23/09/2026

Um menino brasileiro sonha na Generation

Berlim - Continuando a passagem da primorosa esquadra brasileira, que inclui dez filmes na programação, Feito Pipa (veja o trailer internacional), de Allan Deberton, encantou o público da seção Generation - que justamente destaca filmes de temática infanto-juvenil.

Partindo de um roteiro de André Araújo, o premiado diretor de Pacarrete, mergulha na vida de Gugu (Yuri Gomes), menino de 11 anos, órfão de mãe, criado pela avó (a extraordiinária Teca Pereira), enquanto seu pai (Lázaro Ramos), formou família com uma nova mulher (Georgina Castro).

O filme é encantador em sua criação de um mundo todo particular, em que Gugu luta contra a homofobia na escola, já que ele é um menino que gosta de usar camisetas e enfeites femininos e adora dançar, como a avó. Esse contexto incomoda o pai, que tenta enquadrar o menino no seu modelo de masculinidade, mas a resistência de Gugu e dessa avó, que também luta contra os estereótipos impostos às pessoas mais velhas - gostando de namorar e dançar forró.

É um filme que privilegia a busca do espaço da imaginação e do sonho para conquistar um lugar melhor e encanta na sua delicadeza, com a vantagem de não dispensar a discussão de alguns temas sérios, como o impacto ambiental das represas e a perseguição aos ativistas.

Confira as entrevistas do diretor Allan Deberton e dos atores Lázaro Ramos e Teca Pereira no canal do Cineweb no YouTube.

Competição

Apostar em Sandra Hüller é quase covardia. Não dá para esperar uma interpretação menos do que primorosa dessa alemã de 47 anos que já arrebatou o mundo com Anatomia de uma Queda, Zona de Interesse e Toni Erdmann. Mais uma vez, é o que acontece no drama de época Rose, em que a atriz interpreta uma mulher do século XVII que se faz passar por homem.

Na qualidade de ex-soldado que defendeu seu país numa grande guerra, ela se apresenta numa aldeia com documentos que atestam que é o herdeiro de uma propriedade rural há muito abandonada. Depois de uma perplexidade inicial, ela consegue não só convencer as autoridades sobre sua identidade como ganha o respeito da comunidade por sua dedicação a resgatar a fazenda, que rapidamente se torna produtiva.

Sua reserva e contenção não impedem que sofra algumas pressões, como a de casar-se com a filha de um outro fazendeiro do qual ela desejava comprar o acesso a um rio. Casando-se com Suzanna (Caro Braun), Rose manobra para manter curiosos afastados de sua vida - mas, evidentemente, a mera presença de sua mulher já desafia a manutenção de sua mentira, por mais que Rose tenha vários recursos para defender-se.

No filme, dirigido e roteirizado por Markus Schleinzer, a contenção e intensidade dramáticas e uma bela fotografia em preto-e-branco de Gerard Kerkletz compõe uma narrativa envolvente e crítica do patriarcado, trafegando em caminhos nada óbvios. Mas a grande sustentação a esta protagonista peculiar, sem dúvida, é a magnífica atriz que a interpreta. Por isso, já surgiram comentários sobre Urso de Ouro e prêmio de interpretação para a prata da casa.

Dao

Dirigido pelo franco-senegalês Alain Gomis, Dao tornou-se aquele tipo de filme que eletriza discussões pela mistura de gêneros e a narrativa desafiadora - inclusive pela nada generosa duração de 185 minutos. Partindo de personagens reais como pontos iniciais da pesquisa e entrelaçando atores e não-atores na tela, Gomis cria um enredo que liga um casamento, uma cerimônia fúnebre e várias festas e danças da comunidade da Guiné Bissau, inserindo a energia africana no festival.

É um filme que não pretende fixar-se nem na ficção, nem no documentário, para seguir algumas pessoas, como Gloria, a mulher cujo pai falecido está no centro de uma complexa cerimônia na Guiné, durante vários dias, e o casamento de sua própria filha, Nour.

Abarcando os aspectos opostos mas também complementares dessas duas cerimônias, o filme capta uma energia vital atraente - embora, às vezes, pareça que Gomis tenha se apegado demais a algumas pessoas para não perceber que faria bem ao filme enxugar algumas sequências, em prol de seu ritmo.

De todo modo, é um filme que aspira a uma originalidade, frescor e ousadia para tentar o risco, sem medo de algumas hesitações e impurezas. Isto é cinema em estado bruto.

Kurtulus

O cinema turco está sendo uma nota de respeito dentro do festival, agora com o drama Kurtulus, do veterano Emin Alper - que teve exibido no Brasil, em 2022, o drama Dias Ardentes, na programação da Mostra de São Paulo.

Doutorado em História Turca Moderna, Alper assina também o roteiro, baseado em fatos reais, que relata a iminência de uma guerra entre duas aldeias próximas, dominadas por clãs curdos rivais. Anos atrás, a região foi tomada por grupos terroristas e um dos clãs abandonou suas terras, tomadas pelos adversários. Quando o grupo antigo volta, a antiga rivalidade se instala, prometendo a guerra e o massacre.

O Estado, representado pelo exército que vigia a região, pouco ou nada pode fazer para que o conflito ecloda, escudado na religião e numa tradição que não aceita a intervenção nem da ciência, nem da cultura ou do que quer que seja. É um mundo primitivo, masculino, guerreiro e impiedoso, retratado como a crônica de mortes anunciadas - mas cuja denúncia se tornará possível por um pequeno detalhe.

O filme, em todo caso, olha de frente esse universo arcaico e impermeável a mudanças e negociações e que serve muito bem como metáfora de tantas outras guerras intermináveis em outros locais do mundo.

Dust

A crítica ao capitalismo reverbera neste drama com um toque de thriller, Dust, assinado pela diretora belga Anke Blondé. É o segundo longa da cineasta, acompanhando os dilemas de uma dupla, Luc e Geert, cujo enorme sucesso está para desabar. Luc é o expert tecnológico; Geert, o marqueteiro esperto. Juntos fizeram fortuna e enriqueceram muita gente com as ações de uma empresa cujo projeto é uma tecnologia transformando sons em escrita. Acontece que a dupla baseou seu crescimento num verdadeiro esquema de pirãmide, criando empresas fantasmas sem lastro, o que foi descoberto por um jornalista, que publicará uma grande matéria denunciando tudo no dia seguinte.

Luc e Geert, portanto, têm 24 h para destruir arquivos, papéis e eventuais provas antes que a polícia venha prendê-los. São dois personagens que não despertam qualquer simpatia, até pelo imenso dano que causarão à própria comunidade, que comprou as ações e está perto de enfrentar a ruína.

Se há alguma substância neste roteiro, e há, é verdade também que se trata de um filme um tanto frio. Em matéria de crítica ao capitalismo, o sul-coreano Park Chan-wook foi bem melhor em seu recente e marcante A Única Saída.