24/09/2026

Focalizando o trabalho precário, o italiano "L'Intrepido" divide opiniões em Veneza

Veneza – O segundo filme italiano da competição, o drama L’Intrepido, do veterano Gianni Amelio – que já é dono de um Leão de Ouro, em 1998, por Assim Eles Riam – foi recebido com emoções divididas, dentro do melhor espírito da Itália. Vaias e aplausos foram ouvidos na primeira sessão de imprensa, nesta manhã de quarta (4). Também surgiu logo a suspeita de que esta crônica cálida de um problema doloroso, em torno de um trabalhador precário (Antonio Albanese), pode ter ferido suscetibilidades.

Retrato dolorido, L’Intrepido é continuamente infiltrado pela doçura, pela esperança, mas não pela pieguice, felizmente. Antonio Albanese, um ator muito dotado, constrói em Antonio Pane um personagem complexo e sutil, que caminha numa linha fina. O mais fácil seria tornar amargo este homem, entrando nos 50 anos, dotado de alguma cultura e experiência profissional, mas que não acha outro meio de sobrevivência do que se tornar um substituto contumaz, em todo e qualquer tipo de função.

Política e Chaplin
Se há um tom político no desenvolvimento da história, que se passa na Milão dos dias atuais, há também uma procura constante de contrabalançar o negativismo, como o diretor reconheceu, na coletiva do filme. Indagado se o final da história seria “consolador”, Amelio admitiu: “Tenho necessidade de ser consolado, de não deixar simplesmente um gosto amargo na boca. Quando se vê um filme, também se quer sonhar um pouco”.

O diretor também reconheceu o parentesco do personagem de Antonio Pane com Chaplin, em sua busca infinita de dignidade, de seguir em frente, haja o que houver. E também a filiação, que ele diz não ter percebido antes, com Cesare Zavattini, o emblemático roteirista do Neorrealismo.

Certamente, L’Intrepido se insere na nobre tradição neorrealista com a devida atualização para os sombrios tempos atuais, com sua crise econômica interminável, seu desemprego endêmico, mesmo na desenvolvida Europa. L’Intrepido filia-se, também, à tradição do cinema político italiano, aquela mesma de Elio Petri e Francesco Rosi, mas apropriada por Amelio mais pela chave do melodrama, do humanismo, ao estilo dele.

Se à primeira vista não se mostra tão contundente quanto outros trabalhos do diretor, como o próprio Assim Eles Riam, além de Lamerica ou Ladrão de Crianças, L’Intrepido abre uma outra chave na cinematografia de Amelio – ele quer ter esperança e adere a ela com uma tenacidade indomável, assim como seu protagonista, um ator admirável, que pode certamente ser lembrado nas premiações do festival.

Banho de realidade
Repercutiram bem ontem dois documentários, assinados por dois dos mais respeitados e premiados (donos de Oscar) diretores norte-americanos, Errol Morris, com seu The Unknown Known, um perfil do ex-secretário de defesa dos EUA Donald Rumsfeld, em competição, e The Armstrong Lie, de Alex Gibney, sobre a chocante queda de um herói norte-americano, o ciclista Lance Armstrong, fora de concurso.

Com um Oscar vencido por seu denso Sob a Névoa da Guerra (2003) – em que radiografava outro ex-secretário de defesa, Robert McNamara -, o veterano Morris consegue fixar um retrato não raro devastador de Rumsfeld, todo-poderoso no governo de George W. Bush e por trás do envolvimento dos EUA no Iraque, Afeganistão e escândalos de tortura em Abu Ghraib e Guantánamo. Hábil entrevistador, Morris não cai na indiscutível lábia do veterano político, cuja carreira começou a ascender no governo de Richard Nixon. Uma de suas façanhas, aliás, foi conseguir estar longe da Casa Branca quando estourou o escândalo de Watergate, em 1972.

No documentário, Morris expõe as contradições de Rumsfeld, com sua obsessão por palavras e terminologias pesquisada em dicionários, e expõe sua fibra de falcão duro por trás da aparência afável de tio simpático. The Unknown Known é documentário para espectadores atentos, para gente grande e que pretenda entender os EUA e nosso tempo.

Dono de um Oscar por Um Táxi para a Escuridão (2007), Alex Gibney tinha se proposto a fazer um documentário sobre a volta do excepcional ciclista Lance Armstrong, depois de sobreviver a um câncer e acumular na estante nada menos de sete troféus do Tour de France, uma das mais difíceis provas desse esporte.

Em pleno processo de produção do filme, em 2009, Gibney foi atropelado pela comprovação do envolvimento de Armstrong com doping, a perda de todos os seus troféus e o banimento eterno do esporte que o consagrou. Depois de uma crise desta envergadura, o projeto do filme renasceu das cinzas e transformou seus próprios impasses em seu tema. Transforma-se, assim, não só numa pesquisa de fôlego sobre a ascensão e queda de um mito como numa contundente denúncia dos bastidores de uma verdadeira indústria, com a participação de médicos, voltada para produzir vitoriosos sob medida, com a conivência de muitas das instituições que deveriam zelar pela lisura das competições. Só um documentarista poderoso como Gibney poderia se lançar a um filme tão explosivo como The Armstrong Lie.

Saudade de Pasolini
Na seção Veneza Classici, o documentário Profezia – L’Africa di Pasolini, organizado por Gianni Borgna, teve por mérito principal o resgate de inúmeras imagens preciosas de arquivo do cineasta Pier Paolo Pasolini (1922-1975), como algumas ao lado do filósofo francês Jean-Paul Sartre quando este o defendeu da fúria de intelectuais franceses contra o filme O Evangelho segundo São Mateus (1964). Mas esgotou-se aí sua ambição.

Se fôssemos comparar a feitura deste documentário, quadrado, acadêmico e até ligeiramente desconjuntado formalmente, com os trabalhos extremamente bem-feitos de Errol Morris e Alex Gibney, seria covardia.