Competição decepciona mas chileno "No" anima na Quinzena dos Realizadores
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 18/05/2012
- Tempo de leitura 4 minutos
Cannes - No terceiro dia do festival, um sinal de alerta se acendeu: a competição deste ano não será tão boa quanto a de 2011. A luz amarela acendeu no primeiro dia, com a exibição de um filme dramaturgicamente muito precário, embora focalizado em tema político quente – o egípcio Baad el Mawkeaa, de Yousry Nasrallah. A impressão se consolidou com o decepcionante concorrente austríaco Paradise: Love (foto ao lado) de Ulrich Seidl.
Diretor do contundente mas muito qualificado Dias de Cão (2001), Seidl filmou um relato sobre mulheres maduras austríacas que procuram diversão e sexo com jovens africanos no Quênia – num resort visualmente muito criativo e cujo conceito constitui o melhor da produção.
O problema é que, em Paradise: Love, Seidl errou muito a mão, num roteiro em que ele divide a autoria com Verônica Franz. O filme é reiterativo e extremamente cruel com todos os personagens, tanto os europeus, quanto os africanos. A mão pesada do diretor pôs a perder uma história que, bem conduzida, poderia constituir uma parábola ácida sobre as novas formas do racismo e do colonialismo. Mas perdeu a chance.
Exorcizando Pinochet
Realização muitíssimo superior pode ser vista em No (foto ao lado), quarto filme do chileno Pablo Larraín, exibido na programação da Quinzena dos Realizadores. Exorcizando novamente a herança maldita da ditadura de Augusto Pinochet, como fez em trabalhos anteriores como Tony Manero e o inédito no Brasil Post Mortem, Larraín escalou o mexicano Gael García Bernal para estrelar uma ficção que reconstitui o histórico plebiscito de 1988, em que o ditador pretendia conseguir um aval popular para sua continuidade no poder depois de 15 anos do golpe, mas acabou derrotado, abrindo caminho à redemocratização.
Gael interpreta René Saavedra, um publicitário, filho de um exilado, que cresceu longe do país, e foi convidado pela esquerda para orientar a campanha do “não” a Pinochet. Habilmente, o roteiro de Pedro Peirano desenvolve as diversas posições em jogo, mesmo dentro de uma esquerda extremamente dividida, mas que acaba cedendo aos apelos de René no sentido de dar uma roupagem mais otimista à campanha, deixando em segundo plano os slogans políticos e a cobrança pelos mortos e desaparecidos, o que obviamente gera polêmica – mas é decisivo para a derrota de Pinochet.
Em conversa com o público após a sessão no Théâtre Croisette, dentro do Hotel Marriott, o diretor explicou
a fotografia do filme, que foi feito inteiramente em U-Matic, para reproduzir a estética dos anos 80. “Não queria que se pudesse distinguir entre o material filmado e o material original da época. Queria uma estética coerente com a caligrafia visual daquele período”. Parraín usa muitos trechos da campanha televisiva real no filme e realmente obteve seu objetivo, no sentido da uniformidade de cores e textura.
a fotografia do filme, que foi feito inteiramente em U-Matic, para reproduzir a estética dos anos 80. “Não queria que se pudesse distinguir entre o material filmado e o material original da época. Queria uma estética coerente com a caligrafia visual daquele período”. Parraín usa muitos trechos da campanha televisiva real no filme e realmente obteve seu objetivo, no sentido da uniformidade de cores e textura.
Outra razão para este visual, segundo o diretor, é que ele não via como reconstituir aqueles fatos usando alta definição, por exemplo. “Minha infância foi marcada por imagens desse imaginário sujo. Era preciso manter aquela obscuridade, aquela impureza”.
O roteiro partiu de uma peça inédita do autor Antonio Skármeta, El Plebiscito, mas muita pesquisa com as pessoas que viveram realmente aqueles fatos complementou a história. “Entrevistamos todos os envolvidos. Na verdade, cada personagem representa uma série de pessoas, não uma única”, explicou o roteirista.
Poluição na Turquia
Fora da competição, em sessão especial, o turco-alemão Fatik Akin voltou ao documentário, desta vez abordando um sério problema ambiental na terra natal de seus avós paternos, Çamburnu, no nordeste da Turquia, no filme Polluting Paradise.
Há cinco anos Akin filma uma impressionante sucessão de desastres que se abatem sobre uma aldeia rural, num lugar paradisíaco, banhado pelo Mar Negro, depois da instalação de um lixão. A luta dos moradores contra o descaso das autoridades estaduais é o centro do filme, que se arrasta, porém, sem alcançar a mesma excelência de outros trabalhos do diretor, como Atravessando a Ponte: O Som de Istambul. Valeu pela denúncia, no entanto.
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