19/09/2026

Haneke e Vinterberg aumentam contundência em Cannes

Cannes – A competição pela Palma de Ouro esquentou na chegada à metade da corrida, ganhando contundência com Jagten (The Hunt) (fotos ao lado e abaixo), do dinamarquês Thomas Vinterberg, e Amour, do austríaco Michael Haneke.
Trata-se de dois dramas consistentes, com roteiros sem sobras, perfurando paulatinamente as camadas de sua dramaturgia, amparados em sólidos atores. Qualquer um dos dois pode aspirar a prêmios importantes por aqui. Jagten está mais para roteiro e ator (Mads Mikkelsen). Amour teria munição para ser cogitado como segunda Palma para Haneke, que já venceu com A Fita Branca.
E não há dupla de atores mais respeitável do que os veteranos Emmanuele Riva (a inesquecível musa de Hiroshima Mon Amour), de 85 anos, e Jean-Louis Trintignant, de 81, que aqui lembra o seu melhor, lembrando o juiz de A Fraternidade é Vermelha (94), de Krysztof Kieslowski. Desta vez, Isabelle Huppert, musa do diretor austríaco, entra como coadjuvante – ela é Eva, a filha do casal.

Jagten evoca com muito eixo moral uma história tristemente famosa no Brasil, o caso da escola de Base. O título – em português, A Caça – é perfeito, já que o roteiro, de Vinterberg e Tobias Lindholm, desenvolve a caça a um professor de maternal, Lucas (Mads Mikkelsen) que se torna suspeito de abuso sexual contra uma garotinha, Klara (Annika Wedderkopp).
A base da acusação é incerta, a partir de um comentário da menina. O filme mostra como a investigação escolar vai no sentido de induzir a menina, muito pequena, a afirmar coisas. Segue-se a histeria de seus pais, dos outros pais da escola, tornando um inferno a vida de um pai de família conhecido na comunidade.
O diretor do cult Festa de Família (Prêmio do Júri em Cannes 1998) sustenta muito bem esta atmosfera de mal-estar, contaminando sentimentos, valores, relações, rumo a um abismo profundo em que a racionalidade cada vez encontra menos oxigênio para respirar. Todos, menos um, dos amigos de Lucas mostram-se incapazes de ouvi-lo. E fica evidente que mesmo sociedades em tese modernas como a dinamarquesa ainda não encontraram meios de lidar com a pedofilia, que certamente não é nenhuma ilusão.

A dignidade da velhice
Não haveria dupla de atores veteranos mais qualificada do que Emmanuele Riva e Jean-Louis Trintignant para encarnar o casal que está no centro de Amour. É uma história de profundo amor, certamente. Mas Haneke (foto ao lado com atores e abaixo cena do filme), que assina o roteiro, não está neste mundo para fazer romances adocicados. Do que ele realmente quer tratar aqui é da dignidade da velhice e do direito de escolher a própria morte quando a saúde e a sanidade se esgotam.
Amour não é, certamente, um filme fácil de assistir a qualquer momento, especialmente às 8h30 desta manhã de domingo (20), horário da primeira sessão de imprensa da programação. Mas, como sempre nas investidas do diretor austríaco, o mergulho em suas histórias costuma recompensar inteligências e sensibilidades adultas.
Não se trata, é certo, de um filme sentimental. Emmanuele Riva contou na coletiva deste início de tarde, aliás, que foi essa a diretriz que lhe deu o diretor para interpretar Anne, uma ex-professora de piano que começa a sofrer degeneração física e mental e passa a depender inteiramente do marido, Georges (Trintignant) para as mínimas coisas, como levantar da cama e tomar banho.

Há muito afastado do cinema (seu último filme como ator é de 2003, Janis and John) e dedicado ao teatro, Trintignant declarou-se convencido por Haneke a voltar a atuar na tela. Disse que gosta mais do trabalho no teatro porque “não pode se ver”. Desta vez, disse que gostou do que viu ao assistir Amour, pedindo desculpas se parecia pretensioso. Só alguém muito idiota pensaria isso. Ator de Ettore Scola, Dino Risi, Kieslowski e todos os maiores de sua geração, Trintignant domina o filme simplesmente de modo magnífico, natural, doloroso, porque esta é a essência de seu papel. Ele confessou na coletiva que não foi nada fácil interpretar Georges. Depois do trabalho, ele ficou esgotado.
De todo modo, Amour dificulta o trabalho do júri presidido por Nanni Moretti, acrescentando mais um ator, Trintignant, como forte candidato ao prêmio de interpretação masculina, numa edição em que há vários, inclusive Mads Mikkelsen. E Emmanuele Riva, finalmente, constitui uma outra forte candidata ao prêmio feminino – a outra sendo a inefável Marion Cotillard de De Rouillet et D’Os, de Jacques Audiard. Duas francesas de gerações diferentes, de muito respeito. Mas, a esta altura, eu diria que Madame Riva é favorita, até por sua história.