26/09/2026

Tsai Ming Liang pode desafiar favoritismo de Philomena com o pungente Stray Dogs

Veneza - O diretor malaio Tsai Ming Liang não decepcionou quem esperava dele um novo filme rigoroso, ousado e digno de competir num festival. Ele entregou tudo isso em Stray Dogs, um drama desdobrado numa série de magníficas sequências, alinhando diversos fotogramas dignos de permanecer fixos nas retinas e na memória.

Lee Kang Sheng, o ator-fetiche de outros signos da filmografia deste diretor, como O Rio (97), O Buraco (98) E Lá, Que Horas São? (2002) é, mais uma vez, o protagonista, interpretando mais com o próprio corpo e o rosto, com poucas palavras, um homem que sobrevive precariamente segurando placas de propaganda num farol, por horas, em Taipei. Ele nada tem de seu, apenas esse corpo maltratado por uma vida indigna, umas poucas roupas e seus dois filhos.

Trata-se de uma família partida – a mulher os abandonou. E é um dado intrigante que haja três mulheres ao longo da história (Yang Kuei Mei, Lu Yi Ching e Chen Shiang Chyi) se alternando, às vezes transgredindo o realismo, como uma (ou várias) figuras femininas que interagem com o homem e as crianças.

Os cenários, em locais arruinados – outra marca registrada do diretor -, são outro dado intrigante de uma narrativa que se estende, pela manutenção da câmera parada num plano por vários minutos. Todo o tempo, Stray Dogs dialoga com o próprio tempo, com o silêncio, a existência destas pessoas, afrontando o despojamento e a feiúra de seu cotidiano com atitudes intrigantes, patéticas, ternas, desesperadas.

Possa a originalidade e a pungência de Stray Dogs sensibilizar o júri presidido por Bernardo Bertolucci que pode, quem sabe, até atribuir um outro Leão de Ouro ao já vencedor pelo belíssimo Vive L’Amor (1994). Lee Kang Sheng é outro sério concorrente à Copa Volpi de melhor ator.

Walesa, mito e homem
Fora da competição, a atração principal do dia é a ficção biográfica Walesa – Man of Hope, em que o veteraníssimo diretor polonês Andrzej Wajda reconta a trajetória do líder sindical Lech Walesa desde as primeiras greves proibidas na então Polônia comunista, em 1970, atravessando sua transformação na figura politica mais poderosa do país, culminando com a instalação do regime democrático.

Embora visível a adesão de Wajda, um contumaz diretor político, autor de filmes como O Homem de Mármore, O Homem de Ferro e Katyn, a este personagem, o diretor também não deixa de expor algumas rachaduras no mito – como lampejos de vaidade, machismo e egocentrismo e um episódio nebuloso de seu passado, envolvendo a colaboração (forçada, é verdade) com o serviço secreto. Ao final, um retrato humano muito crível de Walesa (interpretado pelo ator Robert Wieckiewicz), é o que subsiste, comprovando que o veterano cineasta, de 87 anos, continua em forma. Hoje à noite, antes de uma exibição do filme para o público, ele recebe um troféu honorário, o prêmio Persol.

Círculo romano
Muito aplaudido na sessão matinal de imprensa, o terceiro concorrente italiano ao Leão, o documentário Sacro GRA, de Gianfranco Rosi, uma coprodução ítalo-francesa, foi capaz de encontrar personagens e locais significativos ao largo do Grande Raccordo Anulare (o GRA do título), um grande anel rodoviário
que circunda Roma.

Aqui sim se realizou um documentário moderno, com criatividade de linguagem, montado pelo veterano Jacopo Quadri (de Os Sonhadores e Assédio, de Bertolucci), que tira um bom partido da convivência com algumas pessoas notáveis, como um socorrista de ambulância; um entomologista obcecado com um inseto que dizima as palmeiras da rodovia; e diversos travestis, dois deles velhos, morando num carro abandonado. Sacro GRA tomou o pulso de uma humanidade diversa, não raro trágica, em torno da velha capital italiana.

Agora, só falta a exibição do último concorrente da competição principal, Les Terrasses, do argelino Merzuk Allouache. Será que vem alguma surpresa na reta finalíssima? Não parece provável.