23/09/2026

Melodrama espanhol e anti-épico argentino dividem atenções no Cine Ceará

 As questões da intimidade e identidade perpassaram a seleção de longas e curtas do segundo dia competitivo do 25º. Cine Ceará.
Do lado dos longas, foram exibidos duas produções ibero-americanas de perfil totalmente distinto, o melodrama espanhol – todo falado em euskeda, o idioma dos bascos -, Loreak, de Jon Garaño e José Maria Goenaga, e o anti-épico argentino (em coprodução com o Brasil e outros países) Jauja do diretor Lisandro Alonso.
Loreak – que significa “flores” em português – é tudo que um melodrama deveria ser. Ou seja, pungente sem ser meloso, contundente sem ser excessivamente trágico, permitindo a identificação com um notável trio de protagonistas femininas.
A vida das três é entrelaçada por algum tipo de ligação com um homem, Beñat (Josean Bengoetxea). Ele é filho de Tere (Itziar Aizpuru), marido de Lurdes (Itziar Ituño) e colega de trabalho de Ane (Nagore Aramburu). A trama começa quando Ane, que é casada, começa a receber flores semanalmente de um admirador secreto, que aparentemente seria Beñat. Mas isso só é intuído depois de uma tragédia.
A história evolui em torno da memória, de sua construção, negação ou proteção, tarefas que se alternam para cada uma destas mulheres.
Representando o filme em Fortaleza, a simpaticíssima atriz Itziar Ituño comentou que o elenco trabalhou em cima de muitas improvisações, a partir de um esqueleto da história. Os diretores, assinalou, aceitavam sugestões, mas “tinham que ser convencidos”. No set, ambos dividiam as tarefas, um deles se ocupando da câmera e dos enquadramentos, outro das interpretações. Ela mesma confessou ter dúvidas se dois diretores homens dariam conta de uma história assim feminina, mas afinal convenceu-se: “Fiquei surpresa como eles conseguiram desnudar a alma feminina”.
O filme, que fez bastante sucesso na Espanha, é também um manifesto em favor da afirmação da cultura basca, circulando naquele país com legendas ou numa versão dublada em espanhol.
 
 Anti-heroísmo e Amazônia
Filmado em boa parte na Patagônia – com trechos na Dinamarca -, e ambientado por volta de 1870, Jauja retrata a trajetória de um capitão dinamarquês (Viggo Mortensen), que trabalha na Argentina e tem uma única filha adolescente, Ingeborg (Villbork Malling Agge).
Quando esta filha foge com um soldado, o capitão embrenha-se pelos pampas remotos e áridos, em que se escondem alguns índios – implacavelmente caçados pelos brancos, por eles chamados de “cabeças de coco”. Nessa paisagem solitária, logo se vê em desvantagem, apesar do cavalo e do rifle, armas dos colonizadores e que ele logo perde, travando uma luta deseperada pela própria sobrevivência, já que comida e água são duros de conseguir por ali.
Há também um elemento misterioso, que pode ser encarado como mágico ou reflexo do inconsciente do protagonista, na presença de uma velha mulher (Ghita Norby) numa caverna e seu cachorro e também numa virada no tempo da história, na sequência final.
Na coletiva de imprensa, como habitualmente, Alonso foi reticente em explicações sobre seu trabalho – ele não é dado a elucubrações intelectuais sobre o que faz. Ele enfatiza que o que se vê na tela é resultado de um trabalho de equipe, destacando que a paleta de cores, por exemplo, decorre em boa parte das preferências de seu diretor de fotografia, o finlandês Timo Salminen, habitual colaborador de Aki Kaurismaki. Não se trata, portanto, de uma preferência dele mesmo por este ou aquele pintor ou este ou aquele diretor de cinema. John Ford é citado, mas Alonso garante que nem assistiu ainda a Rastros de Ódio, embora admita que Salminen adora este diretor.
Alonso acredita que várias de suas referências estejam certamente embutidas na versão acabada de Jauja, mas ele acredita mais no trabalho da equipe. Ele frisa, por exemplo, que a cena inicial, uma sequência intimista em que Mortensen conversa com a filha, foi sugerida pelo sonoplasta do filme, com diálogo depois idealizado pelo ator.
Os dois se conheceram, aliás, através de um amigo comum, o corroteirista Fabián Casas. Mortensen acabou participando tão engajadamente que se responsabilizou até por uma sequência musical – convencendo Alonso, que antes jamais havia usado música desta maneira em seus filmes, como Los Muertos e Liverpool.
Coerente com uma filmografia que integra a paisagem, o cenário físico, como um dos personagens, Alonso planeja agora filmar na Amazônia. Mas o projeto ainda deve amadurecer bastante.
Antes disso, Jauja, que foi premiado no Un Certain Regard, em Cannes, em 2014, deve estrear no dia 25 próximo – o primeiro filme de Alonso a ter lançamento comercial no Brasil, através da Vitrine.
 
Curtas
Dos quatro curtas da noite, dois abordaram diretamente a sexualidade: o autobiográfico Choclo, do paulista Caetano Gotardo, que retrata sua paixão por outro diretor, Gustavo Vinagre; e o experimental Action Painting no. 1/no. 2, de Krefer e Turca, do Paraná, expondo experiências do então casal de diretores com práticas sadomasoquistas, numa releitura da action painting do norte-americano Jason Pollock. Segundo Krefer, o curta vem sendo inclusive exibido em museus e salas de arte, inclusive em telas paralelas.
Obra coletiva de quatro diretores – Carol Veras, Felipe Murgel, Mariana Lage e Régis Cunha -, o cearense Cenário reaproveita fitas VHS de uma pessoa real, criando uma narrativa ficcional em torno de suas memórias familiares. O projeto, segundo os diretores, nasceu de uma tarefa do curso de cinema para retratar bairros da capital cearense, no caso, o Castelão, onde mora o dono das fitas, que é fotógrafo também.
Já visto em outros festivais, Nua por dentro do couro, do maranhense Lucas Sá, é uma incursão no gênero fantástico/terror, com declarada inspiração em Possessão, de Andrej Zulawski, em torno de uma paixão doentia de uma mulher (Gilda Nomacce) por uma criatura estranha.