no caminho do projeto, em que não faltou mesmo a intervenção do governo militar da época, incomodado com a denúncia da tortura contida em O Caso dos Irmãos Naves - que foi exibido inclusive nos EUA - para impedir que o diretor obtivesse recursos para a filmagem com produtores norte-americanos, depois que o produtor brasileiro, Mário Civelli, desistiu por motivos de saúde.
Luta armada
Dessa ruptura surge a história mais fantasiosa de todo o filme. Civelli indenizou Person pela interrupção do projeto, entregando-lhe negativos coloridos, que na época valiam muito dinheiro. Documentos do DOPS revelados por ocasião da Comissão da Verdade (2011-2014) levantaram a suspeita, nunca comprovada evidentemente, de que Person - uma figura contrária ao regime e diretor de filmes que o contestavam - teria vendido os negativos a um grupo da luta armada, que pretenderia realizar um filme de conteúdo político. Mais tarde, porém, esse grupo teria desistido e vendido os negativos a outro cineasta da esquerda, Rogério Sganzerla. Como, na época, se usava com frequência a tortura para obter esse tipo de declarações, nunca, evidentemente, houve qualquer prova deste episódio - desconhecido tanto por Bernardet quanto pela filha do cineasta, Marina Person.
A frustração de A Hora dos Ruminantes, no entanto, teve consequências enormes na carreira de Person, que se voltou para projetos que pensava poderiam ter maior apelo popular para financiá-lo mais adiante - como Panca de Valente (1968), um misto de comédia e faroeste que terminou não tendo sucesso e levando ao afastamento temporário do diretor do cinema, dedicando-se à publicidade.
De todo modo, Os Ruminantes compõe um esboço detalhado desse filme que nunca existiu e que, realizado, poderia ter feito toda a diferença na vida de Person - que morreu precocemente, aos 39 anos, num acidente de automóvel em 1976. Além disso, o filme oferece uma memória sobre as circunstâncias de produção do cinema brasileiro e seus gargalos, nunca completamente superados.
Bodanszky
Outro olhar sobre o passado que reflete sobre o presente embasou o documentário Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky, codirigido pelo próprio Bodanzky e Liliane Maia (AM/MT). Recorrendo aos seus diários de filmagem, feitos com uma câmera super-8, de seus filmes e reportagens para uma TV alemã nos anos 1970, o diretor paulista recupera a memória de sua formação, que conduziria futuramente à realização de uma obra cinematográfica profundamente reveladora da Amazônia e das comunidades indígenas, assediadas pela expansão das fronteiras urbanas e a construção de obras de grande vulto - como a Transamazônica, idealizada pela ditadura militar dentro de sua ideologia do “Brasil Grande”, que abriu caminho a um modelo econômico baseado na devastação ambiental e na violência contra os povos originários.
Bodanzky volta ao Mato Grosso em 2022, reencontrando integrantes do Projeto Humboldt, uma cidade científica cuja construção nunca foi concluída, e que foi objeto de algumas de suas reportagens para a TV alemã, feitas com o colega Karl Brugger. Com Brugger, Bodanzky rodaria diversos locais da América Latina, descortinando, para o brasileiro, o rumo de uma obra que se traduziria mais tarde em filmes como o clássico Iracema - Uma Transa Amazônica (1974), que será brevemente relançado nos cinemas.
Bodanzky também visita uma comunidade de cintas-largas, personagens da imagem inicial do documentário, quando ele captou, do alto de um avião, em 1973, uma maloca desse povo, até então isolado, e que sofreu, nas décadas seguintes, um processo de quase destruição. Revendo essas antigas imagens, os indígenas sobreviventes e seus descendentes podem, finalmente, oferecer sua própria resposta.
Se há algo para ser muito aproveitado deste documentário raro é o diálogo que Bodanzky estabelece com a própria obra, com o próprio passado, contando com a interlocução da codiretora, revalorizando a profusão de imagens de arquivo que pontuam o filme de ponta a ponta.
