26/09/2026

Primeiros concorrentes de Veneza têm personagens femininas fortes


Veneza – O segundo dia da competição em Veneza teve um indiscutível tom feminino, com a passagem do primeiro concorrente italiano Via Castellana Bandiera, da diretora estreante (mas vinda do teatro) Emma Dante, e também do australiano Tracks, de John Curran, em que a estrelinha Mia Wasikowa revive a aventura verídica de Robyn Davidson por nove meses pelo deserto australiano, em 1977, acompanhada de uma cadela e quatro camelos.

Se é verdade que os aplausos entusiásticos da primeira sessão de imprensa de Via Castellana Bandiera, nesta manhã de quinta (29), tiveram algum cunho patriótico, não se pode negar que o filme de Emma Dante, que também o protagoniza, tem seu valor. Filmado na terra natal da diretora, Palermo, e adaptando um livro da própria Emma, focaliza um incidente, ocorrido numa pequena rua, num bairro popular da cidade siciliana. Duas mulheres, a velha albanesa Samira (Elena Cotta), e uma mulher urbana, de volta à sua cidade, Rosa (Emma), obstinam-se em permanecer em seus carros, frente a frente, recusando-se a ceder passagem uma à outra.

Mínimo na aparência, o impasse sustenta um duelo quase sempre mudo entre as duas, em torno das quais uma série de pessoas – a namorada de Rosa, Clara (Alba Rohrwacher), os parentes e vizinhos de Samira – se mobilizam, para demovê-las, ou não, da permanência em suas posições. O genro de Samira, por exemplo, não quer por nada do mundo que ela saia dali – a outra é quem tem que recuar. E cria-se uma bolsa de apostas secreta, em que a maioria dos locais acredita na “vitória” de Samira, sobre quem o prólogo do filme deu algumas preciosas indicações.

Não faltou quem falasse, com algum exagero, de western, Sergio Leone e outras referências – que a diretora não negou na coletiva de imprensa. Mas, para ela, seu filme não é local, nem procura falar propriamente do sul da Itália, embora seja ambientado na Sicíia. “Para mim, este filme fala de um modo de ser, não é geográfico”.

Emma também destacou que sua opção por um casal homossexual, vivido por ela mesma e Alba Rohrwacher, no centro da história, não necessitou de qualquer forma especial para ser contada. “Queria que se tornasse uma história natural. São duas pessoas que se amam, nada mais do que isso”.


Camelos na Austrália
Muito desafio físico cercou o trabalho da atriz Mia Wasikowska (Alice no País das Maravilhas) para reviver em Tracks a aventura solitária de Robyn Davidson, jovem que, em 1977, obstinou-se numa caminhada de quase 3.000 km sob o sol escaldante do árido deserto do oeste australiano, acompanhada de não mais do que sua cadela e quatro camelos que ela mesma treinou. Sua jornada inspirou artigo publicado na revista National Geographic, que financiou a empreitada em troca do relato e fotos feitas seu fotógrafo (Adam Driver, no filme) e, depois, o livro homônimo que inspirou o roteiro.

Em que pese a simpatia que a história e Mia, uma das melhores atrizes de sua geração, são capazes de evocar – além dos animais, especialmente a esperta cadela que a acompanha -, trata-se de um filme um tanto plano e previsível para despertar maiores emoções. Se este festival reserva surpresas, elas ainda estão por acontecer. Bernardo Bertolucci, presidente do júri principal este ano, já adiantou, em coletiva, que espera por essas surpresas.