21/07/2026

Cine PE consagra Jorge Mautner

Na terceira noite da competição do Cine PE, só deu Jorge Mautner. O cantor e compositor carioca, presente em Recife, assistiu a um curta – o concorrente pernambucano Maracatu Atômico – Kaosnavial, de Marcelo Pedroso e Afonso Oliveira – e a um longa, o concorrente carioca Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, que o tinham como personagem. No caso do segundo filme, já exibido no Festival É Tudo Verdade, em março, como protagonista


Mautner não participou, no entanto, dos debates dos filmes nesta manhã de domingo, assim como os diretores do curta Maracatu Atômico - Kaosnavial. Coube aos diretores do longa falar sobre a produção do filme, realizado em quatro dias, incluindo 36 músicas, em estúdio, em condições nem sempre vistas em documentários musicais, ou seja, com direito a estúdio, luz controlada, direção de arte nos cenários e um extremo cuidado sonoro. A produção é do Canal Brasil e ainda não se sabe se o filme chegará aos cinemas, por não ter sido fechado ainda um acordo de distribuição.

Figura extremamente pública como apresentador do BBB, Bial não se furtou a comentar essa função, relacionando-a com sua volta ao cinema – o diretor tem no currículo outro documentário, Os Nomes do Rosa, e a ficção Outras Estórias (99), ambos girando no universo do escritor mineiro Guimarães Rosa.

“De certa maneira, virei, sim, o Sr. BBB, mas nunca deixei de ver cinema nem de amar o cinema. Aí veio a oportunidade de fazer este filme. Adoraria fazer um filme por ano, mas não tenho o menor problema em ser o Sr. BBB”, afirmou. Segundo Bial, o programa lhe permitiu “falar com pessoas com quem nunca tinha falado. Essa classe C que tanto falam que ascendeu, eles não são ‘eles’, somos ‘nós’”.

Outra oportunidade que este trabalho na TV lhe deu foi também a possibilidade de “não me levar a sério em cena aberta, de zoar da minha própria persona pública”.

Imagens raras

Contando com sólido apoio técnico, como a pesquisa de imagens – a cargo de Carla Siqueira -, os diretores do documentário puderam usar imagens raras ou mesmo inéditas. No primeiro caso, trechos do filme Why we fight?, de Frank Capra, no segundo, de Carnaval na Lama, filme nunca montado de Rogério Sganzerla, segundo Bial, “uma das maiores referências do cinema brasileiro, nunca antes utilizadas num filme”.

Também se assistem trechos do único filme dirigido pelo próprio Mautner, O Demiurgo (72), que o Canal Brasil telecinou para 35 mm. Entretanto, segundo a produtora Teresa Alvarez, não existem ainda condições para sua exibição, por problemas por enquanto insanáveis no som.

Músico de formação, o codiretor Heitor D’Alincourt tinha tocado com Mautner, o que auxiliou na escolha das músicas. O compositor, segundo os diretores, deu toda a liberdade para que eles mesmos fizessem esta escolha. Rindo, Bial contou que ele só se recusou a cantar uma música, Kilawea.

A montagem final (93 minutos) foi atingida em mais ou menos um ano, desde o fim de 2010 até o segundo semestre de 2011, com direito a três cortes e “tempos de depuração”entre cada um deles, de acordo com Bial.

A mais famosa sequência do filme, uma conversa franca entre o compositor e a filha, Amora Mautner, que Bial considera como ”um filme dentro do filme”, recebeu cortes, retirando um princípio de briga entre os dois, que os diretores consideraram desnecessário. “O pudor existe e tem uma razão de existir”, defende Bial.

Para o diretor, não se procurou com o documentário “fazer uma crônica de sexo, drogas e rock’n roll. Nos interessava o que era único e peculiar no Mautner”.
D’Alincourt completa: “Quem conhecia direito todas as músicas do Mautner?’”. Para eles, o filme tem a intenção de apresentá-lo por inteiro.

Ferrnando Meirelles

Homenageado da noite, o diretor de Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio sobre a Cegueira, brincou com a própria ocasião. "Geralmente quando a gente recebe homenagens, estão nos colocando na prateleira.Quero avisar que ainda tenho muitos projetos que quero fazer", brincou.

Também foi apresentado um trecho do documentário Cidade de Deus - 10 anos depois, que está sendo finalizado, dos diretores Luciano Vidigal e Cavi Borges. O filme trata do destino de 30 atores de Cidade de Deus, dez anos depois de seu lançamento, com impacto mundial e 4 indicações ao Oscar. Este documentário deverá ser apresentado no Festival do Rio, em setembro, e não tem participação de Meirelles. "Senão, seria chapa branca", comentou o diretor.

Perdidos na tradução

Na terceira noite, foi apresentado ainda um curta do gaúcho Jorge Furtado, Até à vista, que fez parte de um projeto de encomenda a oito diretores latino-americanos, produzido pelo canal TNT. Filmado entre a Argentina e o Brasil, conta o divertido encontro entre um jovem cineasta (Felipe de Paulo) e um velho escritor argentino (Salo Pasik), que exige, para ceder os direitos de filmagem de um livro, uma viagem a Belém do Pará, onde quer reencontrar uma paixão (Dira Paes).

Outro curta da noite foi a produção alagoana Km 58, do estreante Rafael Barbosa, que cria uma atmosfera policial e despojada, praticamente sem diálogos, para acompanhar a trajetória de um homem dentro de uma noite.