Entre duas obras-primas de Kubrick e o filme perdido de River Phoenix
- Por Equipe Cineweb
- 29/10/2013
- Tempo de leitura 24 minutos
Dark Blood, de George Sluizer, que foi interrompido pela morte de seu ator River Phoenix, há 20 anos, ganha uma montagem possível e é uma chance de rever na tela o talentoso ator. Últimas chances de assistir na telona dois grandes trabalhos de Stanley Kubrick, Nascido para Matar e 2001- Uma Odisseia no Espaço. Dando chance às novidades, uma dica é o mexicano Las Horas Muertas. Isso e muito mais a seguir.

Dark Blood
Foi uma epopeia infernal o diretor francês George Sluizer (O Silêncio do Lago, Jangada de Pedra) retomar o controle sobre o material produzido para este filme, que foi interrompido 20 anos atrás devido à morte de seu protagonista, o ator River Phoenix (1970-1993). O próprio Sluizer ficou doente e temeu nunca produzir esta versão de uma espécie de work in progress, uma montagem do que foi possível, e que dá uma ideia do que seria este trabalho pronto. Sluizer substitui com sua narração as cenas que não puderam ser filmadas.
Fica na tela a sensação de um drama louco, em torno de um jovem viúvo, enigmaticamente apenas chamado de Boy (Phoenix), que vive isolado numa cabana arruinada, no meio de um deserto onde foram realizados testes nucleares.
Nessa bela paisagem – filmada entre Utah e Novo México -, um casal em segunda lua-de mel, o ator Harry Fisher (Jonathan Pryce) e Buffy (Judy Davis), tem problemas com o carro e fica na estrada. À noite, Buffy enxerga ao longe a luz da cabana de Boy e vai pedir ajuda. Ele os resgata, mas tem uma agenda própria para os visitantes, especialmente para Buffy – parte essencial de um projeto delirante de Boy para a criação de uma nova humanidade.
A essência do filme incompleto passa através das excelentes atuações. Na tensão que se instala entre o trio, transparece a dualidade do personagem de Boy, que River Phoenix transmite com seu talento refinado. Personalidade doentia que poderia recair facilmente numa caricatura, seu Boy se humaniza na tela em sua gangorra emocional, seus acessos de fúria e sua inescondível fragilidade. Jonathan Pryce e Judy Davis sustentam com maestria os solavancos de um casal instável, submetido a uma situação impregnada por sentimentos ambivalentes, inclusive o medo da morte.
Vale a visita, também para matar a saudade de River Phoenix, o impecável intérprete de Conta Comigo e Garotos de Programa. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
FAAP
29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1054 (Terça)
29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1054 (Terça)

O Rio nos pertence
Ricardo Pretti – do coletivo cearense Alumbramento, responsável por filmes como Estrada para Ythaca e Os Monstros – dirige solo este filme de climas e estranhamentos, protagonizado por Leandra Leal. A atriz interpreta uma jovem que por 10 anos se isolou de sua família e amigos, viveu com um americano e chegou até a fazer planos para um futuro a dois. A chegada de um cartão postal misterioso a obriga reatar tudo o que deixou para trás.
Tal como o brasileiro Riocorrente, de Paulo Sacramento, também na seleção da Mostra, O Rio nos pertence é um filme sobre o sujeito pós-moderno contemporâneo. Solitária para quem passado, presente e futuro não possuem distinção, a protagonista tenta romper com esse padrão e se reencontrar. Começa procurando um amor do passado (Jiddu Pinheiro), mas o rapaz, agora casado e com uma filha, é tão confuso quanto ela. Já sua irmã (Mariana Ximenes) a odeia por ter sido abandonada pouco depois da morte dos pais. O que teria acontecido a eles é um mistério: acidente ou suicídio?
O filme materializa a confusão emocional e solidão da personagem em sua fragmentação, com cenas que não se conectam ou momentos isolados dentro da narrativa, repleta de elipses, quase etérea. O Rio de Janeiro, longe do cartão postal, é um gigante devorador que ameaça a garota. A quem essa cidade pertence? A ela é que não é – um ser estranho, seja lá ou em qualquer outro canto do mundo. Coberta por névoa, o Rio é uma cidade misteriosa, é uma esfinge pronta para devorar. E quem seria esse “nos” a quem o Rio pertence?
Leandra Leal é intensa, como de costume, e encontra em Mariana Ximenes uma adversária à altura. O primeiro conflito entre elas é bonito e doloroso, beira Nelson Rodrigues, enquanto outros momentos do filme dialogam com Julio Bressane, em seu antinaturalismo, em sua pose literária, com frases que soariam mais naturais em romances, e, estranhamente, cabem aqui, pois o filme passa longe do realismo.
Pretti e seus colegas da Alumbramento fazem um dos cinemas mais instigantes no país. O Rio nos pertence segue sua habitual linha de ousadia e criatividade, um filme mais interessado em levantar questões e incomodar, algo muito bem-vindo no cinema brasileiro, que, muitas vezes, se acomoda no padrão televisivo. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1- 29/10/2013 - 13:00 (Terça)

Las horas muertas
Se, por um lado, o cinema mexicano contemporâneo tem presença forte da violência em suas produções, por outro, há pequenos filmes intimistas que passam longe dessa questão. Um deles é Las horas muertas, de Aarón Fernandez, que se passa num motel de beira de estrada, onde surge uma amizade entre um funcionário e uma cliente.
Sebastián (Kristian Ferrer) é sobrinho do dono do estabelecimento, que fica na região litorânea e é bem antiquado. Entre os clientes mais assíduos estão Miranda (Adriana Paz) e seu amante, que mais a deixa esperando do que a encontra. É nessas tardes sem ter o que fazer que surgem laços entre o rapaz de 17 anos e a mulher.
Fernandez, que também assina o roteiro, constrói o filme em cima das banalidades do dia-a-dia do hotel, da vida cotidiana e da espera de Miranda por um amante que nunca chega. É daqueles filmes em que “nada acontece”, se olharmos para a superfície. Porque em camadas mais profundas há uma investigação sobre as relações humanas e uma juventude em busca de oportunidades. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1 - 29/10/2013 - 21:50 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 30/10/2013 - 19:15 (Quarta)

Providence
O genial roteiro do inglês David Mercer fornece a ferramenta ideal para que o cineasta francês Alain Resnais formate um instigante mergulho na mente de um velho escritor, Clive Langham (John Gielgud), numa única noite – véspera de seu aniversário, em que ele sofre cruelmente de dores por seus problemas de saúde. É fascinante acompanhar os delírios da imaginação de Clive, criando histórias mirabolantes em torno de três personagens – que depois será possível ver em sua encarnação real e que são seus filhos, Claude (Dirk Bogarde) e Kevin (David Warner), e a mulher do primeiro, Sonia (Ellen Burstyn).
Providence vale por essa viagem em palavras, sons e sentimentos extremos de um velho consagrado e premiado que sente a proximidade da morte e usa até a última gota de sua feroz criatividade para montar jogos mentais com estes três parentes, sem pudor dos sentimentos negativos que extravasa especialmente em relação aos filhos.
O elenco, aliás, é de um refinamento extremo, especialmente John Gielgud, que carrega nos ombros a maior parte deste projeto de difícil confecção, mas plenamente realizado pelo mestre Resnais. (Neusa Barbosa)
O elenco, aliás, é de um refinamento extremo, especialmente John Gielgud, que carrega nos ombros a maior parte deste projeto de difícil confecção, mas plenamente realizado pelo mestre Resnais. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
29/10/2013 - 16:45 - Sessão: 992 (Terça)
29/10/2013 - 16:45 - Sessão: 992 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4
30/10/2013 - 19:40 - Sessão: 1093 (Quarta)
30/10/2013 - 19:40 - Sessão: 1093 (Quarta)
Nascido para Matar e 2001 – Uma Odisseia no Espaço
Stanley Kubrick, ainda mais na telona, nunca é demais. Então, vale um esforço para não perder aquelas que são as últimas sessões de dois filmes-assinatura do extraordinário diretor norte-americano. 2001 – Uma Odisseia no Espaço (68) simplesmente reinventou o gênero dos filmes espaciais ao inscrever em sua narrativa uma investigação sobre o confronto dos homens com a inteligência artificial dos robôs e o próprio sentido da vida humana num cosmos imenso. Em Nascido para Matar (87), ao acompanhar o progressivo processo de loucura vivido por um recruta da guerra do Vietnã (Vincent D’Onofrio) a partir de um treinamento desumano, Kubrick constrói à sua maneira um manifesto pacifista contra toda e qualquer guerra.
(Neusa Barbosa)
(Neusa Barbosa)
NASCIDO PARA MATAR
Indicação: 16 anos
CINEMARK - SHOPPING CIDADE JARDIM 6
29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1065 (Terça)
29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1065 (Terça)
2001: UMA ODISSEIA NO ESPAÇO
Indicação: livre
CINEMARK - SHOPPING CIDADE JARDIM 6
29/10/2013 - 21:10 - Sessão: 1066 (Terça)
29/10/2013 - 21:10 - Sessão: 1066 (Terça)

Avanti Popolo
Este primeiro longa de Michael Wahrmann, uruguaio-israelense que vive em São Paulo desde 2004, venceu quatro prêmios no Festival de Brasília, inclusive melhor direção e ator coadjuvante (troféu póstumo) para Carlão Reichenbach. O cineasta gaúcho-paulistano deu vida a um senhor cujo filho, André (André Gatti), passa a morar novamente com ele e tenta reavivar a memória do pai, por meio das filmagens em Super-8 feitas pelo seu irmão desaparecido havia 30 anos, durante a ditadura militar.
A temática da repressão política serve de pano de fundo para uma história sobre o tempo e seu efeito na vida das pessoas e no cinema. O último caso pode ser observado tanto na cena final quanto nas inserções de vídeos em Super-8 durante todo o longa. A metalinguagem permeia a obra e se torna explícita na conversa de André com um homem que conserta projetores de Super-8 e é fundador de um movimento cinematográfico de um cineasta só, ele mesmo. (Nayara Reynaud)
Indicação: livre
CINE OLIDO
29/10/2013 - 15:00 - Sessão: 1046 (Terça)
29/10/2013 - 15:00 - Sessão: 1046 (Terça)

Algo no Caminho
Assim como Somente em Nova York, outro filme exibido nesta Mostra, este filme indonésio traz um protagonista muçulmano viciado em sexo que não consegue saciar este desejo por “vias normais” e recorre ao pornô e à masturbação. Entretanto, se aquela co-produção Jordânia-Israel-EUA utilizava isso de maneira cômica para tratar da rivalidade histórica entre israelenses e palestinos, Algo no Caminho o faz de modo mais escatológico – com sangue e vômito, além da overdose de sexo – para fazer o seu conto moral da oposição entre a religião
e os instintos humanos.
e os instintos humanos.
O viciado em questão é Ahmed, um taxista de Jacarta que não consegue clientes. Tudo o que faz é se masturbar dentro do seu carro ou vendo filmes pornôs no sofá de seu pequeno e bagunçado apartamento. Após a dica de um colega, ele passa a procurar passageiros em uma região da cidade onde a prostituição é um dos principais atrativos. Lá ele conhece melhor Kinar, sua vizinha que trabalha no ramo e que sempre o fascinara.
Enquanto isso, o personagem vai todos os dias à mesquita, onde os ensinamentos religiosos conflitam com seus desejos. Da mesma maneira que usa o ventilador para resfriar seu café e sua comida, Ahmed utiliza a religião como uma tentativa de refrear seus impulsos sexuais.
O diretor Teddy Soeriaatmadja divide o longa em três capítulos, um recurso que parece desnecessário à narrativa, bem como a utilização da Ária na corda Sol (G), de Johann Sebastian Bach. Ela é a única música que entra no filme, caracterizado pelos diálogos escassos no princípio e a importância dos sons e ruídos para a história. Por isso, quando é executada pela primeira vez, a melodia clássica destoa de todo o longa e soa estranha, e, ao pontuar o filme outras vezes, torna-se melodramática e ridiculariza certas cenas. (Nayra Reynaud)
Indicação: 12 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 2
29/10/2013 – 19:30 – Sessão: 1030 (Terça)
29/10/2013 – 19:30 – Sessão: 1030 (Terça)

A Montanha Matterhorn
O promissor primeiro longa do diretor holandês Diederik Ebbinge investe na composição firme dos personagens, a partir do protagonista, Fred (Ton Kas), homem solitário, ensimesmado, preso numa teia que envolve rotina, religião e moral extremamente rígidas, represando sentimentos e prazeres.
A aparição de um estranho, Theo (René van’t Hof), com aparentes problemas mentais, desafia a rigidez do arranjo. Fred é forçado a sair de sua zona de conforto – que é, na verdade, um território de medo e repressão – para proteger um homem que mal fala e tem a compreensão de uma criança pequena.
Entre os dois forma-se uma interação complexa, em que, num determinado momento, parece haver algum indício de exploração, mas em que o afeto infiltra-se aos poucos. A sugestão de homossexualismo entra na equação e o filme acolhe este aspecto de maneira sensível.
Não é propriamente um filme gay, no sentido de que não tem como objetivo primeiro advogar pela tolerância – embora também o faça por caminhos inesperados.
O roteiro, também assinado pelo diretor Ebbinge, interessa-se mais por investigar de que maneiras as pessoas podem romper círculos viciosos, pessoais ou sociais, a partir de interações cujos padrões não seguem nenhuma cartilha. Como a própria vida
Indicação: Livre.
FAAP
29/10/2013 - 15:00 - Sessão: 1053 (Terça)
29/10/2013 - 15:00 - Sessão: 1053 (Terça)

O que os homens falam
Trata-se de um filme espanhol com uma grande vontade de ser uma peça de teatro. Diálogos são o que importa. A ação se move por meio de palavras, mais do que atos. Ainda assim, o diretor Cesc Gay, que assina o roteiro com Tomàs Aragay, constrói uma boa comédia melancólica sobre o universo masculino, seus medos e desejos.
Como quase todos os filmes divididos em esquetes, alguns são melhores do que outros. O primeiro deles é protagonizado por Eduard Fernández e Leonardo Sbaraglia, dois amigos que se reencontram por acaso depois de anos e veem que suas vidas foram bem diferentes do planejado.
Já o argentino Ricardo Darín protagoniza alguns dos melhores momentos, como um sujeito que se instala numa praça em frente ao apartamento do amante de sua mulher, enquanto espera encontra um conhecido, interpretado por Luis Tosar.
Já o argentino Ricardo Darín protagoniza alguns dos melhores momentos, como um sujeito que se instala numa praça em frente ao apartamento do amante de sua mulher, enquanto espera encontra um conhecido, interpretado por Luis Tosar.
A presença feminina não é lá muito forte; elas são mais interlocutoras ou catalisadoras dos processos de mudança. A melhor personagem feminina coube a Candela Peña (ganhadora do Goya de coadjuvante este ano), cuja personagem entra num jogo de sedução com o colega de trabalho, vivido por Eduardo Noriega.
O filme nunca se propõe a uma radiografia mais profunda do universo masculino, mas seu acerto está em retratar pequenos dramas da vida cotidiana, e em desfazer o mito do machão espanhol
caliente. Aqui, nenhum personagem é bem resolvido – sexual ou emocionalmente. São homens fragilizados, cujas vidas formam um acúmulo de pequenos erros e infelicidade doméstica. (Alysson Oliveira)
caliente. Aqui, nenhum personagem é bem resolvido – sexual ou emocionalmente. São homens fragilizados, cujas vidas formam um acúmulo de pequenos erros e infelicidade doméstica. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
CINEMATECA - SALA PETROBRAS - 29/10/2013 - 20:00 - Sessão: 1021 (Terça)
CINEMATECA - SALA PETROBRAS- 30/10/2013 - 16:30 - Sessão: 1110 (Quarta)

Hopper Stories
A obra do pintor norte-americano Edward Hopper (1882-1967) é o ponto de partida para essa série de curtas franceses dirigidos por cineastas europeus. Como todo filme coletivo, há altos e baixos – aqui, predomina o segundo caso, excetuando-se o primeiro segmento e aquele dirigido pelo conhecido ator Mathieu Amalric. Ao todo, são oito filmes inspirados em alguns dos quadros mais famosos do pintor – como
Morning Sun, A woman in the sun
e
Summer Evening.
Morning Sun, A woman in the sun
e
Summer Evening.
Parece haver uma dificuldade dos diretores em materializar em narrativa as possibilidades oferecidas pelos quadros do pintor, cuja obra, aliás, é pautada pela melancolia, solidão e alienação. O primeiro segmento, de Sophie Barthes, incorpora tons woodyallenianos e traz uma musa que sai de dentro do quadro e interage com o pintor. Revoltada, ela não quer mais estar sozinha no quadro, e, enquanto andam pelas ruas de Nova York, discutem a relação.
Já Mathieu Amalric se vale de anúncios antigos de rádio e outros sons estranhos para investigar o jogo de luz e sombra em um quadro. O último episódio, no conjunto, um dos bons, é dirigido por Sophie Fiennes, tem como tema o quadro
First Row Orchestra
e apresenta as divagações na cabeça de uma mulher, enquanto uma orquestra se apresenta. (Alysson Oliveira)
First Row Orchestra
e apresenta as divagações na cabeça de uma mulher, enquanto uma orquestra se apresenta. (Alysson Oliveira)
Indicação: livre
CINE LIVRARIA CULTURA 1
-
29/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1022 (Terça)
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29/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1022 (Terça)

Bobô
Um filme português e de cunho bem feminino. É a estreia da diretora portuguesa Inês de Oliveira, também corroteirista, e disposta a escavar as camadas da personalidade de um trio de personagens femininas: a arquiteta Sofia (Paula Garcia), sua empregada Mariama (Aissatu Indjai) e a menina Bobô (Luana Quade), filha desta.
Mariama é uma alegre jovem da Guiné, que vem trabalhar como empregada, e Sofia, que se encontra mergulhada num processo depressivo. A empregada foi ideia da mãe de Sofia (Maria João Luís) e rompe um desejo de solidão desta. Há um misterioso quarto de criança na casa, mas a criança nunca é vista. É ou foi real? Isto não é bem explicado e é um mistério que dá clima ao filme.
O choque cultural entre Mariama e Sofia parece predestinado a um rompimento. Inesperadamente, chega Bobô, filha de Mariama que mora com uma parente. A presença da criança rompe a carcaça emocional de Sofia, que se dispõe até a comparecer a um casamento na família de Mariama. Na festa cheia de convidados vestidos em trajes coloridos, de inspiração africana, Sofia é um vivo símbolo do passado dos colonizadores portugueses, do confronto entre uma Europa imperialista, reprimida e repressora diante de um mundo selvagem, ancestral.
A chegada da avó de Bobó cria uma tensão em Mariama, que se opõe ao desejo da velha senhora de submeter a menina à mutilação genital tribal. Diante desse perigo, a interação entre Sofia e Mariama torna-se mais nuançada e o filme, mais interessante. Embora revele tropeços de ritmo, perdoáveis num primeiro trabalho de direção. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
29/10/2013 - 14:00 - Sessão: 995 (Terça)
29/10/2013 - 14:00 - Sessão: 995 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPEIA 1
31/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1234 (Quinta)
31/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1234 (Quinta)

Os Amigos
O novo filme da paulista Lina Chamie, vibra na tela com um afeto delicado, numa construção sofisticada de narrativa, pontuada pelas interpretações iluminadas de Marco Ricca (talvez no melhor papel de sua carreira), Dira Paes, e um elenco infantil que faz intervenções realmente mágicas – além de um adorável cachorrinho, Moby.
Roteirizado pela própria Lina,
Os Amigos
fala de afetos de uma forma cálida e criativa, capaz de invocar a ternura possível entre as pessoas, mesmo diante da dor da perda de alguém querido, das frustrações do trabalho, do caos da chuva e do trânsito em São Paulo (cidade que, mais uma vez, aparece decisivamente enérgica e múltipla como é, num filme da autora de
Tônica Dominante
e
Via Láctea).
Os Amigos
fala de afetos de uma forma cálida e criativa, capaz de invocar a ternura possível entre as pessoas, mesmo diante da dor da perda de alguém querido, das frustrações do trabalho, do caos da chuva e do trânsito em São Paulo (cidade que, mais uma vez, aparece decisivamente enérgica e múltipla como é, num filme da autora de
Tônica Dominante
e
Via Láctea).
As intervenções infantis nessa trajetória de um dia na vida de Téo (Marco Ricca) – que se torna uma espécie de protótipo de um ser humano qualquer – somam poesia de uma forma engraçada, musical, mágica. Há cenas com os filhos de Maju (Dira) e de uma amiga recém-viúva (Sandra Corveloni) na vida dele, com um adorável “consultor” numa loja de brinquedos – há um diálogo inusitado entre este menino e o protagonista sobre super-herois – e também trechos de uma encenação teatral/circense mirim da
Odisséia
de Homero. Ulisses, o herói grego, viajante no meio das águas, serve como metáfora cristalina da turbulência existencial de Téo, no dia em que acorda para ir ao funeral de um amigo de infância, Juliano (Otávio Martins), que ele não via há muito, muito tempo.
Odisséia
de Homero. Ulisses, o herói grego, viajante no meio das águas, serve como metáfora cristalina da turbulência existencial de Téo, no dia em que acorda para ir ao funeral de um amigo de infância, Juliano (Otávio Martins), que ele não via há muito, muito tempo.
Usando, como sempre, com total propriedade e sensibilidade sua sólida formação de musicista, Lina Chamie incorpora trechos dos compositores Camille Saint-Saens (na admirável sequência no zoológico, criando um motivo musical para cada animal), Edvard Grieg e Benjamin Britten, construindo texturas dentro do filme, camadas dentro de camadas, que vão lhe dando uma consistência dramática e cinematográfica singular.
Por tudo isso e muito mais,
Os Amigos
mostra-se como um filme de câmera, em que o coração da diretora-roteirista, de todos os atores e técnicos (destacando-se a montagem sutil de Karen Harley), transparece na tela e abraça o seu público.
Os Amigosé um filme para abraçar, uma sinfonia da ternura dos pequenos gestos. (Neusa Barbosa)
Os Amigos
mostra-se como um filme de câmera, em que o coração da diretora-roteirista, de todos os atores e técnicos (destacando-se a montagem sutil de Karen Harley), transparece na tela e abraça o seu público.
Os Amigosé um filme para abraçar, uma sinfonia da ternura dos pequenos gestos. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
29/10/2013 - 16:00 - Sessão: 996 (Terça)
29/10/2013 - 16:00 - Sessão: 996 (Terça)

Cabra Marcado para Morrer
O mais conhecido, premiado e o verdadeiro ponto de virada na carreira do cineasta Eduardo Coutinho não poderia faltar nesta retrospectiva promovida pela Mostra. Filme único, até pela história de sua produção, merece ser visto e revisto, ainda mais em cópia recentemente restaurada. O adjetivo “imperdível” cai bem a poucos filmes como a este. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
CINUSP - MINDLIN
29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1075 (Terça)
29/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1075 (Terça)

A Ternura
A diretora francesa Marion Hänsel, uma habituê da Mostra – autora de
Entre o Inferno e o Profundo Mar Azul
(95) – assina aqui um filme cálido e esperto sobre a delicadeza. Separados há 15 anos, mas mantendo uma relação amistosa, Lise (Maryline Canto) e Frans (Olivier Gourmet) partem de Bruxelas para a França, para trazer de volta o filho, Jack (Adrien Jolivet), que sofreu um acidente de esqui. A viagem recoloca-os numa situação de convívio que traz à tona várias memórias e sensações, como solidariedade, cumplicidade e afeto. Mas há algo mais? Paralelamente, corre a história de Jack que, por causa do acidente, teme seu futuro como instrutor de esqui e também o desenrolar de sua paixão por Alison (Margaux Châtelier).
Entre o Inferno e o Profundo Mar Azul
(95) – assina aqui um filme cálido e esperto sobre a delicadeza. Separados há 15 anos, mas mantendo uma relação amistosa, Lise (Maryline Canto) e Frans (Olivier Gourmet) partem de Bruxelas para a França, para trazer de volta o filho, Jack (Adrien Jolivet), que sofreu um acidente de esqui. A viagem recoloca-os numa situação de convívio que traz à tona várias memórias e sensações, como solidariedade, cumplicidade e afeto. Mas há algo mais? Paralelamente, corre a história de Jack que, por causa do acidente, teme seu futuro como instrutor de esqui e também o desenrolar de sua paixão por Alison (Margaux Châtelier).
Se fosse um filme hollywoodiano, haveria grandes dramas, revelações, viradas drásticas, lágrimas, gritos. Nada disso ocorre aqui. As pequenas surpresas surgem de incidentes aparentemente gratuitos, como a aparição de um carona ISergi López) ou um passeio de Lise na neve à noite, acompanhando o guarda da estação de esqui.
A Ternura
é muito o que o nome diz, um quase nada, um pouco de tudo, sustentado por um elenco afinado, sob o olhar de uma diretora talentosa. (Neusa Barbosa)
A Ternura
é muito o que o nome diz, um quase nada, um pouco de tudo, sustentado por um elenco afinado, sob o olhar de uma diretora talentosa. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 5
29/10/2013 - 22:00 - Sessão: 1074 (Terça)
29/10/2013 - 22:00 - Sessão: 1074 (Terça)
CINE LIVRARIA CULTURA 2
30/10/2013 - 16:00 - Sessão: 1118 (Quarta)
30/10/2013 - 16:00 - Sessão: 1118 (Quarta)

O Sol por Testemunha
Parece covardia destacar clássicos numa programação tão cheia de descobertas quanto a Mostra, mas não dá para deixar passar a menção à belíssima cópia restaurada deste suspense de 1960 de René Clément, que teve sua première no Festival de Cannes, com direito a presença do galã Alain Delon, os velhos olhos azuis impecáveis aos 77 anos.
Se é do filme que é preciso falar, então lembre-se de que é uma das melhores adaptações da escritora Patricia Highsmith na tela e que Delon compôs uma das melhores encarnações do dúbio personagem Tom Ripley. Esta é a história que marca, justamente, como Ripley encontrou um meio de apropriar-se da riqueza que o destino não lhe concedeu, iniciando uma trajetória marcada pelo engano e o crime. No elenco, as muito belas Marie Laforêt e Romy Schneider, ao lado de Maurice Ronet – no papel de Philippe, um jovem milionário fútil, que faz Ripley de gato e sapato, mas não tem ideia da cobra que está criando. Programa imperdível, ainda mais com as cores restauradas da fotografia de Henri Decaë (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
CINE SABESP
29/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1013 (Terça)
29/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1013 (Terça)
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