Olhares sobre identidade e território encerram competição em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 20/09/2025
- Tempo de leitura 3 minutos
Brasília - O festival encerrou sua mostra competitiva de longas e curtas nesta noite de sexta (19) com três filmes abordando inquietações relativas a território e identidade. A premiação será divulgada nesta noite de sábado (20).
O longa da noite foi o gaúcho Futuro Futuro, de Davi Pretto, que sintoniza em chave de distopia o mal-estar profundo do mundo contemporâneo através da trajetória de K. (Zé Maria), homem sem memória, nome, casa, profissão, experimentando o grau máximo de desumanização.
Acolhido por Sílvio (João Carlos Castanha), sexagenário com quem compartilha uma jornada de exclusão, de vida à margem, K. vai ser confrontado com memórias de uma vida pregressa através do recurso a um aparelho, chamado de Oráculo, que lhe fornece imagens de um outro setor da cidade, rico, povoado de enormes edifícios.
Esta cidade dividida entre estes setores ricos e exclusivos e a cidade empobrecida, em escombros, é o cenário de um filme que recorre extensamente à IA, justamente para recriar estes cenários de uma Porto Alegre cada vez mais segregada, na visão do diretor. “Recriamos estes lugares onde certamente não teríamos permissão de acesso”, explicou.
A IA foi também uma forma de enfrentar os efeitos da grande enchente que abalou o Rio Grande do Sul em 2024, que paralisou as filmagens por meses e também impossibilitou a volta da filmagem ao cenário de um galpão, totalmente alagado e destruído.
Mas, de todo modo, tanto o IA quanto o tema da enchente já faziam parte do roteiro, assinado também por Davi Pretto, desde o começo do projeto. De uma forma quase profética, havia realmente menção a uma enchente neste roteiro antes que ela acontecesse. Mas sua concretização tornou o tema e a filmagem ainda mais dramáticos, já que um evento dessa magnitude não teria como não abalar todos os integrantes da equipe.
Filmado com baixíssimo orçamento Futuro Futuro certamente foi um filme único dentro da seleção deste ano, por sua procura de atravessamento entre diversos gêneros e sua recusa a integrar uma narrativa linear. De todo modo, o filme insere-se dentro da obra de um diretor que assina longas como Castanha (2014), doc-ficção justamente sobre o ator João Carlos Castanha, aqui novamente integrante do elenco; Rifle (2016); e Continente (2014), todos eles filmes exibidos em festivais internacionais, como Berlim e Sitges, e integrando em sua feitura elementos de filmes de gênero, como terror, de maneira a transgredir seus limites.
Com um elenco integrado também por Gabriela Greco, Carlota Joaquina, Clara Choveaux e Higor Campagnari, Futuro Futuro é o tipo de filme que não alivia a trajetória para o público e pede reflexão para ser decifrado - demonstrando uma coragem de ousar que nem sempre é assumida pelos criadores.
Identidades
No curta Replika, os diretores Piratá Waurá e Heloísa Passos, unem seus saberes para compor o relato em torno da chegada da réplica da gruta sagrada de Kamukuwaká na cultura desse povo do Xingu, traçando um retrato da comunidade e resgatando a importância da mitologia indígena em torno desse lugar - que guarda inscrições rupestres, mas fica fora do território demarcado dos Waurá e, apesar de ser um lugar tombado, foi vandalizado em 2018.
Outro curta, Fogo Abismo, de Roni Sousa, documenta, em forma de diário íntimo, a vivência infantil do diretor, crescendo na Vila Rabelo, uma das mais antigas ocupações do Distrito Federal.
Recorrendo a fotos pessoais e uma narração em primeira pessoa, o cineasta coloca em foco memórias, traumas e também a crônica da vida de uma família trabalhadora moradora desse lugar.
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