Zen, fúria e contos de fadas tomam Cannes
- Por Neusa Barbosa, de Cannes
- 14/05/2015
- Tempo de leitura 5 minutos
Com a passagem do primeiro italiano da competição à Palma de Ouro, Il Racconto dei Racconti (fotos ao lado e abaixo), de Matteo Garrone, que revisita o mundo dos contos de fadas, começa a definir-se uma das linhas da seleção de Cannes este ano, sintonizada com algumas tentativas de renovação do cinema comercial, que quer ser mais original mas não deixar de seduzir o público.
Nem por situar-se no campo das fábulas o filme de Garrone se pretende infantil. Aliás, justamente uma das dificuldades que se enxerga à primeira vista nesta livre interpretação de alguns contos do autor italiano Giambattista Basile, que teriam inspirado fábulas famosas como Rapunzel, Cinderela e Bela Adormecida, é justamente identificar seu público. Porque o mundo um tanto sinistro, outro tanto devasso destas narrativas certamente visa no mínimo adolescentes da era do videogame, que poderão ou não encantar-se com o fundo fantástico, mas com um tempero um pouco nostálgico por trás dstes personagens de reis, rainhas, princesas, camponeses e bruxas.
Em todo caso, é certo que dois pontos altos estão no elenco estelar internacional e nos bons efeitos especiais e direção de arte, fundamentais para a credibilidade de histórias deste tipo. O enredo decola com a obsessão de uma rainha espanhola (Salma Hayek) para tornar-se mãe, o que a leva a recorrer aos serviços de um bruxo, o que leva a que o rei (John C. Reilly) se lance na caça a um monstro marinho, para obter-lhe o coração, essencial no preparo do feitiço que engravidará a rainha.
A façanha custa a vida do rei, mas dá certo, com o nascimento quase imediato de um príncipe herdeiro (Christian Lees). Ao mesmo tempo, a camponesa virgem que preparou o coração do monstro para a rainha também engravidou magicamente e teve outro menino (Jonah Lees). Ambos idênticos, com cabelos e pele muito brancos, eles demonstrarão uma identidade inquietante para a rainha-mãe.
Monarcas absolutos
Um dos temas que percorrem o filme italiano é a vontade absolutista, não raro absurda de diversos reis. Outro soberano ((Toby Jones), depois de alimentar uma pulga com sangue, o que provoca o crescimento monstruoso dela, usa sua pele, quando ela morre, como objeto de um estranho torneio para escolha do marido de sua filha – que, afinal, será um ogro (Guillaume Delaunay), para desespero da garota.
Outro rei (Vincent Cassel), um insaciável lascivo, apaixona-se pela voz de uma mulher muito velha (Hayley Carmichael, sob uma maquiagem impressionante), gerando um dos episódios mais interessantes.
Sem dúvida, é de admirar que Garrone, diretor de Gomorra e Reality - A Grande Ilusão, se lance a filmes tão diferentes. No mínimo, um dos jurados do ano, o cineasta mexicano Guillermo del Toro (O Labirinto do Fauno) poderá apreciar esta incursão no cinema fantástico, o primeiro filme da carreira de Garrone falado em inglês.
Zen e fúria
Nada poderia contrastar mais na programação de um dia do que abri-lo com a adrenalina automotiva e motociclística de Mad Max – A Estrada da Fúria (fotos ao lado e abaixo), celebrando a volta do veterano George Miller à sua franquia de 30 anos atrás, e o contemplativo An, da diretora japonesa Naomi Kawase, que abre esta noite a seção Un Certain Regard.
Tudo que no novo Mad Max..., que estreia hoje (14-5) no Brasil, convoca a tensão, numa sucessão de perseguições arrepiantes, protagonizadas pela imperatriz Furiosa (Charlize Theron) e seu aliado, Max (Tom Hardy), em An (o nome dado à massa doce de fejião azuki que serve de base a vários pratos japoneses) convoca o apaziguamento, o olhar minucioso aos detalhes, o ouvido para os mínimos ruídos de folhas e passos.
Mais redondo do que o filme anterior da diretora, que competiu em Cannes no ano passado – O Segredo das Águas -, An (foto abaixo)remete ao estilo de Akira Kurosawa, num esmiuçamento de relações humanas entre gerações. Na meia-idade, Sentaro (Masatoshi Nagase), gerencia, sem grande entusiasmo, um pequeno negócio de “dorayakis” (espécie de mini-panquecas recheadas com massa doce de feijão). Ele está ali contra a vontade, devedor de enormes favores à família que é dona do lugar.
Sentaro coloca um anúncio para contratar um auxiliar e aparece-lhe como entusiasmada candidata uma velha senhora de 76 anos, Tokue (Kiki Kirin), com visíveis deformações nos dedos das mãos. Ele a recusa inicialmente, mas Tokue não é dessas pessoas que aceita um não como resposta. O resultado é uma inusitada parceria que muda o recheio das panquecas e sacode a vida do solitário Sentaro.

Com problemas com a família, uma das frequentadoras da lojinha de Sentaro, a adolescente Wakana (Kyara Uchida), torna-se o terceiro vértice deste triângulo, em que dialogam as necessidades humanas de todas as idades. Nesse diálogo, Kawase concretiza cenas de grande beleza plástica, envolvendo as cerejeiras em flor que Tokue admira tanto, num filme que discute a discriminação e o preconceito contra os doentes de hanseníase, antes isolados em sanatórios.
An remete também ao filme visto ontem de Hirokazu Kore-eda, Umimachi Diary, que, embora não tão bem-acabado, sem dúvida contribui para o alargamento de uma trincheira de reumanização da sensibilidade que a seleção de Cannes este ano parece estar colocando na dianteira. O filme de Kawase foi um respiro poético e filosófico, mas uma coisa se diga: o novo Mad Max.... é diversão garantida, ainda por cima com uma pegada feminista que cai muito bem. George Miller provou que ainda não perdeu o jeito da coisa.
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