05/06/2026

Irmãos Taviani conquistam o Urso de Ouro em Berlim

O júri presidido pelo cineasta Mike Leigh elegeu o filme italiano Caesar must die como o grande vencedor do 62° Festival de Berlim. O Urso de Ouro concedido aos irmãos Taviani foi mais do que merecido, não apenas pela originalidade do projeto em si, retratar a transposição
da obra de Shakeaspere para o cinema, contando com um elenco formado por detentos da prisão de segurança máxima de Rebibbia. O filme sustenta um equilíbrio surpreendente na maneira como o contexto de vida dos prisioneiros se confunde com o dos personagens da peça encenada. Há uma grandeza no olhar dos cineastas, não se apelando para os aspectos maniqueístas que fazem parte da visão externa sobre o mundo carcerário. Muito pelo contrário, há sempre uma lucidez sensível a permear o filme.


O grande prêmio do júri foi para um filme que também possui ramificações na realidade sócio-econômica europeia. Trata-se de Just the wind, do húngaro Bence Fliegauf, que aborda a segregação da qual os romenos são vítimas.

O Urso de Prata de melhor atriz concedido a Rachel Mwanza, que realmente domina o filme Rebelle, de Kim Nguyen, mostrou a sintonia do júri ao premiar uma jovem atriz cujos paralelos com seu personagem fazem parte da sua trajetória de vida. Abandonada pelos pais juntamente com seus cinco irmãos/irmãs, Rachel teve uma infância e uma adolescência permeadas pela precariedade de seu país e pela ausência de elos afetivos. Como ela mesma mencionou na coletiva a seguir à exibição do filme para os jornalistas, «
é um milagre que tenham me escolhido para o meu primeiro filme
».

Já a escolha de Mikkel Boe Følsgaard como vencedor do Urso de Prata de melhor ator pelo papel do rei Christian VII no filme dinamarquês A royal affair mostra como o intérprete soube impor-se num filme que contava com outro personagem masculino de peso, o Dr. Johann Friedrich Struensee, vivido por Mads Mikkelsen. O filme ainda levou o Urso de Prata de melhor roteiro.

Os alemães, presentes na competição com nada menos do que três filmes, levaram o prêmio de melhor diretor, dado a Christian Petzold, por Barbara.

Um dos grandes favoritos dos jornalistas que acabou indo embora de Berlim sem nenhum dos prêmios principais foi o filme português Tabu, realizado em coprodução com o Brasil
De um primor visual elevado e tendo ao seu favor um roteiro original e sofisticado, o filme de Miguel Gomes (de Aquele querido mês de agosto) voltou para casa com o prêmio Alfred Bauer, dedicado a filmes que apresentem uma inovação particular, bem como o FIPRESCI, prêmio concedido pela imprensa cinematográfica internacional. Ainda vai-se falar muito deste filme ao longo dos festivais ao longo do ano.

Mais sorte teve o curta-metragem português Rafa, do diretor João Salaviza, que levou o Urso de Ouro na categoria. Em 2009, João Salaviza já havia arrebatado a Palma de Ouro de melhor documentário em Cannes, pelo filme Arena, onde um dos protagonistas é o ator Carloto Cotta, que também é um dos atores principais de Tabu. Em seu discurso de agradecimento, João criticou o circuito de distribuição de filmes em Portugal, que ignora o interesse despertado por filmes portugueses em festivais mundo afora, caso do filme de Miguel Gomes.