26/09/2026

Filmes em Cannes colocam a ética na ordem do dia

Cannes – Éticas opostas nutrem The Angel’s Share (foto ao lado), do inglês Ken Loach, e Elefante Blanco, do argentino Pablo Trapero, de um lado, e Killing me Softly, do neozelandês Andrew Dominik, de outro. Nos dois primeiros, Loach, concorrendo novamente à Palma de Ouro, Trapero, na seção Um Certo Olhar, investem na construção de uma moral no sentido amplo e na possibilidade de escapar ao niilismo e à criminalidade, que é mais bem-sucedida por opção explícita em The Angel’s Share – que constitui um contraponto ao amargo Sweet Sixteen, em que há 10 anos exatos o diretor britânico visitou Glasgow, dentro de um espectro igualmente, como aqui, de desemprego e criminalidade juvenil generalizada.
Também é este o contexto de Elefante Blanco, que o diretor Trapero (Leonera, Abutres) povoa de jovens de vidas dilaceradas pelo crack, numa favela de Buenos Aires, em que militam padres imbuídos de consciência social, vividos pelo argentino Ricardo Darín e pelo belga Jérémie Renier – cuja simples presença ergue uma ponte entre o cinema de Trapero e o dos irmãos Dardenne, que revelaram Renier em filmes fundamentalmente humanistas, como A Criança. Também há muitos pontos de contato com a realidade brasileira.
Já em Killing me Softly (fotos ao lado e abaixo), outra produção norte-americana à Palma, o recado niilista é claro – o personagem do matador de aluguel vivido por Brad Pitt afirma, no final, que a América “não é um país, é um negócio”, desprezando as esperanças que se acendem em torno da iminente eleição de Barack Obama, em cuja campanha se ambienta este relato sobre acertos de contas entre criminosos num contexto violento e amoral.
Novamente associado a Brad Pitt – como em seu marcante filme anterior, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007) -, o diretor neozelandês prossegue em sua crônica de uma espécie de espírito gângster da América, demolindo heróis como o pai da pátria, Thomas Jefferson, que teria conduzido a independência apenas para deixar de pagar impostos aos colonizadores ingleses, indo para casa beber vinho e explorar seus escravos depois. O roteiro, do próprio Dominik, baseia-se no livro Cogan’s Trade, de George V. Higgins.
A campanha eleitoral, opondo o republicano John McCain e o democrata Obama, infiltra-se a todo momento através de transmissões de TV, enquanto bandidos de todos os escalões discutem seus negócios e se matam uns aos outros, evidenciando o paralelo da história com a criminalização da política e do mercado financeiro, que gerou a crise mundial de 2008.
Intermediário na contratação de assassinos de aluguel para vingar um assalto a uma rede de jogos ilegais, o enigmático motorista sem nome, vivido por Richard Jenkins, diz a Jackie (Pitt) que ele “nem imagina” quem são seus chefes, insinuando, para bons entendedores, que as pegadas chegam até Wall Street e ao coração do poder, financeiro ou político.
Nem a visão humanista e até otimista de Loach, nem a denúncia social de Trapero – cujo roteiro evoca o assassinato do padre Carlos Mugica, nos anos 70 – nem o pessimismo atroz de Dominik se excluem – fazem apenas pensar em todas as posturas opostas que disputam o mundo. E são trabalhos bem interessantes, apesar de algum esteticismo de Dominik, que às vezes enfraquece a proposta do próprio filme, que tem no elenco Ray Liotta, Sam Shepard, James Gandolfini, Ben Mendelsohn e Scoot McNairy.
Hora dos mestres parte II
A programação da terça (22) novamente abriu espaço para exibição do trabalho de mestres como o francês Raymond Depardon e o italiano Bernardo Bertolucci, fora de competição.
Fotógrafo ligado às agências Gamma e Magnum e documentarista premiado, Depardon, 70 anos, apresentou seu novo trabalho, Journal de France (na foto ao lado, o diretor faz um autoretrato), dividindo a direção com sua companheira e responsável pelo som de seus filmes, Claudine Nougaret. No trabalho, Claudine remexe o baú de Depardon, apresentando imagens pouco vistas, ou mesmo inéditas, de inúmeros casos que marcaram sua invejável carreira jornalística – como suas imagens da Tchecoslováquia um ano depois de invadida pelos tanques soviéticos em 1969, da etnóloga francesa Françoise Claustre, sequestrada no Chade, cuja história esteve no centro de uma disputa com o governo do presidente francês Valéry Giscard D’Estaing, o que custou inclusive a prisão de Depardon.
É um documentário intimista, como um álbum de fotografias que se abre diante do público, revelando não só instantâneos do passado como também as viagens que o documentarista faz até hoje, errante pelas estradas da França, atrás de retratos, feitos com uma antiga máquina de tripé. Dessas viagens, saíram por exemplo os vários Profils Paysans (Perfis Camponeses) que o diretor realizou nos últimos anos.
Drama adolescente
Afastado do cinema desde 2003, quando realizou Os Sonhadores, por conta de sérios problemas de saúde – que lhe custaram ficar paraplégico -, Bertolucci voltou, finalmente, a filmar, entregando em Io e Te (foto ao lado) um drama adolescente bem contemporâneo, adaptando romance de Niccolò Ammaniti.
É um retorno cauteloso, em que se sente que Bertolucci procura um diálogo com o público – o que não é pecado. Ele certamente continua afinado para revelar as pulsões juvenis, aqui confrontando dois meio-irmãos, Lorenzo (Jacopo Olmo Antinori) e Olivia (Tea Falco).
Os dois são filhos do mesmo pai, mas mal convivem, devido ao conflito irresolvível entre suas mães.
Os dois acabam convivendo estreitamente por alguns dias, quando Lorenzo se esconde no porão do próprio prédio, mentindo para a mãe ter ido numa excursão da escola, e recebe Olivia, que sofre de aguda dependência química e tenta afastar-se de seus problemas. Os dois jovens atores entram em sua pele com muita energia, servindo a uma história antenada em questões bem atuais. Se não é o melhor Bertolucci, certamente também não lhe desmerece a biografia, quem sabe até o apresenta a novas gerações. Ele promete filmar em breve de novo – é bom tê-lo de volta num momento em que a voz de Ettore Scola parece ter-se calado para sempre.