15/09/2026

Infanto-juvenil "Corda Bamba..." surpreende no Cine PE

Recife - Causou uma certa estranheza, pela raridade, a presença de um concorrente infanto-juvenil entre os longas da competição do Cine PE, a produção carioca Corda Bamba – História de uma menina equilibrista, do estreante em longas Eduardo Goldenstein. Mas o filme, que adapta livro de Lygia Bojunga, surpreendeu positivamente pela qualidade técnica de sua dramaturgia e de uma direção da arte que revela influências cinematográficas sofisticadas, que vão de Fellini a Bergman, passando por O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro.
Corda Bamba... já seria, de antemão, um bicho raro no cinema brasileiro, que geralmente despreza o segmento infanto-juvenil, quando não o banaliza em produções esquemático-sentimentais. Nada disso acontece no filme de Goldenstein, a partir da escolha de uma história que coloca em primeiro plano o rito de passagem de uma menina (Beatriz Goldenstein) para elaborar o luto da perda dos pais (Georgiana Góis e Gustavo Falcão). Um dos pontos altos, aliás, está num forte elenco, formado também por Cláudio Mendes (como uma impagável mulher barbada de circo), Augusto Madeira (visto em Xingu), Stela Freitas e uma participação especialíssima de Silvia Aderne, uma atriz veterana que vive há anos em Las Vegas, como integrante do Cirque Du Soleil.
Na coletiva do filme, o diretor admitiu a ambição de contribuir para a formação de platéias do nicho infanto-juvenil, uma platéia que acredita “que precisa e deve ser respeitada”. No entanto, ele entende que Corda Bamba... pode ser um filme para todos os públicos – um sonho de todos os diretores e produtores.
Temas gays
Não pareceu apropriada, no entanto, a programação de dois curtas, que sempre são apresentados antes do longa da noite – que era infantil -, com temáticas adultas, no caso, Garotas da Moda, de Tuca Siqueira (PE), que apresenta um grupo de travestis e artistas de uma pequena cidade da Zona da Mata pernambucana; e Na sua Companhia, de Marcelo Caetano (SP), diretor do premiado Bailão, que representa algumas cenas num clube gay.
Embora haja recomendação de censura 18 anos para as sessões do festival, havia várias crianças na sala e alguns pais sentiram-se incomodados com os filmes – que não devem, certamente, receber nenhuma espécie de restrição, apenas poderiam ter sido programados em qualquer outra noite do Cine PE. Alguns espectadores retiraram-se da sala, especialmente durante a exibição do curta paulista.
O único curta que parecia à vontade na noite infanto-juvenil era o já muito premiado L, de Thais Fujinaga (SP), que aborda as desventuras de uma garotinha que tem problemas para aceitar o próprio corpinho alto e magro, o que a torna alvo de gozações e apelidos. A chegada de um menino descendente de chineses, que sofre o mesmo tipo de discriminação, cria uma aliança afetiva entre os dois.
Hoje é o último dia da competição do festival, com a exibição dos três últimos curtas, a reexibição do paulista Boca, de Flávio Frederico (que teve sessão interrompida por troca de rolos no domingo), além dos dois últimos longas em concurso, os pernambucanos Na Quadrada das Águas Perdidas, de Wagner Miranda e Marcos Carvalho, e Estradeiros, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira.