Nosferatu e outros monstros do nosso e de outros tempos
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 16/09/2025
- Tempo de leitura 4 minutos
Brasília - Inaugurando a mostra competitiva paralela Caleidoscópio, Nosferatu, de Cristiano Burlan, teve uma sessão vespertina lotada nesta segunda (15) no Cine Brasília - e com uma imensa platéia de adolescentes, que lotaram também o auditório em que se realizou um pequeno debate após a sessão.
Dentro de uma filmografia que inclui documentários sobre uma dolorosa história familiar (Mataram Meu Irmão, Elegia de um Crime) e experimentações também sobre personagens clássicos da literatura e dramaturgia (Hamlet), Burlan entregou uma versão bastante pessoal do vampiro que atravessou séculos e teve versões cinematográficas de F. W. Murnau e Werner Herzog. O Nosferatu de Burlan (interpretado por Rodrigo Sanches) vaga pelos cais desolados de Santos - onde foi filmada 70% da produção - e tanto assombra quanto é assombrado por figuras como uma mulher-fantasma questionadora ou um deslocado lutador de artes marciais.
O filme de Burlan não busca uma unidade narrativa, acompanhando esse personagem solitário cuja monstruosidade ressoa como solidão, falta de lugar no mundo, o que é materializado por falas extraídas de textos de Carlos Drummond de Andrade, Virginia Woolf e William Shakespeare - mas que não são artificiais, nem soam como pedantismo, porque se inserem organicamente na trajetória destes personagens, como os interpretados por Jean-Claude Bernardet, recentemente falecido, e Helena Ignez.
Nosferatu, o filme, mostra-se uma experiência sensorial em que a fotografia em P&B, assinada por Cauê Angeli, remete a uma atmosfera de cinema mudo, de filme B dos anos 1930, para nos conduzir à indagação proposta pelo ator Henrique Zanoni no debate pós-filme: que monstro é esse? Num tempo em que a monstruosidade e o excesso desafiam definições, esta é uma pergunta mais do que pertinente. E não a única a nos guiar nesta suavemente empolgante tarefa de acompanhar Nosferatu por escadas, corredores e cais sombrios em busca de libertação e de luz
Sororidade
Na competição principal, Quatro Meninas, estreia da diretora Karen Suzane, apresentou-se como um possível objeto não-identificado da seleção. Filme de época, ambientado em 1884, parte do roteiro assinado por Clara Ferrer para imaginar uma situação inusitada. Num internato, forma-se uma inesperada aliança entre quatro escravas em fuga (Ágatha Marinho, Alana Cabral, Dhara Lopes e Maria Ibrahim) e quatro das internas brancas, fugindo de destinos como conventos ou casamentos forçados (Duda Batsow, Duda Matte, Gabi Cardoso e Giovanna Rispoli).
É um ponto de partida atraente, já que mergulha numa ideia de sororidade, mas o desenvolvimento das situações escapa cada vez mais à própria lógica interna que uma obra de ficção deve necessariamente ter - por mais que seja saudável dar asas à imaginação. Cria-se aqui um conflito a partir do fato de que as meninas têm que interromper sua fuga, refugiando-se num abandonado casarão, à espera de que haja condições climáticas para que as ex-escravas se escondam num quilombo da região. Viciadas em sua situação de privilégio, as garotas brancas procuram manter nesse lugar a relação de servidão de suas antigas servidoras, contra o que estas saudavelmente se rebelam. E isto que é o mais interessante dessa inversão de jogo de poder se transforma, infelizmente rápido demais, numa diluição um tanto ingênua e pouco crível, por fragilidades de sua dramaturgia.
Se há méritos aqui está no talento das garotas, demonstrando uma energia admirável que não encontra aqui as condições ideais de expressão.
Curtas
Andou muito melhor o curta Laudelina e a Felicidade Guerreira, de Milena Manfredini (RJ), que resgata a figura de uma pioneira na luta pelos direitos das empregadas domésticas no Brasil, Laudelina de Campos Mello, recorrendo a uma criativa interlocução entre materiais de arquivo e diversas técnicas, como a experimentação com janelas, refletindo a experiência da diretora com Artes Plásticas.
Outro curta da competição foi o cearense Faísca, um híbrido entre ficção e documentário de Bárbara Matias Kariri que tematiza o significado do desaparecimento das onças de um território e os esforços de sua comunidade indígena para promover a volta desses animais, de significado mítico e que primitivamente conviviam em paz com eles.
Relacionadas
Tema da terra domina programação de domingo
- 15/09/2025
Quando o cinema ri de suas próprias agruras
- 14/09/2025
