06/06/2026

Novidades da Alemanha, da Finlândia e do Brasil

Um passeio por novidades alemãs, como o suspense 5 Mulheres, o premiado brasileiro Maresia – que registra uma dupla interpretação do ator Julio Andrade – e também do vencedor da seção Um Certain Regard em Cannes, o finlandês O dia mais feliz da vida de Olli Maki.


De punhos cerrados
Já em sua estreia, em 1965, com apenas 26 anos de idade, Marco Bellocchio disse ao que veio – e o melhor é como manteve a coerência ao longo de uma obra vital e contundente até hoje.
Neste primeiro filme, ele assina um dos mais virulentos ataques à hipocrisia de uma família burguesa e disfuncional, ensimesmada nos próprios vícios e loucuras e particularmente cega para enxergar os próprios desvios.
A metáfora da cegueira, aliás, começa pelo fato de que a matriarca viúva (Liliana Gerace) literalmente não enxerga. Assim, é incapaz de identificar o quadro neurótico que se acumula à sua volta, num cotidiano levado juntamente com seus quatro filhos.
Augusto (Marino Mase), o mais velho, é o provedor da família, que tem uma boa casa e algumas posses. Os três irmãos mais novos nada fazem: Giulia (Paola Pitagora), Alessandro (Lou Castel) e Leone (Pier Luigi Troglio), que é epiléptico.
Entre este trio, há um clima permanentemente tenso, com a dupla Giulia e Alessandro mantendo Leone mais à distância. A relação entre Giulia e Alessandro é sempre intensa e bipolar, marcada por uma sugestão de incesto.
Mas é um ódio profundo, mais do que tudo, que parece unir esta família em permanente estado de combustão. Uma sequência ilustra particularmente essa situação: quando Alessandro, que não tem carta de habilitação, conduz os familiares num carro, rumo ao cemitério onde está sepultado o pai, em alta velocidade, por uma estrada repleta de precipícios.
Como será uma marca característica de seu cinema por toda a vida, Bellocchio investiga com precisão e impiedade de médico legista o tecido de instituições, como a família, a religião e a moral social, focalizando aqui a raiva que move todos os membros de um clã – e que, por sua falta de direção e propósito, não pode ser motor de nenhuma mudança, exceto a autodestruição. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1 – 24/10 – 14:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 3 – 1/11 – 16:00


Maresia
CINESESC
- 24/10
- 16:30
CINEMARK CIDADE SÃO PAULO – 30/10 – 19:00


5 Mulheres
Exibido nos Festivais de Toronto e Munique, o suspense alemão que marca a estreia do diretor e roteirista Olaf Kraemer extrai seu sabor do fato de serem cinco mulheres isoladas numa casa na França as protagonistas de uma história temperada em doses iguais de perigo, crime e erotismo. As amigas são alemãs e marcaram este encontro, longe de maridos, namorados e filhos (as que os têm), para comemorar a volta à normalidade de uma delas, Marie, que passou por um grande trauma e recentemente retomou a pintura.
Tudo corre bem, entre jantares, vinho e confissões mútuas, até que um homem desconhecido invade a casa, desatando instintos de defesa reprimidos e também reações inesperadas, já que, quando detetaram o intruso, as amigas (quatro naquele momento) estavam ainda sob os efeitos de um cogumelo alucinógeno que uma delas misturara à salada, sem que as demais soubessem.
O filme é eficiente na fabricação deste clima de angústia, mantendo o interesse com a chega de novos personagens – a quinta amiga, um outro homem desconhecido, intervenções da polícia. Não é tão feliz a resolução da trama, mas pelo menos o trajeto foi divertido até ali. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5 – 24/10 - 17:00
CIRCUITO SPCINE OLIDO – 27/10 - 20:00
CIRCUITO SPCINE PAULO EMÍLIO – CCSP – 30/10 – 18:45


O dia mais feliz da vida de Olli Maki
O filme finlandês, que marca a estreia do diretor Juho Kuosmanen, foi o grande vencedor da seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2016. Filmado em preto-e-branco, ficcionaliza a trajetória de um personagem real, o boxeador Olli Maki (Jarkko Lahti), um campeão regional, no verão de 1962, quando ele vai disputar o título de campeão mundial dos pesos-penas.
O filme materializa com um espírito despojado e documental o choque e a inadequação deste homem singelo, interiorano diante das luzes e dos círculos de poder da capital, Helsinque, sendo confrontado por pressões e desafios que, até então, ele desconhecia. Do dia para a noite, ele tem que treinar intensivamente, perder peso e fechar o foco única e exclusivamente na luta de sua vida – sem ter tempo para quem ele mais ama no mundo, a noiva Raija (Oona Airola).
É então que se revela o verdadeiro tema do filme – será que é tão importante mesmo ganhar este título? Qual o significado real das conquistas de uma vida? Será que se pode ser feliz querendo menos, desprezando grandes vitórias socialmente valorizadas? A jornada de Olli, portanto, é existencial, miúda, inversamente proporcional à dos grandes heróis mitificados na vida e no cinema. (Neusa Barbosa)
RESERVA CULTURAL 2 – 24/10 – 21:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 25/10 – 15:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 27/10 – 15:50


O Plano de Maggie
Em seu novo longa, Rebecca Miller faz uma espécie de anticomédia romântica, em que o impulso da protagonista não é ficar com o herói no final, mas separar-se dele, porque ele não é bem o que ela pensou que era. A personagem central é Maggie (Greta Gerwig), que decide estar na hora de ter um filho; depois será tarde demais. O escolhido para fornecer o material para inseminação artificial é um antigo conhecido (Travis Fimmel). Mas, durante esse processo, ela conhece um professor na universidade onde ela também trabalha, e se apaixona por ele.
Trata-se de John (Ethan Hawke), um antropólogo aspirante a romancista, casado com uma mulher mais bem-sucedida do que ele, Georgette (Julianne Moore). Na verdade, o sucesso dela no mundo acadêmico o oprime levemente, a ponto de deixar se levar por Maggie, envolver-se com ela, deixando a mulher e filhos.
Alguns anos depois, os dois estão casados, e com uma filha pequena. Maggie se dá bem com o casal de filhos adolescentes de John, mas o marido ainda não acabou o tal romance, que já passa das 500 páginas. É nesse momento que Maggie percebe que nem tudo saiu como ela queria, que John poderia ser bem mais feliz com Georgette – e ela, Maggie, também poderia ser mais feliz sem ele. E arma um novo plano.
Rebecca, também autora do roteiro, coloca o mundo acadêmico – com suas pequenas guerras de egos disfarçadas – como cenário e faz uma comédia ácida sobre o estado da cultura e da teoria. Umas três pessoas sugerem a John, por exemplo, irem a um congresso no Canadá apenas porque Žižek
vai estar lá, e ele vai. É também uma comédia sobre a fugacidade do desejo humano e a constante insatisfação que nos move. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2

24/10/16 - 16:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3

02/11/16 - 19:10


Sem Deus
Ganhador de diversos prêmios no Festival de Locarno – entre eles, filme, crítica e atriz para
Irena Ivanova – Sem Deus é um estudo da crise financeira, política, emocional e, por fim, moral que assola a Bulgária, na pós-União Soviética. Para uns, pode ser mero misery porn, mas há algo de pungente no realismo da diretora estreante Ralitza Petrova, também autora do roteiro.
Irena interpreta Gana, uma enfermeira que, com seu namorado (Ventzislav Konstantinov), participa de golpes contra idosos. Enfermeira domiciliar, ela rouba identidades de pacientes idosos que visita, vendendo-as para um policial corrupto (Alexandr Triffonov), que as usa para esquemas criminosos. O casal vive uma vida medíocre, marcada pelo uso de morfina, que ela também rouba. A vida da protagonista só muda quando conhece um coral conduzido por um de seus pacientes, Yoan (Ivan Nalbantov).
Ralitza Petrova não se poupa de mostrar toda a miséria financeira e moral que envolve o mundo de seus personagens. A diretora não perde qualquer chance de enfatizar a sordidez desse ambiente, resultando num filme cruel, que parece dizer que nada mudou na Bulgária, mesmo depois da queda do ditador Todor Jivkov, há quase trinta anos.
Há uma recusa na obra em trazer uma luz de esperança, e a ausência de nuances nas personagens e situações talvez impeça o filme de ressoar como poderia. Nesse sentido, os vizinhos romenos da Bulgária encontraram uma forma mais eficiente de retratar os mesmos problemas. (Alysson Oliveira)
CINESALA -
24/10- 14:00
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP - 25/10 - 15:00
CIRCUITO SPCINE OLIDO - 29/10 - 15:00
CINEARTE 2 - 02/11 - 21:30


O Estudante
Partindo de uma peça alemã, o cineasta russo Kirill Serebrennikov realiza um filme austero e repleto de ideias e questionamentos (alguns chamariam de filme de tese) sobre fundamentalismo religioso, que mantém no roteiro – assinado pelo diretor – o melhor do teatro nos diálogos precisos, na construção das personagens, somada a força da imagem no cinema.
Numa época agnóstica como a presente, o ato de rebeldia talvez seja se voltar à Bíblia, e Venya (interpretado por um impressionante e assustador Pyotr Skvortsov) leva isso bem a sério, a ponto de saber passagens do texto bíblico de cor e comunicar-se através de suas citações. O longa já começa com seu mergulho no fanatismo, recusando-se a participar das aulas de natação pois expõem os corpos femininos.
Sua antagonista será uma professora de biologia, Elena (Victoria Isakova), repleta de ideias progressistas numa escola – e num país – marcada pelo conservadorismo. Ele encontra num padre católico ortodoxo (Nikolai Roschin) o seu maior apoiador, o que não impede que, nos momentos de maior fundamentalismo do rapaz, surjam atritos entre os dois.
O embate entre professora e aluno tem contornos assustadores, grotescos e até cômicos. O que está nas entrelinhas, no entanto, é uma disputa entre a antiga Rússia Soviética e a contemporânea. Três anos atrás, o presidente Vladimir Putin aprovou uma lei obrigando o ensino religioso no país – pais e alunos podem optar entre seis disciplinas, mas a Católica Ortodoxa é a mais escolhida. Essa clara união entre Estado e Igreja tenta evidenciar o passado comunista quando todos eram forçados a serem ateus. Mas uma medida tão radical e controversa como essa, como mostra o longa, não é simples e seus efeitos podem ser catastróficos.
Venya está cada vez mais alienado e se envolve com um colega (Aleksandr Gorchilin), que tem uma perna menor que a outra e é vítima de bullying constante na escola. O protagonista quer, com a fé de ambos, fazer com que as duas pernas fiquem do mesmo tamanho. Mas o outro rapaz tem outras intenções, e o conflito instaura as tintas mais trágicas do filme.
As escolhas estéticas do diretor – que ele sustenta com segurança e dignidade – traduzem na fotografia de Vladislav Opelyants as escolhas ideológicas dos personagens. Os vários planos-sequências seguram principalmente o embate entre o protagonista e a professora. A trilha sonora berra em alguns momentos com a o heavy metal da banda eslovena Laibach, cuja letra da canção “God is God” poderia ser o hino da vida de Venya. (Alysson Oliveira)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2 - 24/10 - 17:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3 - 25/10 - 19:30|