21/09/2026

"Lawless" empolga, mas ainda sem cheiro de Palma de Ouro

Cannes – A competição pela Palma de Ouro em 2012 anda tão caprichosa e imprevisível quanto o clima. Hoje, sábado (19), ele passeou por todas as estações, inclusive a real, a primavera. Fez sol, ventou, choveu, fez frio e ninguém sabe ainda como a noite vai terminar.
O mesmo acontece com os filmes. O sábado começou mais promissor do que a sexta, com o concorrente norte-americano Lawless (foto ao lado), dirigido pelo australiano John Hillcoat (A Estrada). Baseado em fatos reais, a partir do relato de Matt Bondurant e roteiro, quem diria, do roqueiro Nick Cave (que evidentemente assina a trilha também), Hillcoat encenou um drama violento e amoral, ambientado nos EUA da Depressão e da Lei Seca dos anos 30, focalizando um clã valente e impiedoso de fabricantes ilegais de bebidas, os irmãos Bondurant.

Os protagonistas são vividos por uma trinca altamente carismática, o caçula Jack (Shia LaBeouf), o mais velho, Forrest (Tom Hardy), e o do meio, Howard (Jason Clarke). Os dois mais velhos são os durões, o caçula é só o motorista das operações de entrega de bebidas. Isto no começo, porque caçula nenhum que se preza entra num filme só para ser coadjuvante – ainda mais Shia LaBeouf.
Hillcoat carrega a história com ritmo e adrenalina, entregando a dose esperada de violência – afinal, trata-se de um confronto sem tréguas entre os irmãos de Franklin, Virgínia, e policiais corruptos, o pior deles, o agente especial Charley Rakes (Guy Pearce) - o maior vilão à vista, mesmo havendo no elenco o gângster Floyd Banner (Gary Oldman).

Embora seja um universo tipicamente masculino, as mulheres a bordo assinalam sua marca – especialmente Maggie (Jessica Chastain), como uma ex-dançarina de Chicago que entra na vida do clã Bondurant, e a doce Bertha (Mia Wasikowska), a filha do pastor que é a paixão de Jack.
O trabalho de Hillcoat é muito bom, mas a pergunta é – tem cara de Palma de Ouro? Ainda não.Nenhum filme até agora exibido teve. Nem outros concorrentes já apresentados, como o italiano Reality, de Matteo Garrone (Gomorra) e o romeno Beyond the Hills (Dupã Dealuri/ Au-delá des collines) (foto abaixo), de Cristian Mungiu, que já tem uma Palma em casa pelo contundente relato sobre um aborto de Quatro Semanas, Três Meses e Dois Dias.

Fanatismo religioso
O drama romeno mergulha no universo fechado de um mosteiro ortodoxo no interior da Romênia atual. Pelo modo de vida das freiras e do padre que o habitam, pode-se pensar que o tempo da história é a Idade Média. Em termos de isolamento e valores, esta é a sensação.
Ali vive uma jovem freira, Voichita (a estreante Cosmina Stratan). Órfã, ela cresceu num orfanato, onde se tornou a melhor amiga de Alina (Cristina Flutur). Entre as duas, floresceu a única forma de amor que ambas conheceram. Depois, Alina emigrou para a Alemanha. Voichita entrou para o mosteiro.
Alina volta, disposta a levar Voichita consigo. Mas a religião entranhou-se completamente em sua psique, de uma forma que a amiga não consegue romper. Uma série de conflitos eclodem, levando o padre e interpretar o comportamento de Alina como de alguém possuído pelo demônio. Segue-se uma espiral de loucura, a partir de um ritual de exorcismo.
Sempre muito rigoroso na carpintaria de suas histórias e na composição de seus planos, Mungiu elaborou um relato consistente, disso não resta dúvida. O retrato que ele pinta é de um mosteiro onde não só Freud e Jung jamais passaram, como nem mesmo Deus parece habitar mais. O fanatismo está cercado por uma sociedade pós-comunista em que, apesar da localização temporal no século XXI, parece presa numa armadilha de apatia diante de instituições completamente incompetentes para acudir seus cidadãos, sejam os hospitais, a polícia ou a própria família.
Apesar desta personalidade que Beyond the Hills inegavelmente atinge, resta o sentimento de que o filme é longo demais. Mungiu parece às vezes ter-se apegado ao próprio formalismo, aos seus planos austeros e belos, e não ter sentido que uma duração menor evitaria algumas redundâncias que enfraquecem a própria dramaticidade da situação – que, inacreditávelmente, baseia-se em fatos reais ocorridos na Romênia em 2005, descritos em livros da jornalista Tatiana Niculescu Bran.

Reality show
Reality (foto ao lado), o novo trabalho de Matteo Garrone, acerta em cheio no tema, ao criar uma ficção em torno do sonho de celebridade desencadeado pelos reality shows – uma praga mundial, na Itália chamado de Grande Fratello (Grande Irmão).
O roteiro, a partir de ideia original de Garrone e Massimo Gaudioso, desenvolve o drama de Luciano (Aniello Arena), peixeiro napolitano, casado, pai de três filhos que enlouquece pouco a pouco pela obsessão de ser escolhido para integrar o programa. Ele fez um teste e vive na esperança de ser chamado. Enquanto isso, desarticula toda a sua rotina, sua vida familiar, seu trabalho, hipnotizado pela esperança vã.
Há muitos acertos na história, a escolha do protagonista um dos maiores. Arena, um presidiário que começou sua carreira dentro da prisão de Volterra, é vigoroso, carismático, comovente. Mas isto não basta para segurar o ritmo do filme que, apesar da nítida e assumida homenagem à tradição da comédia italiana, de Vittorio De Sica a Fellini, perde força ao longo do caminho, por deficiência de roteiro, especialmente.