Mostra de São Paulo abre sua 50 ª edição com o cinema clássico de James Gray
- Por Neusa Barbosa
- 13/10/2026
- Tempo de leitura 3 minutos
A Mostra de São Paulo abre nesta quarta (14) sua 50ª edição com a première brasileira de Tigre de Papel (foto ao lado e abaixo), novo filme do diretor norte-americano James Gray, que competiu à Palma de Ouro no mais recente Festival de Cannes. Gray, aliás, é um dos convidados de honra da Mostra, assinando as artes e o cartaz do aniversário que marca o meio século do festival mais característico da capital paulista. O longa é precedido do curta Sul de Teerã, de Kleber Mendonça Filho, que nele retrata um encontro com o iraniano Jafar Panahi, este, aliás, um convidado especial da Mostra no ano passado.
Pela sexta vez concorrente em Cannes, James Gray apresentou em Tigre de Papel mais um relato centrado na irmandade, tema comum em sua obra. Ambientado no Queens, em Nova York, em 1986, o foco está na relação entre dois irmãos, Irwin (Miles Teller) e Gary Pearl (Adam Driver).
A interdependência emocional entre estes dois homens muito diferentes - Irwin, mais família e contido, Gary, mais ousado - sofre um abalo quando Gary se aproxima de mafiosos russos, que começam a atuar na região de um canal poluído, no Brooklyn. Irwin, convencido pelo irmão de que poderia prestar serviços técnicos a uma empreitada no lugar, acaba ameaçado, junto com os filhos, lançando sua família numa espiral de medo.
Gray é eficiente na condução deste clima, aclarando aos poucos as suspeitas quanto à atuação de Gary neste submundo. Ex-policial que agora vive da prestação de serviços de segurança, vale-se dos contatos que ainda mantém na polícia - o que sem dúvida é um atrativo para os criminosos russos.
Fica mais interessante olhar o filme como o retrato de um patriarcado falido, em que a única mulher, Hester (Scarlett Johansson), mulher de Irwin, só consegue ser ouvida quando perde o controle - e seu maior drama íntimo permanece invisível para os homens que a cercam, o próprio marido e os dois filhos adolescentes. Ela chama para si esse papel altruísta, de proteger os homens de sua família, em silêncio, nos bastidores, lançando-se numa jornada de auto-sacrifício.
Mas o que Gray realmente procura aqui é expor as contradições da fraternidade, que está no centro de tantos de seus outros filmes, como Fuga para Odessa (1994) e Os Donos da Noite (2007) - ambos, parte de uma retrospectiva do diretor na Mostra. Essa lealdade intrínseca entre parentes ou amigos pode levar ao desastre, à aniquilação ou à esperança num futuro em que talvez não haja mais do que isso com que contar para a própria sobrevivência. Ou seja, Gray repete sua temática, embora o faça de maneira competente. Dele não se espera algo novo, mas nunca lhe falta coerência com sua própria trajetória e isso ele mantém com a habitual sobriedade.
Além da apresentação de abertura, Tigre de Papel terá mais outras três sessões, nos dias 15 (no Solar Fábio Prado, 19h, quando será seguida de uma conversa entre Gray e o diretor brasileiro Walter Salles); 16 e 27 de outubro (confira locais e horários). Além deste título, a Mostra exibe outras cinco obras do diretor: os citados Fuga para Odessa e Os Donos da Noite, além de Armageddon Time (foto acima) (2022), Caminho sem Volta (2000) e Era uma Vez em Nova York (2013). Confira horários e locais na programação no site da Mostra.
A programação normal da Mostra começa nesta quinta (15) e prossegue até dia 29. Confira diariamente nossas dicas no Cineweb e nas nossas redes.
