Hilton Lacerda celebra o corpo e a liberdade sexual em "Tatuagem"
- Por Neusa Barbosa
- 12/08/2013
- Tempo de leitura 3 minutos
Gramado – Premiado roteirista de filmes-farois do celebrado cinema pernambucano – como Baile Perfumado e Amarelo Manga -, Hilton Lacerda delineou, em sua estreia como diretor, o concorrente Tatuagem, uma anárquica celebração do hedonismo em tempos obscuros, na declinante ditadura militar em 1978.
Centrando sua visão de liberdade numa trupe teatral alternativa, liderada por Clécio (o sempre luminoso Irandhir Santos), Lacerda não deixa de invocar homenagens a, por exemplo, os Dzi Croquetes e José Celso Martinez Corrêa, presentes no espírito dionisíaco dos artistas, que encenam um debochado cabaré, o Chão de Estrelas - que, aliás, se baseia evidentemente em experiências locais, como o Teatro Vivencial de Olinda. O título do filme - Tatuagem - é uma referência à música homônima de Chico Buarque de Holanda.
Ainda em vigência da censura, os atores encenam um espetáculo em que não faltam nudez e números sensuais, cheios de humor e provocação aos espíritos fardados, que ainda rugem. Para tecer um contraponto a essa ilha de desbunde, elege-se como segundo personagem principal um soldado, Arlindo, apelidado de “Fininha” (Jesuíta Barbosa), que injeta, periodicamente sinais desse mundo enrijecido ali fora, em que uma disciplina mecânica está ruindo aos poucos, para felicidade geral da nação.
O retrato da família de Arlindo, no interior pernambucano, reunindo a avó, a mãe e a irmã, tece igualmente um comentário sobre esse universo feminino marcante dentro da psique de todos, mas tão primitivo e despossuído, tão à margem, tão impregnado de uma religiosidade conformista e um moralismo sufocantes.
Clécio e Fininha vivem uma paixão, que vibra na tela em algumas belas sequências – como a da primeira sedução, em que os dois dançam. Mas não deixa de trazer outros elementos do mundo, como a família almodovariana formada por Clécio, sua ex-, Deusa (Sylvia Prado), com quem tem um filho e mantém um relacionamento constante, como pai.
Dialogando, como seria de esperar, com o cinema de Cláudio Assis, com quem compartilha um universo temático e uma origem regional, Hilton ainda não parece ter, neste seu primeiro longa, uma personalidade tão firmada, uma assinatura tão nítida, o que também é natural. Mas é bom observar com que força e entrega ele se inicia como cineasta.
Gardel uruguaio
O concorrente estrangeiro da noite foi o documentário uruguaio El Padre de Gardel, em que o diretor Ricardo Casas traça um perfil do coronel Carlos Escayola, fazendeiro e chefe político influente na região de Tacuarembó, no Uruguai, que seria o pai verdadeiro, mas nunca assumido, do mítico tangueiro Carlos Gardel – uma história cheia de escândalos e segredos até hoje mal-explicados. Uma curiosidade: atravessa a árvore genealógica da família Escayola também um brasileiro, o famoso general gaúcho Antônio de Souza Netto, inspirador do protagonista do filme Netto Perde sua Alma, de Tabajara Ruas e Beto Souza, vencedor de vários prêmios em Gramado 2001.
Dos três curtas da noite, andaram bem melhor os dois concorrentes paulistas, A Navalha do Avô, de Pedro Jorge – que registra uma sensível interpretação do crítico Jean-Claude Bernardet, como um avô de saúde declinante – e Arapuca, de Hélio Villela Nunes, um trabalho de fotografia em preto-e-branco muito expressivo (de Alexandre Samori), para dar vida ao duelo entre um velho amargo (Cacá Amaral) e um menino audacioso (João Guilherme de Ávila Correia).
O gaúcho O Matador de Bagé, de Felipe Lesbick – que venceu alguns prêmios ontem, na premiação da Mostra Gaúcha -, no entanto, dialoga fundo com a estética trash e derrapa num excesso que serve ao gosto de alguns mas nada tem de original em seu humor duvidoso.
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