Terry Gilliam discute o cansaço da tecnologia em "The Zero Theorem"
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 02/09/2013
- Tempo de leitura 6 minutos
Com sua habitual energia e imaginação visual, apesar das restrições de tempo e orçamento nas filmagens, o diretor norte-americano Terry Gilliam apresentou em The Zero Theorem uma interessante distopia futurista que sintoniza um muito contemporâneo cansaço com a onipresença da tecnologia e também com o pesadelo do mundo corporativo, engolindo o que resta de humano em cada um de nós.
Se é verdade que muito do que se vê na tela remete a Brazil – O Filme (1985), não se trata aqui do fecho de uma trilogia, que incluiria também Os 12 Macacos (1995). “Não, não é uma trilogia. Apenas costumo dizer isso porque soa mais inteligente, profundo e acadêmico e parece melhor para dizer à imprensa”, disse Gilliam, rindo, na coletiva.
Escrito pelo professor universitário Pat Rushin, o roteiro andou sendo cogitado pelo diretor e ex-Monty Python desde 2008. Mas apenas em 2012 reuniu condições de ser filmado, com a adesão de atores consagrados, como o austríaco Christoph Waltz (Bastardos Inglórios), na pele de um especialista em computadores, Qohen Leth, atormentado pela busca de sentido na vida e pela figura misteriosa da Administração (Matt Damon).
Nem Waltz nem Damon puderam vir à disputada coletiva do filme, a que compareceram os atores David Thewlis (Cavalo de Guerra) e Mélanie Thierry (Missão Babilônia), e em que Gilliam comandou a cena, com respostas espirituosas e algumas declarações surpreendentes. Entre elas, a de que as filmagens, em Bucareste, “não tiveram as habituais restrições de segurança. Cada um tinha que cuidar da própria vida. Estávamos livres! Felizmente, tudo deu certo”, declarou o diretor, arrancando gargalhadas, como muitas vezes ao longo da entrevista.
Figurino barato
Gilliam também surpreendeu ao admitir que, devido a limitações de orçamento – as mesmas que levaram os produtores a optar por Bucareste, preterindo a Inglaterra e a Itália – o obrigaram a usar tecidos muito baratos no colorido e criativo figurino do filme. “Felizmente, descobrimos um mercado chinês nos arredores de Bucareste, onde se podia comprar tecido a quilo, não a metro. O tecido era péssimo! Por causa disso, Matt Damon e os outros atores suavam como porcos ali dentro. Felizmente, na tela ficou lindo”.
O orçamento restrito e a rapidez das filmagens (dois meses) também pressionaram os atores. “Não tivemos tempo de ensaiar. Acho que até por isso fazer este filme foi mais divertido do que os outros, porque não tivemos tempo de ser responsáveis”, disse o diretor. Gilliam contou que, por conta de compromissos de Matt Damon, só pode contar com ele por quatro dias e que David Thewlis, que fazia simultaneamente outro filme no Canadá, ficou indo e vindo à Romênia.
Salvo pela tecnologia
A tecnologia, que está no centro do roteiro, teve um papel concreto para a realização de The Zero Theorem. Segundo Gilliam, “há três momentos no filme que foram gravados pelo Iphone, como um em que precisei de um áudio de Mélanie Thierry e ela estava no sul da França. A tecnologia nos salvou!”.
Entretanto, tanto como o protagonista do filme, o cineasta admite ter uma relação ambígua com a tecnologia e a era da internet. “Não sou um geek ou nerd, claro, mas cada vez mais me sinto seduzido pelo computador. Minha mulher se pergunta o que está nos acontecendo por isso, como seres humanos. Também me pergunto a mesma coisa. Acho que isso começa a consumir sua vida. Quanto mais estamos conectados, mais entendemos isso”.
O diretor destacou que “se preocupa” com o aumento das relações virtuais entre as pessoas. “Cada vez mais as pessoas se conectam via computador, usam
nomes falsos. A publicidade na TV vende um mundo belo, perfeito, como se fôssemos todos deuses. Mas não somos assim. Isso me preocupa”. Lamentou, também, os desvios de alguns movimentos deflagrados pela internet: “O que chamamos de Primavera Árabe tornou-se o Inverno Impossível”. Entretanto, destacou não ter respostas sobre essa questão e que fez este filme “para discutir tudo isso”.
nomes falsos. A publicidade na TV vende um mundo belo, perfeito, como se fôssemos todos deuses. Mas não somos assim. Isso me preocupa”. Lamentou, também, os desvios de alguns movimentos deflagrados pela internet: “O que chamamos de Primavera Árabe tornou-se o Inverno Impossível”. Entretanto, destacou não ter respostas sobre essa questão e que fez este filme “para discutir tudo isso”.
Papel e caneta
Na mesma linha, o ator inglês David Thewlis, que interpreta na tela um supervisor da firma de computação, afirmou que “se sente mal quando passa tempo demais diante do computador” e que toma atitudes do tipo usar papel e caneta para combater isso. “As pessoas gastam tempo e coração demais na tecnologia. Este filme fala sobre isso”.
E a atriz francesa Mélanie Thierry admitiu “não estar no Facebook ou no Twitter”. “Tudo isso anda me aborrecendo”, afirmou.
Egotrip canadense
Outro concorrente ao Leão, o canadense Tom à la Ferme, do enfant terrible Xavier Dolan, adaptando peça do autor Michel Marc Bouchard, abre várias frentes, mistura tons e gêneros, do suspense ao melodrama, mas finalmente sucumbe à egotrip que costuma contaminar os filmes deste jovem e até talentoso ator e diretor, de 24 anos, premiado em sua estreia precoce na Quinzena dos Realizadores de Cannes, com Eu Matei a Minha Mãe (2009).
Como sempre, Xavier protagoniza e dirige, interpretando Tom, jovem publicitário que viaja ao interior, para o sepultamento de seu namorado, tornando-se virtual prisioneiro – por vontade própria – de uma sufocante fazenda, manipulado pelo violento irmão do namorado, Francis (Pierre-Yves Cardinal), e a mãe dele, Agathe (Lise Roy).
Dolan, como ele mesmo admitiu na coletiva do filme, é uma centrífuga de influências, mas certamente ainda digere mal. Não encontra um tom, deixa perder bons momentos e entrega um filme bem irregular.
Locke
Fora da competição, foi uma boa surpresa o drama britânico Locke, de Steven Knight (roteirista de Senhores do Crime), em que o ator Tom Hardy (Os Infratores) sustenta com talento o interesse num cenário único e um tanto claustrofóbico – dentro de um carro. Ele interpreta um engenheiro, Ivan Locke, comandando pelo telefone uma série de angustiantes problemas de sua vida, numa noite em que tudo entra num impasse.
Locke está na estrada, deixando para trás a supervisão direta de uma grande empreitada em seu emprego – que vai lhe custar o próprio -, pilotando um assistente para que nada saia errado nessa operação, à distância, e colocando seu casamento em risco, ao admitir, para a mulher, que vai assistir ao parto de uma outra, com quem teve um brevíssimo caso.
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