Tema da terra domina programação de domingo
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 15/09/2025
- Tempo de leitura 2 minutos
Brasília - A segunda noite competitiva alinhou um curta e um longa que refletem sobre um tema crucial no País, a posse e o uso da terra, com todos os seus reflexos ambientais e políticos.
O longa veio da Bahia e foi o documentário Xingu à Margem, em que os diretores Wallace Nogueira e Arlete Félix Juruna abordam o impacto da hidrelétrica de Belo Monte sobre populações ribeirinhas do Pará.
Centrando-se na figura inegavelmente carismática de dona Raimunda Silva, o documentário transforma-se quase num filme de personagem, deixando a ela, ativista inegavelmente articulada, a narrativa principal sobre os acontecimentos. Os indígenas, outra parte desta história, aparecem mais no começo do filme, como em imagens de arquivo que mostram um protesto contra a construção da hidrelétrica - autorizada em 2011 mas só totalmente concluída em 2019. Ao longo desse período, a usina foi arrematada num leilão pela Norte Energia, empresa privada que é continuamente mencionada pelos entrevistados como operadora de acordos que muitos deles consideram lesivos aos seus interesses.
Pelo depoimento de d. Raimunda e outros, mencionam-se queixas como deslocamento de terras, obrigatoriedade de mudança de profissão (pescadores tiveram que tornar-se agricultores), além de diferenças em processos indenizatórios que produziram uma profunda divisão na comunidade local. Toda essa descrição ocorre apenas a partir de depoimentos e de imagens, algumas feitas com drones, de áreas de florestas alagadas devido à construção da usina. Há acusações mais sérias, como o incêndio da casa de d. Raimunda, uma das inúmeras pressões criminosas sofridas por ela por discordar do encaminhamento das questões locais.
Se apresenta alguns problemas para clareza da narrativa, o documentário procura colocar-se no olho do furacão, dando voz a populações que sofreram os impactos de uma grande obra de maneira desigual e que ainda padecem de seus efeitos. Mas a introdução de um pouco mais de contexto ajudaria o filme a ampliar seu alcance. Afinal, o projeto de Belo Monte foi aprovado em 2011, final do governo Dilma Rousseff, mas só foi implementado entre os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, o que mudou bastante as implicações em torno da hidrelétrica.
Crianças do MST
O curta veio do Paraná e foi A Dança dos Vagalumes, de Maikon Nery, uma ficção sobre a volta da jovem Joana (Amanda Abranches) como professora da escola do assentamento do MST onde ela cresceu e vivenciou um episódio de violência. Com duração um pouco estendida, de 25 minutos, o filme escolhe um percurso poético para retratar o cotidiano deste assentamento, cujo cenário real foi o Eli Vive, nas imediações de Londrina (PR), especialmente a vivência das crianças - culminando numa bela cena no final que remete ao título.
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