12/09/2026

"Parkland" revê o assassinato de Kennedy pelo olhar de pessoas comuns

Veneza – A pegada realista se fortaleceu neste domingo (1-9), com a exibição do quarto concorrente norte-americano, Parkland, do diretor estreante Peter Landesman, reconstituindo com rigor e ferocidade de repórter experiente em guerras e assuntos polêmicos o final de semana do assassinato do presidente John Fitzgerald Kennedy, que completa 50 anos no próximo dia 22 de novembro.

Partindo de pesquisas e de um livro de Vincent Bugliosi – Reclaiming History – The Assassination of John Fitzgerald Kennedy -, Landeman deixa de lado os personagens mais famosos e as teorias de conspiração que nutriram filmes como JFK, de Oliver Stone, em favor de retratar a arraia mais miúda em torno do acontecimento. Ou seja, agentes, policiais, médicos, enfermeiras e outros cidadãos comuns que tiveram suas vidas drasticamente alteradas, ou mesmo arruinadas, naquele dia.

Muitas vezes, trata-se de personagens sobre quem nunca pensamos, ou ouvimos falar – caso especialmente de Robert Oswald (James Badge Dale), irmão do alegado assassino, Lee Harvey Oswald. Ou James Hosty (John Livingston), agente do FBI que destruiu, por ordem de seu chefe, todo o arquivo sobre Lee Oswald que existia no FBI, por temor de que seu departamento fosse acusado de negligência.

As teorias da conspiração não interessaram Landesman porque, como disse na coletiva, “não há provas em qualquer direção”. O que ele procurou no filme foi a “verdade crua daquele final de semana”. Muito realismo foi injetado na história a partir do contato com pessoas como o próprio Jim Hosty (que morreu em 2011) e a família do comerciante Abraham Zapruder (falecido em 1970), autor de um famoso filme super-8 sobre o assassinato que contém as imagens mais conhecidas sobre o acontecimento.

Mais realismo se observa na parte visual, vendo-se muito sangue nas roupas das pessoas que tiveram contato com o presidente baleado, como sua esposa, Jackie Kennedy, além de médicos, enfermeiras e agentes de segurança. Para o diretor do filme, além da procura de veracidade, “havia um toque shakespeariano” nisto.

Produzido por Tom Hanks e com elenco integrado por Paul Giamatti, Billy Bob Thornton, James Badge Dale e Zac Efron – nenhum deles presente em Veneza -, “Parkland” é outro filme que deve garantir algumas vagas no Oscar 2014.

Família rodriguiana na Grécia
Mais uma vez, surgiu um drama forte, rigoroso, estética e dramaticamente bem construído em torno de uma família altamente disfuncional, no concorrente grego ao Leão Miss Violence, do jovem diretor Alexandros Avranas.
Há um clima nelson-rodriguiano nesta história de um clã marcado pelo incesto e a exploração sexual, inclusive de crianças, por parte de um patriarca (Themis Panou), que vive com a mulher, a filha e quatro crianças – seus netos? seus filhos ? A máscara de normalidade da família começa a ruir quando ocorre o suicídio de uma das meninas, de 11 anos, e o serviço social investiga o fato.

É imediata a comparação com outro concorrente com tema próximo, o alemão The Police Officer’s Wife, de Peter Gröning. A seleção de Veneza este ano está pondo o dedo na ferida da violência doméstica escondida entre as quatro paredes da classe média. O mal-estar está exposto e não deve sair de mãos vazias na premiação do júri liderado pelo cineasta italiano Bernardo Bertolucci.

Aposentadoria de Miyazaki
Na coletiva de outro concorrente ao Leão, a animação japonesa Kaze Tachinu, do veterano Hayao Miyazaki, a grande notícia, afinal, acabou sendo o anúncio, feito pelo presidente do estúdio Ghibli, Koji Hoshino, de que o premiado diretor de A Viagem de Chihiro, de 72 anos, deverá anunciar sua aposentadoria numa coletiva a ser feita em Tóquio na próxima semana.

A se confirmar isto, Kaze Tachinu será o último filme da carreira de Miyazaki, que aqui realizou uma biografia com muita liberdade poética, e a habitual beleza e engenhosidade visual, do engenheiro aeronáutico japonês Jiro Hirokoshi, idealizador de alguns dos mais ousados aviões japoneses nos anos 30 e 40, que viu sua criatividade usada a serviço da guerra.