Uma noite para lançar luz sobre pessoas invisibilizadas
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 18/09/2025
- Tempo de leitura 2 minutos
Brasília - Na noite de quarta (17) deu-se a palavra a personagens normalmente invisíveis na sociedade. Foi o caso do documentário Aqui Não Entra Luz, primeiro longa de Karol Maia (MG), que trouxe a crônica persistência de relações de semi-escravidão no cotidiano das empregadas domésticas.
Contando com depoimentos de quatro domésticas de diferentes estados brasileiros, como a própria mãe da diretora, Miriam Mendes, o filme explora também o significado da persistência dos quartos de empregada nos projetos de edifícios modernos - uma excrescência que demonstra ser uma continuidade das senzalas, localizados nos fundos dos imóveis, em condições não raro insalubres, com pouco espaço e falta de luz e arejamento, como se remete no próprio título do filme.
Ao entrevistar suas personagens no ambiente de suas casas, em que elas têm seu espaço e figura dignificados, o filme devolve a elas uma humanidade que o exercício do trabalho tantas vezes lhe roubou antes. Não é raro o caso de personagens como Rosarinha e Cris Graciano, obrigadas a trabalhar desde crianças, desprovidas da possibilidade de uma infância, além de oportunidades de estudo e descanso adequados, perpetuando uma situação de exclusão e pobreza com consequências cruciais para seu futuro.
É particularmente pungente o relato de Cris, abandonada pela mãe ainda bebê e entregue a uma tia, e que acaba tornando-se mãe precoce aos 14 anos e sendo privada de ver sua própria filha por mais de 20 anos, depois que a tia, uma pastora evangélica, desaparece levando a menina.
Se a relação com os espaços arquitetônicos dos quartinhos e das senzalas não é tão bem construída no filme, ela é referida com clareza nos depoimentos de algumas das entrevistadas que ocuparam esses quartinhos, somando mais um fator de discriminação dentro de um trabalho aviltado e invisibilizado, embora tão necessário.
Curtas
Raro exemplar do cinema de Roraima, o curta documental Pele do Ouro, das diretoras Marcela Ulhoa e Yare Perdomo, reconstitui a inquietante trajetória de Patri, uma imigrante venezuelana, a partir de seus próprios diários. Neles, ela compartilha o sofrimento de ter sido obrigada a recorrer à prostituição, inclusive em garimpos, para sobreviver, num relato híbrido em que ela reencena corajosamente diversos episódios.
O outro curta da noite veio de Minas Gerais, Cantô meu Alvará, de Marcelo Lin, uma ficção estruturada em torno de três personagens periféricas, Nayara Francis, Lara Emanuelly e Fernanda Ferreira, e seus dilemas entre a exclusão e a necessidade do direito a ter sonhos.
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