05/06/2026

Quando o cinema ri de suas próprias agruras

Brasília - Os perrengues para a produção de um filme são a substância da comédia cearense Morte e Vida Madalena, primeiro longa em competição no festival e em que o diretor Guto Parente, também roteirista, transforma em ficção coisas que ele, seu elenco e sua equipe conhecem de cor.

Se fosse um documentário, poderia soar mais como drama, mas o roteiro de Parente - o celebrado diretor de Estranho Caminho (2023) e codiretor do cult Inferninho (2018), ao lado de Pedro Diógenes - prefere a rota do humor para descrever a grande crise pessoal da protagonista, Madalena (Noá Bonoba).

Madalena acaba de perder o pai (Carlos Francisco) e está empenhada em filmar um roteiro deixado por ele. As dificuldades de financiamento se acumulam e, ao mesmo tempo, ela tem que lidar com uma gravidez de oito meses e o resto de uma crise matrimonial com Davi (Marcus Curvelo).

Madalena é o epicentro da produção de uma ficção científica B, meio trash, o que fornece um elemento cômico a mais no meio de um set confuso, atropelado pela crise do dinheiro que não chega, de uma ameaça de greve encaminhada pelo técnico de som Nonato (David Santos) e os arroubos de um ator (Tavinho Teixeira).

Se se trata inegavelmente de uma comédia com um filme dentro de outro, em que o cinema olha para dentro de seus próprios bastidores, também é claro que não se procura aqui um humor popular à la Halder Gomes, para ficar numa outra referência do cinema cearense. Como disse o diretor Guto Parente na coletiva, este projeto, que levou 8 anos para sua concretização, “nasce de um acúmulo de experiências de várias pessoas que fazem cinema dentro das limitações de tempo e orçamento”. Ao mesmo tempo que se procurou trazer para diante das câmeras parte das dificuldades desta realização, houve também a intenção de “criar um registro sobre o próprio modo de fazer cinema”. Ou seja, coletivo e cheio de solidariedade e afeto, apesar dos tropeços e conflitos.

Morte e Vida Madalena teve também uma première internacional do FID em Marselha, França, com três sessões em que o público local riu bastante - até em momentos inesperados, como ressaltou o diretor.

Curtas

Primeiro curta da competição, Logos, estreia da da diretora gaúcha Britney Federline, trata de uma história bastante pessoal, em que a cineasta escava memórias de sua dramática experiência com a Covid 19. E a animação Safo, da veterana diretora paulista Rosana Urbes, cria uma textura poética e muito bela para resgatar fragmentos da figura e da obra da poeta grega da Antiguidade .