Começa a corrida às últimas atrações
- Por Equipe Cineweb
- 27/10/2013
- Tempo de leitura 34 minutos
Na semana de encerramento da Mostra, é tempo de correr para não perder as últimas atrações, como a última exibição do grande vencedor do Festival de Berlim, o drama romeno Child’s Pose, e também os filmes que começam a ser exibidos na reta final, caso do clássico italiano O Deserto dos Tártaros, e do concorrente argentino a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro 2014, Wakolda. Esta e outras indicações a seguir.

Child’s Pose
Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013, este terceiro longa-metragem do diretor romeno Calin Peter Netzer retrata a relação entre uma mãe dominadora e seu filho único, já adulto. A mãe em questão é Cornelia, interpretada por Luminita Gheorghiu, atriz presente em quase todas as produções romenas que obtiveram destaque no cenário mundial (ela participa, por exemplo de 4 Meses, 3 semanas e 2 dias, Palma de Ouro em Cannes em 2007).
Child’s Pose é o primeiro longa-metragem que ela protagoniza, e o faz de maneira absolutamente consistente ao assumir com grande naturalidade o papel de uma mãe que não admite que lhe imponham limites no que se refere à sua relação com o filho, Barbu (Bogdan Dumitrache que, em 2011, recebeu o Leopardo de melhor ator em Locarno por sua atuação em Melhores Intenções, de Adrian Sitaru).
Cornelia simplesmente não admite que ele tenha saído de casa e, ainda mais, para viver com «
aquela criatura
», ou seja, sua namorada Carmen (Ilinca Goia). Na impossibilidade de ter acesso livre à casa deles, ela não se intimida de convidar sua empregada para tomar um café, a fim de perguntar aspectos ligados à rotina daquela outra casa, onde ela igualmente trabalha.
aquela criatura
», ou seja, sua namorada Carmen (Ilinca Goia). Na impossibilidade de ter acesso livre à casa deles, ela não se intimida de convidar sua empregada para tomar um café, a fim de perguntar aspectos ligados à rotina daquela outra casa, onde ela igualmente trabalha.
Estas relações familiares vão passar por mudanças a partir do momento que Barbu envolve-se em um acidente de carro. Este contexto faz com que Cornelia sinta-se legitimada para mover montanhas a fim de garantir o bem-estar do filho.
Mas o filme não se limita à questão mãe/filho pois, no momento em que Cornelia vai à delegacia, a fratura social existente entre as classes sociais é revelada afinal. A outra família envolvida é muito mais pobre do que a família de Barbu. E este, em função da maneira como foi criado, pensa ser natural o fato de quem tem mais recursos possua mais direitos, mais voz, mais mecanismos de defesa (e de ataque também). (Plinio Ribeiro Jr.)
Indicação: 12 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 1
28/10/2013 - 17:30 - Sessão: 949 (Segunda)
28/10/2013 - 17:30 - Sessão: 949 (Segunda)

Wakolda
Selecionado como candidato argentino para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Wakolda tem como foco não apenas a passagem do médico nazista Josef Mengele pela Argentina, mas também como a própria comunidade alemã de lá colaborou para sua clandestinidade, que mais tarde acabaria no Brasil.
Baseada no livro da própria diretora do longa, Lúcia Puenzo (de XXY e O Menino-Peixe), a história se passa no final da década de 1950, perto de Bariloche. Ela é narrada pela jovem Lilith (Florencia Bado), que conta a relação entre sua família e um estranho médico alemão (Àlex Brendemühl).
A princípio, o estrangeiro mostra-se curioso com o caso de Lilith, que aparentemente não cresce (tem 13 anos, mas parece ter 9). Porém, os interesses do alemão voltam-se para o resto da família, em especial da mãe Eva (Natalia Oreiro), grávida de gêmeos.
Protegido pela comunidade alemã na região, Mengele faz livremente suas experiências com esta família. Isso até uma espiã (a argentina Elena Roger, também famosa cantora da Broadway) do serviço de inteligência israelense, o Mossad, indicar seu paradeiro.
Embora fale de Mengele, o filme e o livro, na verdade, transcorrem no período em que se perdeu o rastro do chamado ”Anjo da Morte”. Embora não seja documental, reafirma a complacência argentina, que não só, supostamente, recebeu criminosos nazistas, como também seu dinheiro, como denunciou o documentário Oro Nazista en Argentina, do diretor Rodolfo Pereyra (28a Mostra de Cinema de São Paulo, em 2004).
(Rodrigo Zavala)
Indicação: 12 anos
RESERVA CULTURAL 1
28/10/2013 - 20:00 - Sessão: 964 (Segunda)
28/10/2013 - 20:00 - Sessão: 964 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1
29/10/2013 - 16:20 - Sessão: 1033 (Terça)
29/10/2013 - 16:20 - Sessão: 1033 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 1
30/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1080 (Quarta)
30/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1080 (Quarta)
CINE SABESP
31/10/2013 - 16:30 - Sessão: 1197 (Quinta)
31/10/2013 - 16:30 - Sessão: 1197 (Quinta)

Até que a Sbórnia nos Separe
Partindo do espetáculo teatral Tangos & Tragédias, de Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky, os diretores Otto Guerra (Wood & Stock: Sexo, Orégano e Rock'n Roll) e Ennio Torresan Jr.
gastaram oito anos na difícil confecção deste longa de animação, exibido no Festival de Gramado.Muito inventivo visualmente e tomando rumos narrativos que as animações em geral não tomam, o filme mostrou-se uma distopia retrô, uma fantasia sombria para adultos.
gastaram oito anos na difícil confecção deste longa de animação, exibido no Festival de Gramado.Muito inventivo visualmente e tomando rumos narrativos que as animações em geral não tomam, o filme mostrou-se uma distopia retrô, uma fantasia sombria para adultos.
Inúmeras metáforas políticas impregnam ao argumento central da história, que se inicia pela queda de um muro que separava a ilha de Sbórnia do resto do mundo. Primitiva em seus costumes e crenças, a ilha, com óbvias semelhanças com a antiga União Soviética e países da Europa do Leste, sofre um choque pela entrada brusca do capitalismo selvagem, que se apropria avidamente da exploração de uma substância local, o bizuim, preparando o caminho da catástrofe ecológica e humana.
No meio de tudo, há um romance proibido, entre um dos músicos sbornianos, Pletskaia, e a filha do capitalista-mor, Coclicot, que serve para mover a trama – que, afinal, mostra-se um tanto caótica, sem contar o excesso de gritaria e barulho em cena. Faltou equilibrar um pouco esse ruído e o ritmo, até porque, tecnicamente, a animação é de primeira. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
FAAP
28/10/2013 - 09:30 - Sessão: 973 (Segunda)
28/10/2013 - 09:30 - Sessão: 973 (Segunda)

Sunshine Boys
Dentro de uma boa quantidade de filmes coreanos na Mostra, este segundo trabalho do diretor Kim Tae-gon destaca-se pelo frescor e a naturalidade com que retrata a passagem à vida adulta de três rapazes, que foram colegas de colégio. Filho de um pai que foi parar na cadeia por fraude financeira e sem poder ir para a universidade, Min-wook torna-se soldado. Para aproveitar uma folga dele, seus colegas Sang-won e Seung-jun viajam para passar o fim-de-semana com ele. Sang-won está cursando a universidade e Seung-jun, fazendo o pré-vestibular.
A camaradagem do trio é imediatamente retomada quando se encontram para este fim-de-semana em que os colegas de fora fazem de tudo para que Min-wook se divirta. A ideia é que todo mundo se embebede e, tendo sorte, se dê bem com alguma garota. A tentativa de romance leva os três a uma arapuca, uma boate em que duas moças fazem de tudo para que eles gastem tudo o que têm – e o que não têm. Nenhuma grande tragédia, no entanto, no caminho destes quase meninos, empenhados na tarefa doce-amarga de viver, descobrir, crescer. (Neusa Barbosa)
Indicação: 18 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 5
28/10/2013 - 22:00 - Sessão: 983 (Segunda)
28/10/2013 - 22:00 - Sessão: 983 (Segunda)
CINEMATECA - SALA PETROBRAS
30/10/2013 - 20:45 - Sessão: 1112 (Quarta)
30/10/2013 - 20:45 - Sessão: 1112 (Quarta)
Tom na Fazenda
Adaptando peça do autor Michel Marc Bouchard, o enfant terrible mais valorizado do cinema canadense, Xavier Dolan, abre várias frentes, mistura tons e gêneros, do suspense ao melodrama, mas finalmente sucumbe à egotrip que costuma contaminar os filmes deste jovem e até talentoso ator e diretor, de 24 anos, premiado em sua estreia precoce na Quinzena dos Realizadores de Cannes, com Eu Matei a Minha Mãe (2009).
Como sempre, Xavier protagoniza e dirige, interpretando Tom, jovem publicitário que viaja ao interior, para o funeral de seu namorado, tornando-se virtual prisioneiro – por vontade própria – de uma sufocante fazenda, manipulado pelo violento irmão do namorado, Francis (Pierre-Yves Cardinal), e a mãe dele, Agathe (Lise Roy).
Dolan é uma centrífuga de influências, mas ainda digere mal. Não faltam bons momentos ao que poderia ser um ótimo thriller psicológico. O filme é irregular, mas o carismático monsieur Dolan tem seus fãs. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
28/10/2013 - 22:10 - Sessão: 919 (Segunda)
28/10/2013 - 22:10 - Sessão: 919 (Segunda)
CINE LIVRARIA CULTURA 1
30/10/2013 - 21:40 - Sessão: 1117 (Quarta)
30/10/2013 - 21:40 - Sessão: 1117 (Quarta)

Amor, plástico e barulho
Vencedor de três prêmios no Festival de Brasília, a produção pernambucana traz a história de Shelly (Nash Laila), uma jovem dançarina de uma banda da cena brega local, que sonha tornar-se uma cantora famosa. Dentro daquele show business periférico, ela conhece os mecanismos dessa indústria musical e suas consequências por meio de Jaqueline (Maeve Jinkings), vocalista do grupo, que é sua ídola e rival. A cantora já em decadência, ainda na flor da idade, representa o quanto, não só nesse tipo de música, mas também em outros gêneros e áreas culturais, o sucesso é efêmero, como diz a própria personagem em uma das cenas, comparando-se a um copinho de plástico, que é usado até a última gota – processo em que a mídia tem papel fundamental – antes de ser amassado e jogado fora.
Se o “Barulho” do título, representado pela música brega, torna-se obsoleto rapidamente, o “Amor” que o acompanha também revela que as relações humanas se tornaram tão descartáveis quanto o “Plástico”, a partir do momento em que os envolvimentos amorosos acontecem, fugazmente, por conveniência e o corpo, especialmente feminino neste caso, se transforma em objeto para esses interesses. A descartabilidade da sociedade também é representada na constante inserção de vídeos de internet, cuja resolução foi piorada ainda mais, como forma de mostrar o quanto a ditadura atual do tempo gera quantidade e muito pouca qualidade.
O “Barulho” também traz em si o som de um ambiente urbano em transformação por causa da especulação imobiliária. Por isso a inclusão dos vídeos sobre a construção e inauguração de um shopping na periferia de Recife, já que se trata de um templo do consumismo, sendo este último o cerne desse processo de obsolescência, onde até a cidade é descartável.
Não espere, porém, uma comédia. Amor, Plástico e Barulho tem seus momentos cômicos, mas diferentemente de Cheias de Charme, novela da Rede Globo que apresentava o lado alegre e “over” do brega, o longa de Renata Pinheiro carrega o lado sofrido característico das raízes do gênero, com Reginaldo Rossi e Odair José, por exemplo. A cena mais representativa disso é a que em Jaqueline canta Chupa Que É de Uva, que ficou conhecida nacionalmente na versão cheia de malícia do grupo Aviões do Forró, em uma interpretação totalmente contida e melancólica.
Essa e outras sequências trazem Maeve Jinkings em atuação marcante como a estrela em decadência, que se afastou de tudo para lutar pelo sucesso. O trabalho notável dela e de sua colega de cena, Nash Laila, ambas premiadas em Brasília, fica ainda mais evidente nos muitos primeiros planos da fotografia do argentino Fernando Lockett. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5
28/10/2013 - 14:00 - Sessão: 930 (Segunda)
28/10/2013 - 14:00 - Sessão: 930 (Segunda)
CINE LIVRARIA CULTURA 2
29/10/2013 - 17:45 - Sessão: 1029 (Terça)
29/10/2013 - 17:45 - Sessão: 1029 (Terça)

O Deserto dos Tártaros
Adaptado brilhantemente pelo cineasta italiano Valerio Zurlini do romance homônimo de Dino Buzzati, o filme de 1976 ressurge na tela com todas as cores, numa excelente restauração. Oportunidade de ouro para ver ou rever a história intrigante do tenente Drogo (Jacques Perrin), mandado em sua primeira missão para servir num forte distante, na fronteira de um deserto, aonde pende a ameaça de uma sempre iminente invasão dos tártaros. O compasso de espera por essa ameaça que nunca se materializa começa a afetar o espírito do jovem militar, num ambiente contaminado pela estranheza do comportamento dos oficiais. Elenco estelar, integrado por Vittorio Gassman, Philippe Noiret, Max von Sydow, Fernando Rabal e Giuliano Gemma, entre outros. Poucos diretores souberam materializar o vazio e o nada de uma espera como Zurlini nesta que é uma de suas obras magistrais. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
28/10/2013 - 15:20 - Sessão: 916 (Segunda)
28/10/2013 - 15:20 - Sessão: 916 (Segunda)
CINESESC
29/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1045 (Terça)
29/10/2013 - 21:00 - Sessão: 1045 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
30/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1086 (Quarta)
30/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1086 (Quarta)
CINESESC
31/10/2013 - 14:30 - Sessão: 1228 (Quinta)
31/10/2013 - 14:30 - Sessão: 1228 (Quinta)

Habi, a Estrangeira
A coprodução entre Argentina e Brasil apresenta uma intrigante busca de reinvenção da própria identidade por parte de uma jovem de 20 anos (Martina Jucadella). Vivendo no interior, ela vem a Buenos Aires para entregar algumas peças de artesanato. No local da entrega, acontece um funeral muçulmano. Ela sente-se atraída àquele mundo e resolve mudar seus planos.
Ao invés de voltar para casa, como previsto, ela aluga um quarto numa pensão barata, identifica-se como Habiba Rafat e arranja emprego numa pequena mercearia pertencente a um libanês. Além disso, arruma um figurino muçulmano, voltando ao centro para receber aulas de árabe e religião.
Ocultando do espectador os pensamentos de Habiba, o filme da estreante María Florencia Álvarez instala um jogo que pretende estimular a participação do público para imaginar o que há por trás das lacunas. Deixa no ar a dúvida, por exemplo, de que Habi possa ter vindo à cidade com um propósito mais definido, em busca do esclarecimento de uma história de seu passado, que pode incluir Hassan (Martin Slipak), filho de seu patrão.
Uma trama paralela envolve Habi com sua vizinha de quarto na pensão, a atormentada Margarita (Maria Luísa Mendonça), que vive uma relação conturbada com Horacio (Diego Velásquez).
No mais, trata-se de um filme de iniciação e aprendizado, tanto para a protagonista, quanto para a diretora e roteirista. A referência a uma pequena comunidade muçulmana na América do Sul também é oportuna, já que muito pouco abordada
Indicação: Livre.
RESERVA CULTURAL 1
28/10/2013 - 18:10 - Sessão: 963 (Segunda)
28/10/2013 - 18:10 - Sessão: 963 (Segunda)

São Silvestre
O novo e inédito filme da diretora paulistana Lina Chamie é uma experiência pessoal pela pele de seus protagonistas, um deles o ator Fernando Alves Pinto, e por paisagens da cidade de São Paulo, como o Minhocão, a avenida Paulista, o Teatro Municipal e outros pontos estratégicos do percurso desta que é a principal corrida da capital paulistana, a São Silvestre.
A experiência de estar dentro da maratona é transmitida visceralmente pelo filme, já que Fernando realmente participou da prova, tendo uma câmera acoplada ao próprio corpo. Sabiamente, Lina explora os pontos de vista, incorporando personagens à sua volta, outros corredores, pessoas que assistem, cenas da cidade enquanto a prova acontece. Tudo isso em tempo real, desde a manhã, antes de tudo começar, quando o dia amanhece, até o desenrolar da prova mesma.
Lina procura uma linguagem para o que quer mostrar, tentando instaurar um novo olhar sobre algo já tão conhecido e midiatizado. Por isso, seu filme é uma experiência sensorial diferente. Vale tentar. (Neusa Barbosa)
Indicação: Livre.
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1
28/10/2013 - 22:20 - Sessão: 960 (Segunda)
28/10/2013 - 22:20 - Sessão: 960 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5
29/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1005 (Terça)
29/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1005 (Terça)

Ana Arabia
O engajado cineasta israelense Amos Gitai atingiu o alvo com a habitual mistura de maestria e delicadeza neste drama político
Ana Arabia, que retoma o tema da convivência conflituosa entre árabes e judeus. Se o tema é recorrente em sua cinematografia (como emKedma
e
Free Zone), é sinal de que essa realidade brutal e incômoda não se esgota e necessita mesmo ser abordada, hoje, amanhã, todo o tempo, enquanto não se resolver o impasse que atormenta esse pedaço do mundo.
Ana Arabia, que retoma o tema da convivência conflituosa entre árabes e judeus. Se o tema é recorrente em sua cinematografia (como emKedma
e
Free Zone), é sinal de que essa realidade brutal e incômoda não se esgota e necessita mesmo ser abordada, hoje, amanhã, todo o tempo, enquanto não se resolver o impasse que atormenta esse pedaço do mundo.
Filmando em plano-sequência contínuo por uma hora e 24 minutos, Gitai cria uma sutil sofisticação formal (também não inédita, inclusive em sua obra). O recurso está ali não por virtuosismo ou vaidade, mas como ferramenta eficiente para acompanhar a visita de uma jovem repórter israelense, Yael (Yuval Scharf), a um bairro pobre de Jerusalém, habitado em sua maioria por árabes muçulmanos. Ela vem ali resgatar a história de uma mulher que morreu, Siam Hassan, uma judia polonesa, sobrevivente de Auschwitz que, ainda muito jovem, se apaixonou por um muçulmano e se converteu, sofrendo todo tipo de pressões por parte da família.
Yael entrevista o viúvo, Yussuf (Yussuf Abu-Warda), seus filhos, a nora Sarah (Assi Levy) – outra judia que se casou com muçulmano -, os filhos de Yussuf, os vizinhos. Aos poucos, descobre histórias ali que valem a pena, tanto quanto a de Siam. Nestes relatos, está a memória da discriminação contra os árabes – mais maltratados do que os recentes imigrantes russos, como lembra um deles -, vivendo pobremente, com trabalhos instáveis, numa espécie de favela, onde eles tentam, apesar de tudo, criar uma zona de conforto e uma rede de solidariedade, o que não exclui a repórter. Afinal, ela se dispôs a ouvi-los.
Nessa estrutura bastante simples, a partir de um roteiro escrito por Gitai e sua habitual colaboradora, Marie-Josée Sanselme, o diretor assina mais um manifesto humanista. Não faz mal a ninguém ouvir de novo o recado. (Neusa Barbosa)
Indicação: livre.
CINE LIVRARIA CULTURA 1
28/10/2013 - 19:40 - Sessão: 950 (Segunda)
28/10/2013 - 19:40 - Sessão: 950 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4
29/10/2013 - 15:50 - Sessão: 1001 (Terça)
29/10/2013 - 15:50 - Sessão: 1001 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 5
30/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1095 (Quarta)
30/10/2013 - 14:00 - Sessão: 1095 (Quarta)
CINUSP - MINDLIN
31/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1262 (Quinta)
31/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1262 (Quinta)
Só a raridade de uma produção proveniente do Casaquistão justificaria a curiosidade em torno deste filme, do diretor estreante Emir Baigazin, que coleciona prêmios por vários festivais internacionais. A começar por Berlim 2013, em que a fotografia excepcional de Aziz Zhambakyiev garantiu um Urso de Prata pela contribuição artística.
De fato, a fotografia em preto-e-branco e uma iluminação com apuro extremo são ingredientes relevantes neste inquietante retrato contemporâneo da ex-república soviética, um país muçulmano, em que adolescentes de uma escola são atormentados por bullying e criminalidade organizada, protagonizada por outros jovens, todos alunos ali.
A instituição é, visivelmente, um microcosmo de uma sociedade devastada, em que outras instituições, como a polícia, mostram-se igualmente inoperantes, além de violentas. Todo o elenco é formado por dedicados jovens amadores, caso também do protagonista Aslan (Timur Aidarbekov, que vivia num orfanato até ser selecionado para o filme).
Aslan é um garoto tímido, criado pela avó, ótimo aluno, mas que sofre um processo de isolamento depois de submetido a uma brincadeira humilhante, quando se realizavam exames médicos na escola. Bolat (Aslan Anatbayev), o valentão do pedaço, ordena a todos os demais alunos - que ele extorque e maltrata fisicamente, com a ajuda de seus “capangas” - não falem mais com Aslan, que assim mergulha numa solidão ainda maior. Um pacto de silêncio encobre dos professores, burocraticamente desatentos, a real situação.
A chegada de um novato na classe, Mirsayin (Muktar Andassov), proporciona um novo amigo a Aslan. Mas é também a partir de sua vinda que se precipitam uma série de conflitos no enfrentamento contra Bolat e sua gangue.
O filme eventualmente extrapola este universo escolar ao revelar para quem é destinada parte substancial dessa extorsão cotidiana – como alunos mais velhos e também um intermediário que levanta fundos para os “irmãos” presos. Pode-se muito bem supor que futuro esperar de uma mistura assim explosiva.
(Neusa Barbosa)
(Neusa Barbosa)
Indicação: 18 anos.
CINE SABESP -
28/10/2013 - 14:00 - Sessão: 935 (Segunda)
28/10/2013 - 14:00 - Sessão: 935 (Segunda)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 5 29/10/2013 - 18:00 - Sessão: 1072 (Terça)
O Grande Mestre
O cultuado cineasta Wong Kar-Wai volta a um universo parecido com aquele de seu Cinzas do Tempo (1996, e relançado numa outra versão em 2009), em seu novo O Grande Mestre. O mundo das artes marciais são o pretexto para as pirotecnias visuais do diretor, e outro tanto como metáfora para as relações humanas – especialmente as amorosas, terreno sempre explorado nos seus filmes.
A trama – assinada pelo diretor e Zou Jingzhi e Xu Haofeng – se inspira na história real de Ip Man (Tony Leung), figura que ficou conhecida como mestre de Bruce Lee, e começa quando, no final da década de 1930, ele derrota Gong Yutian (Wang Qingxiang), cuja filha, Gong Er (Ziyi Zhang), promete vingança.
Arma-se, então, as tramas com que o diretor costuma trabalhar, com amores reprimidos e desencontrados, vinganças repletas de paradoxos e a contenção de sentimentos. Se as idas e vindas na trama não são fáceis de se acompanhar, o cineasta compensa isso com imagens do mais alto apuro técnico e estético – sua marca registrada, assim como a câmera lenta.
O filme tem previsão de estreia para o primeiro trimestre de 2014. (Alysson Oliveira)
Indicação: 18 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPEIA 1
-28/10/2013 - 21:30 - Sessão: 971 (Segunda)
-28/10/2013 - 21:30 - Sessão: 971 (Segunda)
RESERVA CULTURAL 1
-29/10/2013 - 19:10 - Sessão: 1040 (Terça)
-29/10/2013 - 19:10 - Sessão: 1040 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4-31/10/2013 - 16:00 - Sessão: 1187 (Quinta)
Run & Jump
Vários profissionais, como antropólogos, jornalistas e documentaristas, vivem o dilema da aproximação do seu objeto de estudo, pois, na mesma medida em que é necessário para melhor observação, há o risco de alterar o comportamento das pessoas observadas e comprometer a si próprio. Em Run & Jump, o neurologista Ted (Will Forte) vive essa situação contraditória ao acompanhar a reintrodução de Conor (Edward MacLiam), um paciente com graves sequelas após sofrer um derrame, no núcleo familiar.
A distância que o médico mantinha no início da sua pesquisa vai diminuindo à medida que ele percebe a maneira como o novo comportamento de Conor afeta a vida da família dele. O paciente demonstra certa falta de senso, repetição de ações e um tratamento ofensivo ao filho Lenny, que é homossexual. A esposa, a otimista Vanetia (Maxine Peake), insiste, assim como age com o seu adaptador quebrado de CD para o toca-fita do carro, que as velhas coisas funcionem, tentando impor que o marido volte a ser como antes, o que se mostra impossível. Tamanho impacto faz com que o cientista se aproxime demais dos membros dessa família, provocando transformações em todos que estão à sua volta e nele mesmo.
No papel extremamente contido de Ted, o comediante Will Forte mostra competência com sua verve dramática, que repetiu no ainda inédito Nebraska, de Alexander Payne. A diretora Steph Green, que teve seu curta New Boy indicado ao Oscar em 2009, também demonstra capacidade ao conduzir essa história, com todas as nuances de drama e pitadas de comédia em um filme que facilmente provoca risos, silêncios, e lágrimas – daqueles mais emotivos – no público. A trilha sonora acompanha esses altos e baixos do longa, que tem um de seus trunfos na fotografia de Kevin Richey, de tom amarelado e com uma iluminação incidente nos personagens que muda no decorrer das cenas dentro do mesmo ambiente interno da casa. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
CINEMARK – SHOPPING CIDADE JARDIM 6
28/10/2013 – 19:00 – Sessão: 976 (Segunda)
28/10/2013 – 19:00 – Sessão: 976 (Segunda)
Leia também:
Cães Errantes
O diretor malaio Tsai Ming Liang merecia até ter levado o segundo Leão de Ouro em sua carreira (o primeiro foi por Vive L’Amour, 1994), mas ficou mesmo com o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza deste ano. Assina aqui um drama sobre uma família despossuída de Taipei, desdobrado numa série de magníficas sequências, alinhando diversos fotogramas dignos de permanecer fixos nas retinas e na memória.
Lee Kang Sheng, o ator-fetiche de outros signos da filmografia deste diretor, como O Rio (97), O Buraco (98) E Lá, Que Horas São? (2002) é, mais uma vez, o protagonista, interpretando mais com o próprio corpo e o rosto, com poucas palavras, um homem que sobrevive precariamente segurando placas de propaganda num farol, por horas, em Taipei. Ele nada tem de seu, apenas esse corpo maltratado por uma vida indigna, umas poucas roupas e seus dois filhos.
Trata-se de uma família partida – a mulher os abandonou. É um dado intrigante que haja três mulheres ao longo da história (Yang Kuei Mei, Lu Yi Ching e Chen Shiang Chyi) se alternando, às vezes transgredindo o realismo, como uma (ou várias) figuras femininas que interagem com o homem e as crianças.
Os cenários, em locais arruinados – marca registrada do diretor -, são outro dado intrigante de uma narrativa que se estende, pela manutenção da câmera parada num plano por vários minutos. Todo o tempo, Cães Errantes dialoga com o próprio tempo, com o silêncio, a existência destas pessoas, afrontando o despojamento e a feiúra de seu cotidiano com atitudes intrigantes, patéticas, ternas, desesperadas. (Neusa Barbosa)
Indicação: 18 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 1
28/10/2013 - 21:40 - Sessão: 951 (Segunda)
28/10/2013 - 21:40 - Sessão: 951 (Segunda)
RESERVA CULTURAL 1
29/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1041 (Terça)
29/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1041 (Terça)
O Intrépido
Retrato dolorido da Itália (e não só) contemporânea, crônica cálida sobre o trabalho precário, o filme do italiano Gianni Amelio, que competiu em Veneza 2013, é continuamente infiltrado pela doçura, pela esperança, mas não pela pieguice, felizmente. Antonio Albanese, um ator muito dotado, constrói em Antonio Pane um personagem complexo e sutil, que caminha numa linha fina. O mais fácil seria tornar amargo este homem, entrando nos 50 anos, dotado de alguma cultura e experiência profissional, mas que não acha outro meio de sobrevivência do que se tornar um substituto contumaz, em todo e qualquer tipo de função.
Se é inegável o tom político no desenvolvimento da história, que se passa na Milão dos dias atuais, há também uma procura constante de contrabalançar o negativismo, como o diretor reconheceu, na coletiva em Veneza. Indagado se o final da história seria “consolador”, Amelio admitiu: “Tenho necessidade de ser consolado, de não deixar simplesmente um gosto amargo na boca. Quando se vê um filme, também se quer sonhar um pouco”.
O diretor também reconheceu o parentesco do personagem de Antonio Pane com Charles Chaplin, em sua busca infinita de dignidade, de seguir em frente, haja o que houver. E também a filiação, que ele diz não ter percebido antes, com Cesare Zavattini, o emblemático roteirista do Neorrealismo.
Certamente, O Intrépido se insere na nobre tradição neorrealista com a devida atualização para os sombrios tempos atuais, com sua crise econômica interminável, seu desemprego endêmico, mesmo na desenvolvida Europa. O Intrépido filia-se, também, à tradição do cinema político italiano, aquela mesma de Elio Petri e Francesco Rosi, mas apropriada por Amelio mais pela chave do melodrama, do humanismo ao estilo dele.
Se à primeira vista não se mostra tão contundente quanto outros trabalhos do diretor, como Assim Eles Riam, além de Lamerica ou Ladrão de Crianças, O Intrépido abre uma outra chave na cinematografia de Amelio – ele quer ter esperança e adere a ela com uma tenacidade indomável, assim como seu protagonista, um ator admirável. (Neusa Barbosa)
Indicação: 16 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
28/10/2013 - 20:00 - Sessão: 923 (Segunda)
28/10/2013 - 20:00 - Sessão: 923 (Segunda)
CINESESC
30/10/2013 - 16:55 - Sessão: 1134 (Quarta)
30/10/2013 - 16:55 - Sessão: 1134 (Quarta)
A bela vida
Sylvain (Zacharie Chasseriaud) e Pierre (Jules Pélissier) são adolescentes vivem bem com o pai, Yves (Nicolas Bouchaud), numa região isolada. Cuidam de animais, plantam e se sustentam. É um paraíso que, na verdade, esconde o triste passado do trio. Anos atrás, Yves roubou os meninos de sua ex-mulher, e desde então, vivem mudando de cidade e nome para fugir da polícia. Os garotos não se importam com essa situação e não parecem cogitar uma fuga.
Porém, depois que Pierre se envolve numa briga, ele desaparece. Yves e Sylvain encontram abrigo numa floresta ao lado de um rio, perto de uma pequena vila de veraneio. Sylvain irá conhecer uma garota, Gilda (Solène Rigot), filha de uma família burguesa, mas também em crise com o pai e madrasta, e amizade logo surge – assim como um sentimento mais forte.
Não é por acaso que os personagens do filme de Jean Denizot leem As aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain. Sylvain e o pai vivem o mesmo espírito aventureiro e experimentam a liberdade com a fuga e o isolamento. O diretor constrói um filme em que é fácil simpatizar com o protagonista e seus dilemas e desejos. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
28/10/2013 - 18:10 - Sessão: 922 (Segunda)
28/10/2013 - 18:10 - Sessão: 922 (Segunda)
Casadentro
O filme peruano
é um pequeno milagre – especialmente em sua capacidade de observação das relações humanas e da solidão, mesmo quando se está cercado pela família. O título já entrega: é um filme que acontece nas dependências de uma casa de classe média numa região urbana qualquer de seu país. O nome da protagonista, Pilar (Élide Brero), obviamente não é uma escolha gratuita.
é um pequeno milagre – especialmente em sua capacidade de observação das relações humanas e da solidão, mesmo quando se está cercado pela família. O título já entrega: é um filme que acontece nas dependências de uma casa de classe média numa região urbana qualquer de seu país. O nome da protagonista, Pilar (Élide Brero), obviamente não é uma escolha gratuita.
Com quase 81 anos, ela mora em sua casa com uma agregada, Consuelo (Delfina Paredes), a jovem empregada, Milagros (Stephanie Orúe), e sua cachorrinha Tuna, o ser a quem ela mais ama no mundo. A diretora Joanna Lombardi, que também assina o roteiro, cria o drama sem pressa, constrói os personagens, cada um com seus pequenos dilemas, e faz um retrato do cotidiano do quarteto que está prestes a sofrer um pequeno abalo.
No dia anterior ao aniversário de Pilar, chegam sua filha, a neta com o marido e um bebê recém-nascido. A rotina da casa ganha novos contornos. Milagros, por exemplo, não consegue sua folga, e a pequena Tuna é obrigada a dormir fora de casa, no galinheiro, para não atrapalhar o sono do bebê. Em seu filme, a diretora não busca grandes epifanias, mas pinta pequenas miniaturas de personagens comuns, mas com um contorno especial. No ano passado, o filme ganhou dois prêmios no Festival de Montreal. (Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
CINEMATECA - SALA PETROBRAS -28/10/2013 - 17:05 - Sessão: 944 (Segunda)
Outras informações no site da Mostra
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