21/07/2026

Formalismo, humor romeno e pé na realidade inspiram reta final em Cannes

Já em seus útlimos dias, o festival assistiu, finalmente, a um candidato francês à Palma de Ouro que não embaraça os selecionadores – Dheepan, do veterano Jacques Audiard, que se debruça de maneira contundente sobre o tema da imigração e também da violência urbana que, neste momento, abala a Europa e também outros lugares do mundo.
Dheepan é o nome do protagonista, um imigrante do Sri-Lanka interpretado pelo escritor Anthonythasan Jesuthasan. Como seu personagem, o ator tem larga vivência anterior como ex-guerrilheiro da guerra civil que destroça seu país. Fugindo disso, ele forma uma falsa família com a jovem Yalini (Kalieaswari Srinovasan) e uma menina órfã de 9 anos, Illayaal (Claudine Vinasithamby), facilitando seu acolhimento como refugiados na França.
Uma vez na Europa, Dheepan acha alojamento e emprego como porteiro de um conjunto habitacional de periferia, dominado pelos traficantes. Tudo o que ele e a família precisam fazer para ter paz é ignorar o que fazem os criminosos à luz do dia – sem que se veja intervenção alguma da polícia. Mas, finalmente, a espiral de violência não os poupa.Dheepan
é um filme sobre engajamento, escolhas, autodefesa e busca de amor.

Nada ingênuo, nem melodramático, o filme de Audiard (Ferrugem e Osso,
O Profeta) é um instrumento de reflexão sobre o contemporâneo que não abre mão de sua natureza, ou seja, é cinema, não manual didático. O que só aumenta sua força.

Lutas imperiais
O veterano chinês Hou Hsiao Hsien (Millenium Mambo) gastou cerca de sete anos para produzir seu refinado drama de época The Assassin, em que conta a história de uma moça, Nie Yinniang (Shu Qi), raptada e treinada para tornar-se uma assassina e encarregada de matar um dos governantes a quem ela, quando criança, estava prometida como noiva.
As intrigas palacianas e as lutas marciais desenrolam-se recorrendo a uma fotografia e montagem extremamente bem-cuidadas, num ritmo compassado – que se tornou lento demais. Além disso, a dramaturgia é insuficiente para permitir acompanhar com clareza todos os lances desta luta pelo poder. O filme se esgota, praticamente, em sua estética. Difícil achar que o júri presidido pelos irmãos Coen vá se entusiasmar demais por sua premiação.
Tesouro romeno
Na seção Un Certain Regard, o romeno Corneliu Porumboiu (Polícia, Adjetivo) entregou em
Comoara
uma história de toque cômico, que acompanha um funcionário público, Costi (Cuzin Toma), associado a um vizinho arruinado, Adrian (Adrian Purcarescu), para buscar um suposto tesouro na velha casa de campo de seu avô. O enredo, na verdade, baseia-se em lendas familiares da vida do avô de Purcarescu.
Para permitir a prospecção do jardim da casa, Costi contrata um operador de detetor de metais (Corneliu Cozmei), tornando a aventura cada vez mais rocambolesca, dentro daquela contenção dramática comum aos filmes romenos, que às vezes faz lembrar de um Buster Keaton. Não é o melhor filme deste diretor mas, de vários modos, comenta também a crise econômica que varre a Europa com a ironia peculiar dos romenos.