23/09/2026

Gramado encerra competição com a despedida de Walmor Chagas em "A Coleção Invisível"

Gramado – O 41º Festival encerrou nesta noite de sexta (16) a exibição de todos os seus concorrentes, fechando a competição nacional com o sensível drama A Coleção Invisível, de Bernard Attal (BA), que registra a última atuação do ator Walmor Chagas, morto aos 82 anos em janeiro último. Agora, Gramado vive a expectativa da premiação, que será anunciada neste sábado (17), na cerimônia que começa às 21 horas.

O filme baiano foi um bom fecho para uma edição marcada por um notável amadurecimento do festival, que chegou a perder um pouco seu rumo há alguns anos, mas vem resgatando o melhor de sua tradição de festival pioneiro, dos mais antigos do País e que resistiu à ditadura, unindo-a ao saudável acolhimento de novas ousadias – como selecionar obras de jovens diretores com propostas estéticas e narrativas singulares e de risco, caso do carioca Bruno Safadi
(concorrente com Éden, que abriga a mais forte interpretação feminina, Leandra Leal); Tatuagem, manifesto visual-sexual do roteirista, agora também diretor, o pernambucano Hilton Lacerda; e também do docemente sensível e fortemente existencial Os Amigos, em que a diretora paulista Lina Chamie demarca um território de maturidade narrativa, temática e cinematográfica.

Stefan Zweig
Foi num conto do austríaco Stefan Zweig que o francês radicado na Bahia Bernard Attal, ao lado dos corroteiristas Sérgio Machado e Iziane Mascarenhas, colheram a inspiração de A Coleção Invisível, uma história que celebra os meandros do não-dito para materializar um tema que está no ato de ver. O fato de Samir (Walmor Chagas) ser um fazendeiro cego, dono de uma coleção de gravuras cobiçada pelo arruinado Beto (Vladimir Brichta), é a contradição básica, mas não a única, deste conto humanista – que conta com uma primorosa atuação de Clarisse Abujamra, como a mulher do fazendeiro que se esmera em protegê-lo do mundo externo, uma atitude cuja razão só se revela no fim.

Colômbia
Veio da Colômbia o último concorrente da seção estrangeira, Cazando Luciérnagas, de Roberto Prieto Flores, uma história minimalista sobre um homem solitário, Manriques (Marlon Moreno), que vive isolado numa região de salinas abandonadas. A aparição de uma cadela e de uma filha para ele desconhecida, Valéria (Valentina Abril), sacodem sua rotina e ele tem que encarar as mudanças.

Curtas
Dois curtas encerraram uma seleção que, este ano, não foi memorável. Em compensação, na última noite competitiva, surgiu um dos melhores: o maranhense Acalanto, em que o diretor Arturo Saboia consegue reconstituir na tela toda a sutileza de um conto do escritor moçambicano Mia Couto – A Carta –, contando com a decisiva cumplicidade de dois grandes atores, Léa Garcia e Luiz Carlos Vasconcelos. No cenário belo e um tanto arrasado do centro histórico de São Luís, eles dão vida a uma amizade complexa, que se apoia num entendimento implícito, num jogo em que ele lê constantemente para ela, analfabeta, uma carta enviada por seu filho ausente, muitos anos atrás.

O último curta, Simulacrum Praecipiti, de Humberto Bassanelli (SP), por sua vez, causou polêmica por sua proposta de acompanhar um fotógrafo, Alessio Ortu, ao inferno habitado por
pessoas destruídas pelo vício da cracolândia paulistana.