21/07/2026

A seriedade entra no tapete vermelho em Cannes


Uma nota mais sombria se insinuou na seleção de Cannes, aumentando não só o nível da seriedade temática como as apostas em premiações. Este foi o caso de dois concorrentes à Palma de Ouro, o drama de guerra húngaro Son of Saul, do cineasta estreante Lazlo Nemes, e, como se esperava, da distopia The Lobster, do grego Yorgos Lanthimos (do visceral Dente Canino).
Fora de competição, o jogo foi mais diversificado, já que hoje é o dia das sessões do novo Woody Allen – e sua comédia Irrational Man - e também do primeiro longa da atriz Natalie Portman, A Tale of Love and Darkness, em torno de obra autobiográfica do escritor Amos Oz.


No olho do pesadelo
Com impressionante segurança, o diretor estreante Lazlo Nemes (que foi assistente do veterano Bela Tárr), conduziu os espectadores de Son of Saul ao centro do inominável horror dos campos de concentração., mas não de uma forma convencional, Com uma câmera febrilmente colada ao corpo de seu protagonista, Saul (Reza Gohrig) e desfocando o seu entorno, Nemes coloca quem assiste na perspectiva deste homem subjugado, que é um “sonderkommando”, ou seja, um dos responsáveis pelo massacrante trabalho diário de remover as roupas e objetos pessoais das vítimas das câmaras de gás, e depois seus corpos. Também é um dos faxineiros dessas câmaras.


Embora o tema seja recorrente, Nemes conseguiu injetar frescor nesta abordagem, o que torna a jornada de Saul mais vital e próxima de quem a compartilha, até por levar em pensar em detalhes da vida num campo de concentração normalmente não muito enfatizados. Um único evento dramático, afinal, sacode a letargia de Saul – ele encontra, entre as vítimas de uma cremação, um menino, que acredita ser seu filho. A partir daí, sua única obsessão é encontrar um modo de sepultá-lo dignamente, seguindo os ritos religiosos judaicos.
Este único desejo, temerário, quase irracional num contexto em que a sobrevivência requer toda a energia, e os inimigos não são somente os nazistas – também os “kapi”, chefetes de setor, que são prisioneiros, exploram e submetem os demais -, é eloquente para tratar do verdadeiro tema do filme, que é o resgate da dignidade numa situação em que sua perda é o verdadeiro alvo dos opressores. O filme é forte, com um excelente trabalho de som – fundamental na trama. Já começaram os rumores de uma premiação, inclusive ao seu diretor, que concorre também ao Caméra d’Or (para iniciantes).

Caça aos solteiros
Coprodução internacional falada em inglês, a distopia grega The Lobster começa em clima de Jogos Vorazes, num tempo e lugar em que é proibido permanecer sozinho, solteiro ou divorciado. Quem está nesta situação, é deslocado a uma espécie de hotel, em que terá 45 dias para encontrar um parceiro/a. Terminado o prazo, a pessoa só poderá escolher em que animal quer se transformar.
Comandando, pela primeira vez, um elenco internacional – em que se destacam o irlandês Colin Farrell, a inglesa Rachel Weisz e a francesa Léa Seydoux – , o diretor Yorgos Lanthimos leva muito bem a primeira metade do filme, ambientada neste hotel governado por rituais civilizados apenas na aparência. Afinal, para ter direito a mais dias de prazo para encontrar um parceiro, os hóspedes são obrigados, diariamente, a sair na captura de alguns dos Solitários, que vivem fora destas leis, na floresta.
Na segunda parte, que focaliza o grupo dos Solitários – igualmente governados por regras rígidas, como não poderem beijar-se ou fazer sexo -, o ritmo cai, como se o roteiro (co-escrito por Lanthimos e Efthimis Filippou, como em Dente Canino) não tivesse dedicado a mesma energia à sua elaboração. Uma extrema crueldade e pessimismo governam as relações humanas, num mundo ritualístico, em que em parte alguma se observa um indício de rebelião – apenas os sentimentos, afinal, às vezes fogem a qualquer controle.


Memórias de Oz
Já o trabalho de Natalie Portman, que também atua em seu filme como Fania, a mãe de Amos Oz, é mais clássico e convencional, sem grandes voos, mas digno. Nem por isso a salvo de polêmicas, já que A Tale of Love and Darkness revisita não só a infância de Amos e como os primeiros tempos da fundação do Estado de Israel.
É visível o esforço da diretora, nascida em Israel, para respeitar as memórias de Oz – há frases literais dele no filme – e também para salientar a ideia de que eram previstos dois estados, um árabe, outro judeu, no território da Palestina que, nos anos 1940, era controlada pelos britânicos.
O germe deste projeto de convivência dos dois povos, lado a lado, é finalmente destroçado por uma realidade de violência de parte a parte (há cenas documentais inseridas nesta parte). Mas o filme, em boa parte, concentra-se sobretudo na ligação profunda de Amos e sua mãe, uma mulher idealista e romântica, também subjugada pela rotina e a depressão. O olhar de Oz e da diretora, afinal, mostra-se bastante feminista.