Cannes 2015 decola com vibração humanista
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 13/05/2015
- Tempo de leitura 3 minutos
O 68º Festival deu a partida nesta quarta (13) com uma batida humanista e sentimental, a partir do filme de abertura – o drama francês La Tête Haute, de Emmanuelle Bercot (Ela Vai) – e o primeiro candidato à Palma de Ouro, o intimista Umimachi Diary (Notre petite soeur), do japonês Hirokazu Kore-eda.
Depois de ter começado a carreira com dramas inspirados pela morte – como o belo mas duro Maborosi,
a Luz da Ilusão (95) -, Kore-eda voltou-se à intimidade das relações humanas, como no recente Pais e Filhos, prêmio de Júri em Cannes há dois anos. Agora, ele traça o retrato de uma delicada fraternidade feminina. Três irmãs, filhas de um mesmo pai, que formou uma nova família há vários anos, descobrem uma irmã menor ao comparecerem ao funeral dele. Contra a expectativa, resolvem trazê-la para morar com elas.
a Luz da Ilusão (95) -, Kore-eda voltou-se à intimidade das relações humanas, como no recente Pais e Filhos, prêmio de Júri em Cannes há dois anos. Agora, ele traça o retrato de uma delicada fraternidade feminina. Três irmãs, filhas de um mesmo pai, que formou uma nova família há vários anos, descobrem uma irmã menor ao comparecerem ao funeral dele. Contra a expectativa, resolvem trazê-la para morar com elas.

Como vários mestres japoneses (a memória de Ozu e Yamada é inevitável), Kore-eda mantém essa capacidade de resgatar a grandeza e a complexidade existentes por trás do que é aparentemente simples e corriqueiro – como as separações, as brigas por heranças, as mágoas pelo que se deixou de dizer. Neste sentido, o filme tem eco universal, contando, além do mais com um excelente quarteto de intérpretes (Suzu Hirose, Haruka Ayane, Kaho e Masami Nasagawa).
Nem por isso, até pelas credenciais do diretor, se deixa de sentir que em alguns momentos o filme esgarça o seu fino tecido, aplainando demais os conflitos. Em todo caso, a estética de Kore-eda é, cada vez mais, a de uma delicadeza possível e até necessária. Talvez preparando os frequentadores do festival para a adrenalina que se anuncia no novo Mad Max – A Estrada da Fúria, em que o pai da criança, o veterano George Miller, tenta mostrar que não perdeu a mão de sua franquia. A conferir amanhã por aqui, logo na sessão matinal das 8h30.Se for bom, ninguém cochila.

Revolta juvenil
Em todo caso, não é nada ruim que um festival de tanto impacto comece justamente com o drama francês La Tête Haute, de Emmanuelle Bercot (fora de competição) – em que pese que se sente um excesso de filmes franceses na seleção, a boa e velha patriotada de volta à Croisette.
O que pode haver de positivo nesta escolha é que, por se tratar de um filme humanista, segue os esforços de uma juíza (Catherine Deneuve) e um assistente social (Benoit Magimel) em dar novas chances a uma adolescente aparentemente incorrigível (Rod Paradot), ele chega em boa hora numa Europa cada vez mais intransigente com as levas de imigrantes desesperados que batem em suas costas – e a sugestão da Inglaterra é, pura e simplesmente, enviar todos de volta aos seus países devastados pelas guerras e todo tipo de misérias.
Apropriado a promover este tipo de reflexão num continente cuja riqueza por vários séculos originou-se da exploração colonial, La Tête Haute, no entanto, não é grande cinema. Em força, originalidade, contundência e economia narrativa, fica anos-luz distante de O Filho, dos irmãos Dardenne, também premiado em Cannes (melhor ator para Olivier Gourmet e Prêmio Ecumênico). Em todo caso, o filme, que está previsto para abrir o Festival Varilux no Brasil, em junho, tem lá sua importância e valor, especialmente pela dedicação de seus atores. Também não deixa de ser um comentário sobre a tolerância – afinal, quantas chances se deve dar a um juveníssimo infrator menor de idade ? Em tempos em que se discute reduzir a maioridade penal, dentro de uma ótica autoritária, o filme também deve chegar ao Brasil em boa hora.
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